Depois de oito anos, Carpinejar volta à poesia em livro sobre relacionamentos

Cíntia Moscovich*

Um poeta se vê em seu próprio velório, cercado por todas as mulheres que teve na vida. Observando-as, uma a uma, o poeta lembra o passado e se pergunta qual delas é, de fato, sua verdadeira viúva.

Esse é o mote que Fabrício Carpinejar usa em Todas as Mulheres (Bertrand Brasil, 112 páginas, R$ 25), livro que marca a volta do autor à poesia depois de oito anos longe do gênero – período no qual se dedicou à crônica e a deslanchar uma carreira multimeios (jornais, revistas, duas emissoras de televisão, rádio e internet).

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Carpinejar retoma seus versos com exuberância mas com absoluto rigor. Dono de um vocabulário muito rico, audacioso na construção de suas imagens, o autor reflete sobre um dos temas que o fizeram conhecido do público, o dos relacionamentos amorosos.

A exemplo de seu livro de estreia, As Solas do Sol, de 1998, Todas as Mulheres segue uma espécie de enredo, expediente que dá ares de narrativa à forma de versos. Nessa fantasia póstuma, em que o poeta tenta localizar entre aquela que, por amor, é sua verdadeira viúva, o saldo é um impressionante inventário sentimental. Não que esse rol de paixões seja extravagante ou esquisito. Ao contrário, os amores de que fala Carpinejar são comuns, relações iguais às que se veem todos os dias e que, por isso mesmo, propiciam conclusões singelas mas dolorosas.

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Escrevendo com muito empenho e lirismo, falando de paixões incendiárias, com toques de suave erotismo, Carpinejar consegue chegar ao essencial do essencial. Essa simplicidade suada, essa negação ao excesso, talvez seja essa a grande marca do retorno de Carpinejar à poesia. Ele trabalha com uma naturalidade e uma precisão que levam a crer que amor e desilusão podem ser contados de uma maneira comum. Talvez até possam.

*Escritora e colunista do 2º Caderno

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Confira um trecho do livro:

O caixão é uma mala, a última mala preparada,
a derradeira mala, quando a despedida
não é uma chantagem.
Quem me levará para casa
e dividirá as gavetas com justiça?

Quem será a minha viúva: a que me amou como homem
ou a que me amou como poeta?
A que amou minha criação ou a minha destruição?

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