Shana Müller: “Onde estavam as mulheres quando foi fundado o movimento tradicionalista?”

Por Shana Müller

Seguidamente penso naquela noite em que estudantes do Julinho resolveram pegar uma centelha da pátria e criar a chama crioula e, enfim, todo esse movimento de tradição que a gente exalta em setembro. Fico pensando onde nós estávamos? Onde elas estavam? Quem eram as namoradas dessa gurizada quando eles se reuniram para criar tudo isso? Estavam cevando um chimarrão? Fazendo a boia ou costurando um botão de camisa? Confesso que nunca conversei com nenhuma delas pessoalmente sobre o assunto, mas tenho a dúvida.

A verdade é que o movimento da tradição do Rio Grande começou com homens, inspirados em homens e em seus feitos para defender este chão. Em uma época, claro, em que a sociedade do mundo todo ainda mantinha a mulher em poucas tarefas e resumida à cozinha, à costura e, no máximo, à educação. Mas é bem verdade que, ao reviver os grandes feitos, ninguém lembrou que as mulheres existiam e que em algum lugar estavam enquanto seus homens iam pra guerra. Estavam no campo, cuidando do gado, da lavoura, da casa, dos filhos, do feridos e até mesmo emprestando o corpo para o prazer nos campos de batalha. Poucas, como Anita, estiveram armadas. Muitas sustentaram também essa história. E sustentamos até hoje.

Eu me orgulho de ter sido primeira prenda do Rio Grande do Sul e de ter feito parte ativa do Movimento Tradicionalista Gaúcho. Assim como eu, outras tantas gurias são parte pensante desses ideais de cultura e tradição. Quem sabe as figuras mais importantes.

A tradição, assim como a sociedade, também se transforma. Não há como parar a evolução, afinal é feita de e por pessoas. E nesses lugares, nós, mulheres, também seguiremos tendo voz, quem sabe passando a empunhar os microfones: conduziremos os cavalos, protestaremos nas ruas, cuidaremos dos filhos, trabalharemos pela economia e seguiremos costurando uma ou outra camisa.

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