Curadora de Caxias do Sul colore com arte o cotidiano de refugiados no Oriente Médio

Sheila (à direita na foto) com a equipe levou arte para o muro de 270 metros, nos arredores de Damasco | Foto: Conexus, divulgação
Sheila (à direita na foto) com a equipe levou arte para o muro de 270 metros, nos arredores de Damasco | Foto: Conexus, divulgação

Por Lara Ely, especial

Nos últimos dois anos, a gaúcha Sheila Zago tem viajado o mundo para levar cor a zonas de guerra. Criadora do Conexus Project, ela é responsável pela ida de artistas brasileiros a Damasco para pintar o maior mural da Síria nos muros de uma escola que abriga refugiados. Em meio ao cinza da poeira dos destroços surge, agora, um tom mais próximo ao da esperança.

Natural de Caxias do Sul, a relações-públicas que trabalhava com cinema foi parar no Oriente Médio quando se candidatou a um mestrado na University College London, a UCL, e conseguiu uma bolsa para estudar Curadoria e Museologia. Detalhe: a vaga era para o campus da universidade inglesa no Catar.

Apaixonada por viagens, lá se foi rumo ao Oriente Médio. Quando começou a desbravar a região, Sheila deparou com uma cultura ao mesmo tempo rica artisticamente e impactada por uma guerra civil que já dura seis anos. Os contatos que fez em visitas a museus e centros culturais a ajudaram a pôr em prática uma ideia trazida do Brasil: em 2008, ela havia criado, em Caxias do Sul, o Sujeito Coletivo, iniciativa que promovia exposições, aulas de pintura, escultura, fotografia, cinema, desenho e grafite. O cenário mudou, mas o propósito seguiu o mesmo – Sheila buscou financiamento e rebatizou o projeto de Conexus, agora em atividade na Síria, nos Emirados Árabes, na Índia, na Itália, no Líbano e no Qatar. Em um lugar onde se escuta barulho de bomba a todo instante, Sheila quis fazer da arte uma ferramenta para expressão e identidade de quem havia sido obrigado a deixar seu país, sua casa.

Foto: Maya Pinsky, divulgação

Foto: Maya Pinsky, divulgação

– É um trabalho coletivo e colaborativo, onde é difícil dizer quem se beneficia mais, é uma troca generosa e amorosa entre todos nós – diz ela.

A escola usada para hospedar a equipe dentro de um campo de refugiados, no Líbano, acabou virando albergue para receber pessoas vindas do norte do país. Nesse local, em uma cadeia de montanhas no Vale do Bekaa, o Conexus impactou mais de cem crianças e adolescentes entre dois e 18 anos.

– Eles foram tirados de suas casas e moram de improviso, por tempo indeterminado. A falta de conforto psicológico provém de uma série de motivos. A maioria das crianças não vai à escola, muitos adultos qualificados trabalham em subempregos, é uma situação de constante tensão – conta Sheila. – Estão ali enquanto aguardam, não se sabe muito bem o que, talvez o fim da guerra.

Escolhidos a dedo, os artistas são contratados com verba que sai do bolso da curadora, da captação em editais e de doações pela internet, e apoio logístico de embaixadas e centros culturais locais para ingressar e transitar com segurança nas áreas de risco, por exemplo. A pintura de um mural de 270 metros em Midam, próximo a Damasco, foi realizada pela dupla de artistas brasileiros Rimon Guimarães e Zé Palito, os Cosmic Boys: a série Cosmic Future colore a região com temas como pássaros, plantas e outros elementos da natureza. Os muros viraram até ponto turístico onde “todo mundo queria tirar selfie”.

– Virou um lugar de confraternização, algo simbólico que deu a eles um senso de pertencimento. Colorir o local onde essas crianças estão tem um efeito imediato, representa o começo de um diálogo e de uma transformação – destaca Sheila.

O futuro do Conexus está em aberto. Atualmente radicada em Nova York para um estágio de verão no Brooklin Children’s Museum, a curadora pretende voltar ao Oriente no final do ano, a convite da Embaixada Brasileira na Síria, e procura novos parceiros para colorir de esperança outros muros pelo mundo, sobretudo no Brasil.

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