Detox para a alma: jornalista conta a experiência de se desligar do mundo em retiro espiritual com o guru Prem Baba

Fotos: Sitah, Divulgação
Fotos: Sitah, Divulgação

* Por Rossana Silva, Especial

Até há pouco tempo, passar as férias em um ashram na Chapada dos Veadeiros (GO) com uma rotina de yoga, canto de mantras, meditação e prática de serviço voluntário era uma ideia distante da minha realidade. Aos 31 anos, a maior parte das minhas visitas a igrejas ou templos foram a turismo. Em Jerusalém e no Vaticano, pensei que sentiria algo – não aconteceu. Estava na cara que a espiritualidade e a religião eram experiências às quais eu ainda não estava aberta. Por isso, entendi a surpresa da fotógrafa Sitah quando me encontrou por acaso perto da tenda que ocupei nos seis primeiros dias do retiro Awaken Love, em Alto Paraíso (GO).

— Menina! Nunca imaginei você neste lugar! — me disse ela.

Leia também
:: Opinião: retiro espiritual provoca reflexões e pausa na rotina
:: Mindfulness:  a técnica de meditação que conecta você com suas sensações
:: Antes vista apenas como atividade mística, meditação ganha o aval da ciência

Quando nos conhecemos, em uma viagem de trabalho, achei excêntrico que Sitah recém tivesse ido à Índia encontrar seu guru, de quem eu jamais ouvira falar: Sri Prem Baba. Agora, cinco anos depois, era eu quem me aventurava na tentativa de aprender com a sabedoria do líder humanitário nascido em São Paulo que propõe uma espiritualidade prática e não representa nenhuma religião (veja abaixo). Os encontros ocorreram todas as manhãs durante os 45 dias do retiro, encerrado em julho.

Embarquei em Porto Alegre com mais quatro amigas, dos 30 aos 65 anos, cada uma com uma expectativa diferente para o seu primeiro retiro espiritual. Ao longo do último ano, havíamos apresentado umas às outras vídeos, pensamentos e o livro do guru. Apesar do meu ceticismo, estava aberta a que algo fizesse sentido.

Em sânscrito, “ashram” remete a um lugar para a prática de yoga e estudos espirituais. O de Prem Baba, na Chapada dos Veadeiros, é uma grande área verde com cachoeira e piscinas naturais, gerenciado de maneira coletiva e ecológica. Bancos em meio aos jardins e redes embaixo das árvores convidam a desacelerar. Nem adianta olhar para o celular: vai ser uma sorte se ele tiver mais do que um risquinho de sinal.

— Estar longe da TV e com internet limitada convida à reflexão e ao encontro consigo mesmo. Tudo é propício a que um sentimento de paz e harmonia vá se instalando em nós ao longo dos dias – comenta a contadora Daniela Manjabosco, 38 anos, de Passo Fundo, que conhecemos no Aeroporto Salgado Filho e se tornou a sexta integrante do nosso grupo de amigas.

00b40644

Por ali, o dia começa cedo. Às 7h, um alarme anuncia o aarti (preces em sânscrito), seguido por canções devocionais. A cerimônia é transmitida por alto-falantes, e muitos aproveitam para escutá-la praticando yoga ao ar livre ou meditando enquanto recebem os primeiros raios de sol. A sensação é de estar em outro continente. Parece inacreditável que seja possível acordar desta maneira a poucas horas de Brasília.

Depois do café, servido entre 8h e 9h, começa a preparação para o encontro com o guru. É a atividade mais esperada do dia. Por volta das 10h, o salão já lotou. A poltrona de Baba ainda está vazia, mas já dá para entrar no clima com os mantras da banda Awaken Love. A orquestra com instrumentos indianos e cantores de vozes celestiais já é, por si só, uma atração. Quando a música para, todos se levantam e unem as mãos em frente ao peito saudando o mestre, que adentra vagarosamente fitando os olhos de todos pelo caminho. Os mantras são retomados quando o guru se senta para examinar o maço de perguntas direcionadas a ele. Naqueles papeizinhos estão depositadas aflições e dúvidas de todo tipo. Baba ainda não falou uma palavra, mas muitos já têm lágrimas escorrendo pelo rosto, inclusive eu.

No primeiro dia, Prem Baba começou os trabalhos pela dúvida de um seguidor que disse não saber o motivo de sua estada no ashram: “Apesar de muitas dúvidas, saí da minha zona de conforto e vim passar quatro dias com você. O que estou fazendo aqui?”.

Baba respondeu com outra interrogação.

— Mesmo cheio de dúvidas, mesmo cheio de nãos… onde mais você poderia estar? Me diga!

Os risos se espalham pelo salão. A pergunta não era minha, mas a resposta me serviu e me fez sentir uma certeza que poucas vezes desfrutei, de estar no lugar certo e no momento certo.

Ao longo dos dias, o guru comenta dezenas de inquietações. Há respostas curtas e diretas e outras que requerem explicações longas. Ele foi sucinto, por exemplo, ao explicar por que não era permitido se deitar no salão durante as meditações:

— Porque uma coisa é meditar, outra é me deitar.

Os risos são comuns a cada vez que o guru lança mão de seu senso de humor espiritual. Aplausos não são corriqueiros, mas foram escutados quando ele se dirigiu a uma mulher que lhe perguntava o que fazer já que a pessoa que amava preferiu ficar em outro relacionamento “por medo e dinheiro”.

— Você quer mesmo que eu lhe responda? Se perguntou, é porque você quer. Deixa ele ir, minha filha. Deixa ele ir!

00bb949b

Em meio a dilemas tão pessoais, o guru também encontra espaço para debater assuntos como insatisfações no trabalho, política e corrupção. No dia seguinte à divulgação da notícia do estupro coletivo no Rio, no final do maio, Prem Baba abriu sua conferência diária falando sobre o tema e a necessidade de uma mudança de valores urgente, a começar pela educação.

— Esse é um dos primeiros pontos a serem observados. O que estamos ensinando às nossas crianças? Onde estamos errando, a ponto de alimentarmos a distorção do feminino e do masculino por milênios? Nós estamos criando estupradores e estamos criando mulheres vulneráveis ao estupro — disse.

Entre silêncio, comoção e mantras, os encontros se estendem até pouco antes do almoço, servido às 14h. As tardes são dedicadas à contemplação, conversas, banho de piscina ou cachoeira e trabalho voluntário. O final do dia chega com uma nova rodada de yoga, orações e cânticos. O jantar é servido a partir das 19h30min. Às 22h, sob um céu crivado de estrelas, todos já estão descansando em seus chalés, tendas ou barracas.

O ashram, segundo Prem Baba, está instalado em um lugar que incita a clareza.

— Se você ainda não tem clareza, é uma questão de tempo. Estando aqui, ela naturalmente se manifesterá — prometeu, no primeiro dia.

E assim foi. Os dias em Alto Paraíso serviram como detox para a alma e reorganização interior. Havia vivido os últimos meses no volume máximo, me ocupando de que cada vácuo de tempo fosse preenchido por algum som. Ali, pude finalmente apreciar o silêncio. Primeiro, por obrigação. Logo, por gosto, como no refeitório. Naquele lugar onde a única fala permitida é a da prece antes de cada refeição, pareceu durar horas o primeiro almoço completamente muda (embora na parte externa fosse permitido falar, havíamos aceitado o desafio do silêncio). E foi difícil controlar a vontade de comentar com as amigas como a comida estava gostosa. Com o passar dos dias, superar a necessidade de falar foi libertador. A experiência aparentemente simples de comer em silêncio estando em grupo foi a mais transformadora. Não havia nada a dizer, apenas saborear e agradecer. O cardápio de grãos, vegetais, cremes e pastinhas preparados com uma profusão de temperos era um banquete do qual carnes e álcool passavam longe – e não faziam a menor falta. Quase quebrei o silêncio para pedir a receita do bobó de shitake.

Nosso grupo com uma jornalista, uma administradora, uma contadora, uma estilista e duas aposentadas já era diverso, mas, no ashram, a variedade de perfis se ampliou. Os seguidores de Prem Baba não podem ser enquadrados em um único grupo social. Há gente das humanas e das exatas, do yoga e do mercado financeiro, além de muitos estrangeiros e até o Reynaldo Gianecchini, que após cada refeição lava a sua louça na lavanderia coletiva, como todos os demais hóspedes, sem causar nenhum frisson ou pedidos de selfie. E todos são convidados a colaborar no “seva”, um trabalho voluntário de pelo menos uma hora por dia. A participação não é obrigatória, mas se envolver é um barato. O trabalho aproxima pessoas de mundos diferentes e incentiva talentos que muitas vezes são descobertos na prática.

Na equipe da composteira, sob o sol forte da tarde, ajudei a preparar as estruturas que receberiam os resíduos orgânicos do restaurante e recolhi do gramado a palha seca necessária no processo de decomposição. Ali conheci a designer gráfica Claudia Weiss, uma mineira de 50 anos que vive há 28 anos na Áustria. Ela chegou até Prem Baba pela internet, pouco antes do retiro de 2015. Ainda que um pouco receosa sobre o que iria encontrar, embarcou para três semanas em Alto Paraíso. Desta vez, para passar toda a temporada do retiro.

— Antes de vir, eu me sentia feliz e não estava à procura da espiritualidade. Mas, desde então, percebo que tenho me tornado uma pessoa mais suave. Sem nenhuma mudança drástica, a vida se tornou mais gostosa – contou a designer, que desta vez voltou ao Brasil para permanecer os 45 dias do retiro em Goiás.

Enquanto Cláudia, as amigas e eu pegávamos no batente, outra equipe trazia as sobras do café da manhã e as depositava no recipiente que já estava pronto. Não é que o o trabalho em equipe estava dando resultado? Era a nossa contribuição em um lugar que preza pela sustentabilidade. Me senti gratificada. Gostei tanto que já não queria ir embora. Uma semana passou rápido. Voltamos mais leves, com um grupo de WhatsApp turbinado com dezenas de gaúchos que viveram as mesmas experiências e continuam em contato em Porto Alegre e no Interior e com o desafio de manter o mesmo estado de paz de espírito que encontramos em nossos dias com Prem Baba.

00bb92bf

 

Espiritualidade na prática

Confira as dicas de Prem Baba:

Meditação

Incluir a prática deste exercício na rotina é uma fonte de energia, de transformação e de reconexão. Sente-se por alguns minutos, alinhe o corpo, feche os olhos e concentre-se na sua respiração: você está voltando para o eixo.

Gratidão

Agradecer é libertador. Tente enumerar as coisas que você viveu pelas quais deve ser grata. Ao se conectar com este sentimento, estenda-o a tudo o que acontece na sua vida, incluindo o que parece indesejado, pois são são oportunidades de crescimento.

Natureza

Se você não pode escapar da cidade, aproxime-se da natureza frequentando parques e praças onde haja árvores, flores e água. Caminhe por estes espaços e tente respirar a beleza e se reconectar com o seu coração.

 

Entrevista: “A mulher é mais aberta à transformação”

Ele nasceu Janderson Fernandes de Oliveira, mas é pelo nome espiritual, Sri Prem Baba (em sânscrito, o Pai do Amor), que se popularizou na internet. Com linguagem simples e direta, ecoada nas redes sociais por uma equipe voluntária, o guru brasileiro propõe uma espiritualidade prática, aproximando-se de pessoas que não se interessavam pelo tema. O resultado é um sem fim de compartilhamentos a cada aparição nas redes.

Os seguidores não são apenas virtuais: a cada ano, milhares lotam seus satsangs (palestras em que ele responde dúvidas dos presentes) e participam de seus retiros na Índia e no Brasil.

Prem Baba foi guiado na Índia pelo mestre Raj Maharajji, que o denominou seu sucessor e continuador da linhagem Sachcha. Desde então, dedica-se a propagar uma cultura de paz e valores humanitários, sem estar ligado a nenhuma religião. É autor dos livros Amar e ser livre (editoras Dummar e Agir) e Transformando o sofrimento em alegria (editora Demócrito Dummar).

Em uma tarde de sábado, visitamos o chalé de Prem Baba no retiro de Alto Paraíso para uma conversa sobre espiritualidade e como manter a paz de espírito vivendo nas cidades. Leia alguns trechos:

As mulheres são a maioria no retiro. Estamos mais abertas à espiritualidade DO que os homens?
Desconfio que há mais mulheres do que homens no mundo mesmo. Em todos os lugares a que vou, há mais mulheres. Tenho percebido a mulher mais sensível e mais aberta à transformação, até por conta da sua estrutura psíquica. Ela está diretamente mergulhada no mundo dos sentimentos e das emoções. A mulher tem aberto o caminho, ela chega primeiro, depois traz o namorado, o marido.

00b40645

Como é ser um guru na era das redes sociais?
Considero importante estar informado sobre o que está acontecendo no mundo para compreender aquilo que passa por mim. Tenho o hábito de ler jornal e acessar sites de informação. As pessoas chegam aqui muito impactadas pelo que está acontecendo e buscando conforto, uma resposta, uma direção, por conta do que elas viveram e devido ao impacto da informação.

Em um dos seus encontros, você tratou do estupro coletivo no Rio. Vê uma solução para o problema da cultura do estupro?
É um tema atual e absolutamente urgente. Precisamos focar nesse assunto, conversar e criar mecanismos de conscientização em larga escala para que as pessoas o núcleo do problema, que é a ignorância e a falta de conhecimento. Uma das possibilidades de transformação está na educação. Precisamos agregar no currículo escolar as habilidades socioemocionais e ensinar as crianças a lidar com a emoção, os sentimentos e a sombra. Precisamos ensiná-las a acolher os sentimentos que são negados.

É possível manter a paz de espírito no dia a dia das cidades?
Tenho falado muito na espiritualidade prática, que se manifesta no seu dia a dia, no trabalho, com a família ou onde a vida pede que você esteja. Nosso desafio é transformar nossas ações em uma prática espiritual, independentemente se você trabalha em um banco, cuida de um jardim ou administra uma empresa. Todos estes afazeres podem se transformar em uma prática espiritual para quem tem consciência do seu propósito. As pessoas sofrem porque não têm consciência do propósito. Além da consciência do propósito, há mecanismos simples que podem ser usados para amenizar o sofrimento, como meditação e exercícios de respiração.

 

O retiro

A temporada Awaken Love em Alto Paraíso dura cerca de 40 dias, nos quais os participantes experimentam a rotina de um ashram. A alimentação é vegetariana e elaborada por nutricionistas. Os pacotes são semanais com hospedagem em chalés, tendas e barracas (diárias entre R$ 110 e R$ 185, sujeitas a alterações para o próximo ano). Você pode se informar para a temporada 2017 no site sriprembaba.org e pelo Facebook: facebook.com/sachchaprembaba/

Os áudios dos encontros com Prem Baba no retiro de Alto Paraíso podem ser escutados em soundcloud.com/sri-prem-baba.

Por aqui: Sri Prem Baba fará a abertura do Diwali: Festival das Luzes de Porto Alegre, em 30 de outubro. Informações em zhora.co/prembaba e pelo e-mail diwalipoa@gmail.com

Leia mais
Comente

Hot no Donna