Maria Carpi fala sobre sequência de patronas na Feira do Livro de Porto Alegre nos últimos anos: “Quebra de jejum”

Foto: André Ávila/Agência RBS
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Colunista de Donna, autor de Cuide dos Pais Antes que Seja Tarde, Fabrício Carpinejar aceitou o convite para entrevistar a própria mãe, Maria Carpi, eleita a patrona da 64ª Feira do Livro de Porto Alegre, que começa no próximo dia 1º de novembro.

Fabrício Carpinejar

A Feira do Livro de Porto Alegre não tem uma poeta como patrona, tem desta vez a própria poesia encarnada: Maria Carpi, 79 anos, autora de 17 obras, premiada pela Associação Paulista de Críticos de Arte (APCA), com quatro Açorianos, Casa de las Américas e Erico Verissimo, escritora de Tudo o que É Belo É Efêmero (Modelo de Nuvem) e traduzida para o italiano e francês.

Não acredite em seus cabelos brancos. Não subestime a fertilidade de sua velhice. Tudo que ela toca – a árvore, a luz, a mesa, o relógio –, ela engravida. Engravida de versos.

Maria Carpi caminha devagar porque anda em brasas. Dentro dela, o fogo da invenção jamais se apaga. Proseie com ela um pouquinho só, e ela mudará a sua vida de significado. Não deixará de lhe dar o melhor abraço, ou de lhe oferecer um mate quente, coberto da hortelã de sua horta.

Ela costuma dizer que é Mariazinha do Nada, adepta da religião da humildade e do simples. Não é conversa fiada. Não ambiciona o sucesso, não costuma se elogiar, prefere valorizar o outro. Falará mais dos seus quatro filhos do que de si mesma. É a antivaidade em pessoa.

Em época narcisista, em que todo mundo quer aparecer, Maria não tem Facebook, Instagram e Twitter. Não a encontrará na virtualidade. É de carne, osso e palavras. Se quiser ser amigo dela, terá que ser de verdade, frente a frente, encarando os seus olhos intensos e castanhos de bosque.

Ela passou 50 anos na sombra, mais da metade da sua biografia longe das páginas e dos holofotes, trabalhando discretamente como professora e defensora pública. Editou o seu primeiro livro somente madura, Nos Gerais da Dor, para explicar que a dor existe para contrariar as nossas expectativas e nos inspirar a aprender a amar até o que não gostamos.

Ela nunca teve pressa, mesmo escrevendo desde a adolescência. Acredita que a paciência melhora a boca para o vinho. Melhora a boca para o agradecimento.

Maria Carpi cultiva as suas rosas amarelas e vermelhas em seu apartamento no bairro Petrópolis sabendo que vão morrer um dia. No fundo, tem fé de que as rosas serão replantadas além do tempo.
O que ela toca engravida de outra vida, a vida da memória e da delicadeza, onde os livros florescem eternamente.

Foto: André Ávila/Agência RBS

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Três mulheres consecutivas como patrona da Feira de Porto Alegre é uma tomada de poder?
Quando do anúncio do patrono, muito foi comentado que não houve alternância de gênero, com três nomes de mulheres consecutivos (Cíntia Moscovich, Valesca de Assis e agora Maria Carpi). Mas, considerando que Feira é a 64ª edição e houve apenas sete mulheres escolhidas, eu chamaria isso de quebra de jejum. Também se interroga se a escrita da literatura é feminina ou masculina. Poesia não tem gênero. Adélia Prado em uma entrevista fala que a criação é masculina. Eu me permito discordar, pois não faço distinção de gênero. Criação é ato das entranhas, seja a escrita de homem ou mulher.

Você teve uma infância incurável no Interior, em Guaporé, de criação livre, a céu aberto, isso determinou o seu jeito de escrever, nunca aceitando as cercas e preconceitos?
O maior prêmio da vida foi minha infância, entre Guaporé e Muçum, entre as planícies dos altos morros e os precipícios das encostas do Taquari. O Hotel Carpi estava instalado entre um pomar que, para mim, não era suficiente. Ia à procura de mais árvores e riachos. Se havia cercas, eu as pulava. Morar num hotel foi uma glória. Tínhamos uma casa agregada ao hotel que estava dentro de um vasto pomar. Os sotaques, os diferentes rostos, os hábitos dos hóspedes, as malas com seus segredos. Tudo em orquestração com os afazeres da cozinha e arrumação dos quartos. E dos bichos e árvores frutíferas da estação.

O pai e a mãe têm funções opostas em sua vida e não menos importantes. Poderia me exemplificá-las?
Pai e mãe é a conjugação do amor para a criança. Não se opõem em suas diferenças, mas se entrelaçam. Até nas tarefas da estalagem, meu pai cuidava das contas, da entrada e saída dos hóspedes, e minha mãe dirigia a cozinha e os funcionários. Nunca deixei de acompanhá-la na cozedura dos pães. Um verdadeiro poema. Meu pai sabia do mundo, tinha vindo adulto da Itália. Minha mãe sabia do coração e do regaço.

Você acredita na educação pela poesia: nem todo mundo precisa escrever poesia para ser poeta. Como os pais podem criar os filhos com mais lirismo?
A poesia educa pela criatividade e dá suporte às outras disciplinas. Em minhas palestras sempre digo isso: nem todos precisam escrever poesia para ser poeta. Ser poeta é uma adesão ao convite da vida. Exercer a cordialidade com o mundo. Preservar a beleza da fraternidade. Escrever poesia é uma decisão de coragem e persistência com a linguagem escrita. E não é fácil. Também ajuda outras leituras. Cada um deve encontrar o próprio ritmo e estilo. Mas permanece – como sagrado – o cuidado com a vida.

Seus livros não são coletâneas de versos, poemas episódicos, mas cada um segue a investigação de um tema filosófico, como a dor, o desejo, o perdão. Seus poemas fazem pensar, além de emocionar. É um movimento de resistência à fragmentação da vida atual?
Não sei se é uma resistência à fragmentação da vida. É assim que me ocorre: me apaixono por um núcleo do pensamento poético. E deixo que ele me invada para depois desenvolver o tema como uma partitura musical. Como exemplo: no meu livro Os Cantares da Semente deixei que o grão me habitasse e desenvolvi em vários cantos. Às vezes, tudo fica muito intricado, como um cipoal. Foi o que aconteceu com A Migalha e a Fome. Consegui avançar quando visualizei o poema em vários cantos. E ele começou a fluir.

Você diz que Beethoven compôs Für Elise para você? Como foi esse desencontro de tempo?
Não seria apenas porque eu me chamo Maria Elisa que Beethoven me alcançaria. Beethoven me alcança e enlaça com a beleza e emoção eternas. Elas não precisam do tempo e do espaço para chegar até mim de uma maneira única. E amorosa. A sensualidade fica ainda mais acentuada na velhice, do contrário do que se imagina. Vejo escrevendo poemas cada vez mais loucos de amor. A sensualidade não é pornografia. É a mais alta expressão das emoções com o toque da epiderme. Amar é essa força de não ter força. Quando me enamoro, acordada ou dormindo, tudo me põe grávida de poesia. Agora, não tem volta.

Prefere a solidão, a reserva, o recato. Mesmo com o reconhecimento de crítica, como Ariano Suassuna e Thiago de Mello, você ainda tem mais livros inéditos do que publicados. Sofre para publicar um livro?
Eu já tinha 15 livros prontos, aos 50 anos, quando editei meu primeiro livro, Nos Gerais da Dor. Mas tive de me preparar, reunir força, para vir a público. A solidão para mim não é isolamento, mas uma grande árvore onde me abasteço de sua sombra e frutos. É muito bom – uma dádiva – encontrar os leitores, que chamo do coautores. Eles, com sua leitura, fazem outra interpretação do poema.

O que ninguém sabe: gostaria de ter fugido com o circo na infância. Qual seria o seu papel no circo?
Em minha infância, as novidades em Guaporé, antes do cinema, eram os circos e os ciganos. Minha primeira vocação foi e ainda é ser trapezista do circo do mundo.

Apresenta inversões formidáveis em sua obra, como é mais difícil perdoar uma maldade do que uma alegria. A dívida da alegria seria impagável?
Meditei muito sobre o perdão. Pode-se perdoar a pessoa, mas não o fato. Regra do direito criminal.
E pensei poeticamente assim: há que se perdoar o amigo que nos traiu e muito mais o amigo que nos salvou. As pessoas com soberba não querem ficar devendo nada a alguém. Alegria não se paga, se devolve com o abraço.

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