Dia dos Pais: as mulheres que encontraram nos pais o melhor companheiro para curtir a vida

Esses seus cabelos brancos, bonitos, esse olhar cansado, profundo

Me dizendo coisas, um grito, me ensinando tanto do mundo

E esses passos lentos de agora caminhando sempre comigo,

Já correram tanto na vida,

Meu querido, meu velho, meu amigo

Pode ser clichê, mas vamos combinar que, neste final de semana, é difícil não lembrar da canção que Roberto Carlos compôs em 1979, em homenagem a seu pai. A letra de tom melancólico torna-se ainda mais tocante quando se assiste ao clipe, montado com imagens do velhinho de estatura pequena, cujas feições assemelham-se às do cantor, sentado em uma poltrona, recebendo um beijo do filho. A poesia cantada traz muitos dos elementos relacionados às figuras tradicionais dos pais especialmente os pais de pessoas adultas: cabelos brancos, passos lentos, olhar cansado. Roberto inspirou-se no próprio pai, é claro, um senhor já bastante idoso. Mas será que todas as relações entre pais e filhos chegam à maturidade com o tom grave e introspectivo que o Rei deu a sua canção?

Dia dos Pais
:: Coluna: o pai que queremos ser – e ter!
:: Crônica! Trocar a fralda é o básico, por Marcos Piangers

Ao buscar histórias para ilustrar esta reportagem especial de Dia dos Pais, descobrimos que não. Pai rima, cada vez mais harmoniosamente, com amigo, companheiro, parceiro. Depois de boa parte da vida sendo (apenas) pai, muita gente descobre que também pode ter nos filhos os companheiros ideais para praticar esportes, pular Carnaval, viajar, cozinhar ou qualquer outro hobby que faça a vida ficar mais leve e saborosa. E os filhos, que já tiveram naquele homem somente a figura paterna, percebem que há muito mais naquele sujeito do que poderiam supor.

Observar as mudanças nos arranjos familiares prova que a figura paterna já não tem o mesmo papel que ostentava há 20 anos na sociedade brasileira. Segundo números do IBGE, o modelo pai + mãe + filhos já representa menos da metade das famílias no país. Outras configurações, como lares em que só um dos pais toma conta da prole, são cada vez mais comuns desde que as mulheres ingressaram de forma expressiva no mercado de trabalho – o que deu a elas a independência necessária para, por exemplo, encarar um divórcio. As mudanças em ritmo acelerado fizeram surgir inquietações e discussões sobre o papel do homem na nova estrutura social e, principalmente, o papel do pai na formação dos filhos e na organização familiar.

Com mais tempo e sem o peso da responsabilidade de ser o único provedor, o homem passou a descobrir novas possibilidades de relacionamento com os filhos, tornando a paternidade algo naturalmente mais próximo e presente.

Mas isso não significa que pais mais velhos, que viveram o período da paternidade à moda antiga, não experimentem, também eles, a sensação de descobrir-se, mesmo que na maturidade, os melhores amigos de seus rebentos. Ao compartilhar gostos, interesses e hobbies com os filhos, fica selada uma herança íntima deixada de um para o outro. Ou melhor: uma herança desfrutada por todos, sem necessidade de inventariar o tamanho da felicidade.

Assim são as histórias que recolhemos para esta reportagem. Pais e filhas que descobriram-se, em algum momento, os companheiros ideais para curtir a vida. É o caso, por exemplo, do pai que encontrou na filha a melhor parceira para duas das suas maiores paixões: degustar vinhos e viajar – hábitos que também são os hobbies preferidos dela. A ausência da mãe, acometida pelo mal de Alzheimer, fez com que a dupla se tornasse ainda mais próxima nas questões familiares e também na necessária diversão. Em busca de vinhos e aventuras, já andaram por destinos como Caribe, Punta del Este e Portugal – e já planejam incursões por Itália e Estados Unidos. Ele, um comerciário de 67 anos, há tempos não marca férias sem antes consultar a agenda da filha, a jornalista que agora escreve este texto emocionado. E ela, quem diria, percebeu que a letra da música de Roberto Carlos – outra paixão transmitida pelo pai – não é só melancolia. Quando, nos versos finais, o Rei canta que “seu sorriso franco me anima”, ele bem poderia estar nos observando, a mim e ao meu pai, ao bebericar um branco bem gelado em algum lugar do mundo.

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Unidos pelo esporte

 

Quando tinha apenas quatro meses de vida, a advogada Anelize Caminha, hoje com 24 anos, praticou pela primeira vez o esporte que, além de preencher a infância e a adolescência, também revelou o seu melhor amigo. No colo do pai, a pequena cruzou as águas do Guaíba a bordo de um veleiro, empurrada apenas pelo vento. A parceria inaugurada naquele dia nunca mais se desfez. Pelo contrário. Tornou-se cada vez mais firme à medida que a menina crescia. Hoje, o advogado e velejador Marcelo Caminha, 65 anos, tem na filha a maior companheira, a bordo ou em terra firme.

— Ela veleja comigo desde que nasceu, praticamente. Nas primeiras vezes, ainda tomava mamadeira. E com o tempo foi aprendendo. Sempre foi uma grande parceira — conta Marcelo.

Na infância, esperava-se que os irmãos maiores seguissem com mais afinco o esporte do pai, mas foi Anelize quem nunca desgrudou do seu instrutor particular. Assim que teve idade, começou a competir nas classes correspondentes ao seu tamanho. Viajou por todo o país para participar de regatas e campeonatos, normalmente na companhia do pai.

— As gurias, quando são modelos, a mãe as acompanha, né? Pois na maioria das minhas viagens quem me acompanhava era o pai, que ficava torcendo e me incentivando nas competições — relembra Anelize.

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Durante toda a adolescência, a rotina diária de pai e filha incluía pelo menos uma passada no clube Veleiros do Sul para treinar ou fazer reparos no barco. O entusiasmo dele fez par perfeito com a empolgação e o desejo de aprender que floresciam nela. À relação de pai e filha, que sempre existiu, foi somando-se um crescente sentimento de amizade, uma cumplicidade possível apenas entre dois espíritos afins que, a despeito de qualquer laço de sangue, possuem interesses em comum.

— Às vezes, eu estava empolgada com uma competição, mas a mãe não queria que eu perdesse aula para velejar. E ele sempre interferia dizendo que não tinha problema, que era só aquela vez, que eu podia matar a escola só aquele dia. Isso é mais coisa de amigo do que de pai, né? — conta Anelize.

Quando chegou a hora de fazer faculdade, a velejadora precisou diminuir o ritmo de treinos para estudar e cumprir os estágios e compromissos do curso de Direito. Apesar da prática mais esporádica do esporte, a ligação de amizade e parceria entre pai e filha já estava estabelecida.

— No ambiente do barco aprendemos a nos conhecer, trocamos confidências, conversamos muito. E, mesmo quando não estamos velejando, não ficamos longe um do outro — afirma Anelize.

Com o tempo, as novas amizades que chegavam na vida da jovem encontravam um plus na convivência com Anelize: o pai, sempre presente nos momentos de lazer, acabava tornando-se mais um integrante da turma. Um integrante mais velho, que tomava conta do barco, mas igualmente parceiro e divertido. Até o namorado já foi devidamente influenciado pela dupla e está decidido a aprender a velejar.

Depois da formatura, pai e filha encontraram mais um jeito de exercer a parceria que sempre deu certo a bordo. Advogada licenciada, Anelize foi trabalhar no escritório do pai, na zona sul de Porto Alegre.

— Agora passamos muito tempo juntos, o que é bom. Nossa afinidade também é profissional. Sem contar que, de vez em quando, no fim do expediente, ainda podemos vir juntos ao Veleiros para botar o barco na água — comemora Anelize.

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Tudo acaba em pizza

Há 20 anos, quando se separou da primeira esposa, o analista de sistemas Ney Corrêa Filho, 58, sentiu o vazio de conviver menos com as duas filhas, Roberta e Rafaela Corrêa. Nos encontros semanais que tinha com as duas, o destino era sempre uma pizzaria. O local servia a múltiplos propósitos: o cardápio agradava às duas, que eram meninas ainda, proporcionava um momento só deles, para conversar e estreitar os laços, e, além de tudo, satisfazia a fissura dele mesmo por pizza. Com o tempo, pensou que poderia passar a fazer pizza em casa, para que as meninas ficassem mais à vontade e também para reduzir os custos daquele programa semanal. Hoje, comer pizza é muito mais do que uma opção gastronômica para os três. É um hobby compartilhado por pai e filhas.

Quando começou a preparar as iguarias em casa, Ney comprava massa e molho prontos, aquecia no forno a gás e pronto. Até que ganhou, em um Dia dos Pais, um disco de pedra para incrementar o preparo. No cartão preparado pelas gurias para homenageá-lo, estava a receita básica da massa caseira.

— Despertei aí para a parte mais gostosa de tudo, que é preparar mesmo a pizza. Aprendi a fazer a massa e fiz até curso de pizzaiolo, para aprimorar a técnica — revela Ney.

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Um terraço subaproveitado na parte superior do apartamento ganhou uma reforma para se tornar o cantinho da pizza. No espaço exíguo, ele fez caber uma pia, uma bancada de pedra para abrir a massa, a mesa para o jantar e até um forno a lenha para assar. As meninas, já adultas, também deram o seu toque ao ritual familiar. Roberta, de 31 anos, usa seu olhar de publicitária para decorar o ambiente – é ideia dela a lousa na parede que ilustra o cardápio do dia. Já Rafaela, 27, comporta-se como uma boa nutricionista: implementou os sabores funcionais e a massa integral, além de supervisionar os cuidados com a horta, que fornece os condimentos frescos. Nas quintas-feiras, dia reservado para o encontro familiar, Ney sai do trabalho ao meio-dia para preparar a massa e deixá-la crescendo até a noite.

Além dos três elementos da formação original – pai e filhas -, o evento já ganhou agregados: a esposa de Ney, que participa da função desde o começo, os namorados das gurias e até as duas cachorras da família, cada um com uma função específica no manejo da pizzaria dos Corrêa.

— Esse ritual não foi planejado, mas representou um salto na nossa convivência. Temos mais entrosamento, mais intimidade. E temos uma sintonia muito especial, pois as meninas são tão apaixonadas pela função da pizza como eu — derrete-se o pai-pizzaiolo.

Mesmo com a correria da vida de cada um, o encontro semanal é sagrado. O dia da semana já foi alterado inúmeras vezes em função das agendas, mas nunca deixou de ocorrer.

— Eu e a Rafa tivemos que amadurecer para entender o valor dessa parceria. Ao compartilhar esse hobby com o pai, sentimos mais amor, mais chamego, descobrimos um grande amigo. E esse encontro é a celebração da nossa convivência — comenta Roberta.

— Fomos crescendo, fazendo a nossa vida e construindo uma rotina particular, mas nos mantemos unidos pela pizza e pela paixão do pai por esse ritual. É o melhor compromisso da semana — garante Rafaela.

Enquanto abrem massas e espalham molhos, os três trocam confidências e desabafos. Ora Ney é o pai que aconselha, ora as gurias são as amigas que opinam sobre a vida dele. E, a qualquer momento, tudo se inverte.

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Reencontro transformador

Os pais da advogada Bianca Alves, 31 anos, se separaram quando ela tinha apenas seis anos – a menina ficou morando com a mãe, em Porto Alegre, e o pai retornou à cidade natal, Santa Maria. A distância, os compromissos e a correria acabaram afastando Jorge Luiz Alves, de 50 anos, de sua primogênita. Na infância da menina, viam-se basicamente nas férias escolares.

— A distância nos afastou, mas eu sempre senti falta dele — lembra Bianca.

A paixão dela pelos animais, especialmente pelos cavalos, fez com que a primeira opção na faculdade fosse Medicina Veterinária, que ela começou a cursar na Uniritter. Na época, o pai já trabalhava com leilões de cavalos aos finais de semana, como um hobby. E foi neste interesse em comum que Bianca encontrou uma maneira de retomar a convivência da qual tanto sentia falta:

— Ele viajava para muitos locais do Estado para transmitir os leilões aos finais de semana. E eu, como estava cursando Veterinária, ia junto para ver os animais, acompanhar. E assim fomos retomando nossa relação, pois ficávamos sozinhos, sem outras pessoas da família, com tempo só para nós.

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Apesar do amor pelos animais, Bianca desistiu do curso de Veterinária na metade. Pensou que uma carreira no Direito, área da qual também gostava, poderia ser mais rentável e proveitosa. Trocou de curso, formou-se advogada e passou a atuar em um escritório. Mas os laços com o pai já eram indissociáveis. Os dois continuaram viajando pelo Estado para acompanhar os cavalos, hábito que cultivam até hoje.

— Temos uma afinidade muito grande quando se trata de cavalos. Pensamos da mesma forma, gostamos das mesmas coisas. Então, estar com ele e acompanhar os animais é bom demais. Tomamos chimarrão, conversamos, trocamos ideias e confidências. Assim, nos tornamos os melhores amigos depois de adultos — emociona-se Bianca.

Esta amizade não produziu apenas efeitos na relação entre pai e filha. O convívio e a parceria com o pai fizeram Bianca repensar toda a sua vida e desejar uma mudança de rumo profissional. Incentivada por Jorge, ela retomou a faculdade de Veterinária do ponto em que havia parado. Desta vez, pretende concluir o curso para envolver-se ainda mais com o hobby do pai, transformando os cavalos e os leilões em profissão.

Ele não poderia estar mais feliz com a decisão, pois não esconde a felicidade de ter reencontrado sua melhor amiga.

— Quando ela me liga para perguntar se preciso de alguma coisa, antes de nos encontrarmos, digo que só quero que ela esteja comigo — derrete-se Jorge.

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