Dona do campinho! A história da gaúcha que é treinadora de um time gay de futebol

Foto: Carlos Macedo
Foto: Carlos Macedo

Mulheres em estádios de futebol não são novidade há muito tempo. Uma pesquisa do Ibope indica que cerca de 50% da torcida do Corinthians, um dos maiores times brasileiros, é feminina. Na terra da Dupla Gre-Nal, os números também ganham expressão. No Beira-Rio, cerca de 23% do quadro de associados é de mulheres, enquanto na Arena são 16% – oficialmente, vale dizer. Mas e quando saímos das arquibancadas e entramos no campo ou no vestiário?

Mesmo na arbitragem, um dos setores em que elas conquistaram mais espaço, os números ainda são pequenos: dos 28 árbitros brasileiros que integram o quadro da Fifa em 2018, apenas oito são do sexo feminino (quatro árbitras e quatro assistentes). E elas são mais raras ainda no posto de treinador. Para se ter uma ideia, somente neste ano, pela primeira vez na história do futebol brasileiro, uma mulher conquistou o registro de técnica profissional na CBF. Sinal de que ainda há muito a avançar dentro e fora das quatro linhas.

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É nesse contexto, que uma técnica gaúcha vem ganhando relevância, das redes sociais às reportagens de jornal. E por dois motivos: Alessandra Huff Mello, 34 anos, é a treinadora do Magia Sport Club, time de futebol sete que está entre as principais equipes brasileiras da Liga Nacional de Futebol Gay (LiGay).

– É uma quebra dupla de paradigmas – resume Carlos Renan Evaldt, presidente e zagueiro do Magia. – Ela é uma treinadora que não tinha espaço em times convencionais e veio treinar um time gay.

Desde outubro, Alessandra comanda a equipe de futebol sete (ou soccer society, modalidade com sete jogadores em cada time, incluindo o goleiro) formada apenas por atletas homossexuais, que se reúne toda terça-feira à noite para treinar. É ali, em uma das quadras do Mundo dos Esportes, no bairro Floresta, que os sonhos se confundem e viram realidade juntos: o dela, de ser uma treinadora de futebol, e o deles, de praticar o esporte preferido sem enfrentar preconceito.

CORRENDO ATRÁS

Com o apito no pescoço e a prancheta na mão, Alessandra hoje é referência na beira do campo. Tanto para os jogadores do Magia, que finalmente conquistaram a primeira técnica em 13 anos de história, quanto para ela, que virou inspiração para outras gurias que sonham em trabalhar com futebol. Mas, se hoje a treinadora transborda confiança e conquista mais espaço – nas últimas semanas, assumiu o comando de mais um time amador, o Pokopikas Football Club –, é porque soube bem como lidar como os (muitos) dribles da vida.

Foto: Isadora Neumann

Foto: Isadora Neumann

Alessandra é daquelas que sempre tiveram o futebol no sangue. Única filha entre três irmãos, acostumou-se a assistir aos jogos do Grêmio com eles e o pai desde pequena. Aos oito anos, já frequentava o estádio. Mas nunca foi muito de jogar: seu lance mesmo era entender todas as táticas por trás do esporte.

– O futebol sempre esteve presente na minha vida. Não tive escapatória lembra a técnica em entrevista à Donna no intervalo de um treino do Magia. – Minhas amigas de infância são do futebol. Não conheço quem não goste.

De paixão, o esporte acabaria virando trabalho. Quando foi assinalar o “x” no vestibular, não teve dúvidas: marcou ao lado do curso de Educação Física, concluído em 2009 pela Ulbra. O objetivo de Alessandra era claro durante a faculdade inteira:

– Sempre quis trabalhar com futebol. Acabei entrando em outras áreas pelo lado financeiro, mas queria muito fazer o curso do Sindicato dos Treinadores do RS. Só que nunca tinha tempo ou dinheiro.

Finalmente, em 2013, Alessandra conquistou (mais um) diploma que tanto almejava: o do curso profissionalizante de treinador de futebol de campo. Era mais um passo em direção ao sonho de ver a palavra técnica estampada na camisa. E ela sabia que vontade não bastava.

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Antes de assumir o posto de técnica pela primeira vez, Alessandra aproveitava as oportunidades que surgiam para ficar mais pertinho da profissão sonhada. Por três anos, trabalhou em escolinhas esportivas mantidas pela prefeitura de Canoas. Ao final do segundo ano de função, quando deixaria o comando das aulas para guris e gurias, a comunidade mobilizou-se para que ela ficasse.

– Recolheram mais de mil assinaturas pedindo que eu permanecesse. Acabei ficando por mais um ano.

Foto: Carlos Macedo

Foto: Carlos Macedo

Quando deixou a escolinha, Alessandra sentiu aquele estalo: era hora de ir atrás do que queria de verdade. Começou a mandar currículos, mas virou praxe ouvir uma frase que seria dita em muitas entrevistas de emprego nos anos seguintes: “Mulher? Ah, não dá”. Foi quando ela começou a sentir, na prática, o preconceito por ser uma mulher que queria trabalhar com futebol.

– Cheguei a tentar dois estágios em clubes do Estado. E me responderam que procuravam homens – recorda.

Depois da formatura, Alessandra bateu à porta, inclusive, do seu time do coração, o Grêmio, onde tentou uma vaga para atuar com as categorias de base.

– Lá, aceitaram o meu currículo e me chamaram, mas precisavam de uma estagiária, e eu já era formada. Queriam implementar o trabalho com treinadoras porque achavam que nós temos mais habilidade para trabalhar (com as categorias de base). Mas, como já estava formada, perdi a vaga – conta.

O desfecho foi pior na seleção para uma escolinha de futebol. Alessandra havia passado pelas entrevistas e contava o emprego como certo. Até que recebeu uma ligação de que a vaga havia sido extinta. Na semana seguinte, descobriu a mentira: não só o cargo existia como havia sido ocupado por um treinador.

– Novamente, havia sido trocada por um homem. Quando se deu esse episódio, desisti. Fiz até textão no Facebook, dizendo que não aguentava mais trabalhar com futebol. Meus amigos e minha família me incentivaram a não desistir, mas não teve jeito.

Parecia que não era para ser. Para pagar as contas, Alessandra focou na carreira como personal trainer – que exerce até hoje. Abriu uma assessoria esportiva, a Alva Group. E tocou a vida.

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A CHANCE DE OURO 

Um dia, Alessandra viu que, sim, era possível. Para fazer com que ela não desistisse, amigos compartilharam a notícia de que, pela primeira vez na história do futebol da França, uma mulher assumia o comando técnico de um time masculino profissional. A façanha de Corinne Diacre, na linha de frente do Clermont Foot, da segunda divisão francesa, era uma inspiração. Assim como a colega francesa, Alessandra sempre quis treinar times masculinos.

– Aliás, sempre me questionaram sobre o futebol feminino – pondera Alessandra. – Mas eu sempre quis trabalhar com homens. Não tenho problemas em trabalhar com jogadoras, mas sempre tive a preferência e soube lidar melhor com homens.

Por acaso, seu primeiro trabalho na nova fase foi justamente com um time de feminino. E em um esporte novo: o handebol. Um grupo de amigas da escola estava formando um time em Canoas, e precisavam de alguém para comandá-las até um torneio.

– Ali meus olhos brilharam novamente para a carreira de treinadora. Pensei: “Vamos de handebol então, já que no futebol não rolou”.

Foto: Isadora Neumann

Foto: Isadora Neumann

Já na primeira competição do time, conquistaram o terceiro lugar no pódio. Mas a empreitada não durou muito por conta da distância, já que a treinadora havia se mudado para Porto Alegre. Dois meses depois, uma proposta inesperada seria o pontapé inicial para Alessandra realizar seu projeto profissional. Foi convidada pelos próprios jogadores de handebol da Atlética Uniritter para assumir a equipe. Um mês depois, mais uma novidade: o time de futebol da universidade também queria o comando dela. Alessandra permaneceu por mais de um ano à frente da equipe, com a qual conquistou medalhas como o segundo lugar em um torneio na Ulbra Torres.

– Foi um trabalho muito legal. Me dava superbem com eles, são maravilhosos! Em nenhum momento sofri preconceito. Sempre me escutaram muito – conta.

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MAGIA EM CAMPO

Tudo parecia estar se encaminhando. Agora, Alessandra estava à frente de um time masculino, como sempre sonhara. Então, em outubro do ano passado, enquanto acompanhava as últimas aulas de um curso de extensão sobre futebol, o bancário Carlos Renan Evaldt pediu a palavra. O assunto era o preconceito que os negros sofriam no esporte, e Renan argumentou que vivia esse mesmo filme, só que com outros personagens: os gays.

– Aquilo me chamou a atenção. Quando terminou o curso, fui falar com ele e perguntei se eles precisavam de uma treinadora, porque tinham um torneio em breve. Disse que topava uma parceria – conta Alessandra.

– Eu disse que aceitava, mas que ela precisava ir ao treino naquele mesmo dia. E ela foi – recorda Renan. – No primeiro encontro, Alessandra me passou uma análise técnica do time, me apontou as falhas. No seguinte, ela assumiu completamente a equipe.

Já no primeiro torneio, a estreia do Champions Ligay, que rolou em novembro, no Rio de Janeiro, o Magia conquistou o quarto lugar – e o direito de sediar o campeonato em Porto Alegre em abril deste ano. Uma vitória e tanto para o time e para a treinadora, que viraram notícia com o campeonato pioneiro: pelo fim do preconceito no esporte, tanto para atletas gays quanto para uma treinadora.

– Sediar um evento como a Champions Ligay em Porto Alegre foi o maior troféu. A maior conquista nesses oito meses em que estou com eles. Sabemos o quanto nosso Estado é tido como machista, racista e homofóbico.

Foto: Isadora Neumann

Foto: Isadora Neumann

O reconhecimento surpreendeu Alessandra. Na academia onde dá aulas, todo mundo sabe que ela é a treinadora do Magia. Uma vez, foi jantar na Cidade Baixa depois de um treino, e um rapaz no bar a parou para falar do time. Já foi reconhecida até por motoristas de aplicativo, graças às muitas entrevistas concedidas por conta da Ligay. Prova de que o encontro da treinadora que buscava uma oportunidade e do time gay que queria uma técnica não poderia ter sido mais certeiro.

– A chegada da Alê foi a grande virada do Magia – afirma Lucas Benvenutti, vice-presidente e zagueiro do clube. – Éramos um time desorganizado taticamente. Ela chegou e quebrou o gelo. E a Alessandra é uma guerreira, luta muito por nós. Toma todas as dores do time.

– A Alessandra tem um jeito mais transparente para se expressar. Não é brigando e xingando, mas, sim, em um tom mais respeitoso, ao contrário do que se vê com os técnicos – completa Renan.

Mais do que se realizar profissionalmente, Alessandra aprende com os guris a cada treino. E enxerga o quanto a parceria e a cumplicidade que rolam dentro e fora de campo são necessárias para driblar o preconceito e fazer valer o espírito esportivo:

– O esporte é para todos, não deveria ter discriminação. No Magia Sport Club, eu tenho gordos, magros, negros, brancos, mais afeminados ou não, quem se assumiu ou não – diz a treinadora. – Mas há pessoas que olham de cara feia. Para muitos, dói perder para um time de gays treinados por mulheres. Há quem se sinta incomodado, mas vão ter que aceitar!

Foto: Isadora Neumann

Foto: Isadora Neumann

FUTEBOL PARA TODOS

Mais do que uma conquista pessoal, Alessandra sabe bem que estar à frente de um time gay de futebol é uma dupla vitória. E ser treinadora de uma equipe com jogadores héteros, como o Pokopikas, é, sim, uma quebra de paradigmas, já que podemos contar nos dedos as vezes em que uma mulher assumiu cargos técnicos no futebol profissional brasileiro.

– Onde estão as preparadoras técnicas? E as treinadoras? Não só no futebol, mas no vôlei, no basquete… Quando pensamos em mulheres no esporte, são as jogadoras, as nutricionistas e as psicólogas, e só – questiona Alessandra. – Sempre me perguntei se o machismo tem a ver só com o futebol, mas acho que é no esporte como um todo.

Apesar da falta de representatividade feminina nas áreas técnicas, Alessandra gosta de encarar como um desafio. Faz questão de não baixar a cabeça e driblar a falta de oportunidades com muito estudo.

– Penso em até que ponto a gente se faz de vítima e acaba não conseguindo abraçar esses espaços. Tento evitar isso. Sigo estudando, tentando e batalhando, buscando meu lugar – afirma. – Ganho um salário condizente? Não ganho. Mas não estou me menosprezando por isso. Sei que vai chegar um momento em que vou ganhar mais, de igual para igual. Mas, se eu ficar em casa, não vou conseguir mesmo. Tenho que ir atrás. E acho que nosso espaço vai crescer ainda mais. Vamos fazer história, com certeza!

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