Divã de almas femininas e inquietas: Diana Corso lança livro que mistura literatura, cultura pop e psicanálise

Procurar o que as mulheres querem, com o objetivo de responder à célebre pergunta, seria buscar um objeto que saciasse ou calasse suas queixas e desejos. Melhor seria perguntar-lhes o que elas pensam e o que vai em suas almas inquietas. É nessa direção que caminha a compilação de crônicas Tomo Conta do Mundo Conficções de uma Psicanalista. Diana Corso, a psicanalista do título, mistura vivências pessoais, experiências do consultório e um convívio íntimo e antigo com a literatura para resumir, em 95 crônicas, as expressões do humano e do feminino que não respondem, mas apontam caminho para o desafio do começo do texto.

O livro, primeiro assinado exclusivamente por Diana (ela tem outros dois escritos em parceria com o marido, Mário Corso), é o resultado do exercício da psicanalista na crônica, iniciado 13 anos atrás, no Segundo Caderno de Zero Hora. Textos publicados nas revistas TPM e Vida Simples também foram revistos e atualizados para integrar esta edição.

— Escolhi as crônicas que sobreviveram à darwinização dos anos — comenta Diana, referindo-se à teoria da seleção natural de Charles Darwin, segundo a qual os seres (ou, neste caso, os textos) mais adaptados aos novos tempos sobrevivem, em detrimento dos que ficam pelo caminho da extinção.

Além das crônicas, Diana também dedica-se a um ensaio inédito, no qual lança um olhar psicanalítico sobre as personagens da escritora inglesa Virginia Woolf, indagando-lhes o que podem responder acerca da pergunta central: o que as mulheres pensam? E mais: como a literatura traduziu a alma inquieta das mulheres ao longo dos tempos, desde Jane Austen até a mais célebre das personagens de Woolf, a dona de casa Clarissa Dalloway, a esposa de um diplomata que vê o próprio cotidiano como um simples cenário, um palco para que outros vivam, de fato. A obra Mrs. Dalloway, publicada em 1925, tornou-se um dos clássicos da literatura mundial.

— Virginia Woolf estava muito concentrada no feminino e retratou o desamparo próprio de quem tem a missão de aconchegar o mundo, cuidar e prover a satisfação de todos ao seu redor. Quando não está cuidando de ninguém, a mulher visita vazios que são só seus. E isso gera a sua alma escorregadia, que é traduzida pelas personagens de Virginia Woolf — comenta.

diana2

Antes que a intimidade de Diana com Virginia Woolf afugente os leitores não iniciados na obra da inglesa, é bom ressaltar que Tomo Conta do Mundo passa longe da crônica-cabeça. O texto traz, sim, muito das leituras que ajudaram a formar o pensamento da autora. E, claro, uma mirada psicanalítica permeia todo o conjunto, permitindo que a questão da alma feminina mantenha-se presente em todas as linhas. Mas essa densidade fica disfarçada pela prosa leve e despretensiosa que Diana regularmente imprime a suas crônicas, além dos quilos de cultura pop que ela acrescenta a essa receita.

— Comecei a pensar em crônicas motivada pelas questões da Bridget Jones, um fenômeno pop que dialoga, explicitamente, com Orgulho e Preconceito, de Jane Austen.

Os temas dos textos são os mais variados: de Jack Sparrow a Mario Quintana, de uma singela declaração de amor ao marido às memórias de sua cidade natal, a litorânea Piriapolis, no Uruguai. A isso somam-se histórias ouvidas por Diana no consultório, relatos familiares, experiências pessoais e um pouco de ficção – involuntária, garante ela.

No título, mais literatura: desta vez, é de Clarice Lispector que Diana toma emprestado o nome. A autora de A Hora da Estrela batizou de “Eu tomo conta do mundo” uma crônica escrita em 1970. “Tomo desde criança conta de uma fileira de formigas” é a frase que está no texto original e que, aqui, abre o livro como citação.

As formigas da fileira, aliás, fazem parte do grafismo do livro, concebido pela designer Paola Manica. Nas páginas iniciais e na abertura do ensaio final, elas passeiam tranquilamente. Já na capa estão presentes em forma de bordado. Para evocar a conexão com a origem húngara da autora, Paola mandou fazer uma peça de bordado em estilo eslavo, na qual estão os insetos.

Mas o que significam as formigas? Para Clarice e para Diana, representam as pequenas coisas que ocupam a preocupação das mulheres todos os dias, os detalhes dos quais precisam tomar conta, que se transformam em um mundo inteiro de inquietação. Quem sabe não reside numa simples fileira de formigas a resposta para desvendar o pensamento de uma mulher?

Sem medo de Virginia Woolf

Tudo começou em 1879. Uma senhora norueguesa abriu a porta de casa e abandonou a família. Seu gesto surpreendente e até hoje lembrado foi um divisor de águas na história das personagens literárias femininas. Para onde ela foi, nunca ninguém soube.

As mulheres de hoje, suas descendentes, já têm acesso ao que ela foi buscar: a si mesma. Mas, para descobrir isso, elas tiveram ajuda. No meio do caminho nasceu uma inglesa que se tornaria escritora, cujo maior mérito foi revelar alguns segredos sobre o pensamento feminino. Muitos deles eram ignorados até pelas próprias mulheres, que não ousavam confessá-los nem a si próprias. A escrita de Virginia Woolf ajudou a dar voz a esses pensamentos e assim forjar um lugar para as mulheres. Depois disso, elas fizeram mais do que ganhar os merecidos direitos civis. Após escutá-las, ninguém viu o mundo do mesmo jeito, ele se tornou mais feminino. (pg. 243)

 

Tomo Conta do Mundo – Conficções de uma Psicanalista
Diana Corso
Editora Arquipélago
271 páginas
R$ 39,90 (no site da editora)

 

* Fotos: Diego Vara

Leia mais
Comente

Hot no Donna