Donna das Minhas Escolhas: workaholic assumida conta por que não abre mão do ritmo intenso

Foto: Omar Freitas
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Enquanto Priscila deixou a correria para empreender em outro ritmo, Ana Paula vê a intensidade como a escolha mais adequada ao seu momento de vida. Elas dividem suas experiências na série que mostra mulheres com visões diferentes sobre um mesmo tema.

“O momento é o da correria”

Ana Paula Carneiro Costa

Meus pais se separaram quando eu tinha 10 anos, e acredito que a necessidade de entender aquela situação demandou um amadurecimento precoce, eu precisei amadurecer para entender aquela dor. Acabava, em muitos ambientes, sendo vista como uma menina “muito madura para a idade dela”. Aconteceu com 12 anos, com 14, com 16… Enfim. Isso foi me levando também a movimentos precoces de escolha. Entrei na faculdade cedo, me formei cedo, fiz pós, comecei a dar aula. Seguidamente era a mais nova naquilo que estava fazendo. Abri a empresa muito jovem: tenho 29 anos, e a Blue Mint já está no mercado há seis. Então, de uma forma ou de outra isso também fez com que eu estivesse vivendo uma correria em alta intensidade antes do que a maioria das pessoas.

Entendo que o ritmo de trabalho intenso te torna uma acumuladora de coisas boas também. A gente acumula contatos, experiências, conteúdo, trocas, possibilidades e repertório… Me sinto muito inquieta, então se entendo que posso fazer um curso de decoração floral e isso me abastece, vou fazer. Se entendo que posso dar aula na universidade, abrir outro negócio, então vou focar nisso. Essas opções permeiam hoje a minha vida. A gente acumula um pouquinho de dor nas costas, de pressão, de cansaço, mas também tem um acúmulo de coisas boas que acho que, neste momento da vida, fazem sentido.

Foto: Omar Freitas

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Esse ritmo de trabalho intenso só existe porque existe espaço dentro de casa para isso. Sem essa cumplicidade do meu marido, teríamos alguns ruídos no caminho. Eles existem, mas são menos presentes porque a gente é parceiro nessa escolha. Se um está trabalhando à noite, o outro aproveita e trabalha também. Se a gente combina que é o dia de sair para jantar, a gente sai e janta. Se tem algo para trabalhar no final de semana, o acerto pode ser não tocar em trabalho até as seis da tarde, depois irmos para o escritório juntos. Funciona bem, e acho que a gente consegue se equalizar. Ter uma vida mais saudável como casal por ter essa conexão.

Agora, mesmo com toda essa boa vontade, é preciso estabelecer alguns limites. Por exemplo: a Blue Mint trabalha com eventos corporativos. É comum o cliente querer imediatamente depois da contratação montar um grupo de WhatsApp para o evento. Nossa política é estabelecer que a prioridade é e-mail. Criar grupo, só na semana do evento. Há alguns dias, conheci uma pessoa grande em uma agência de comunicação e ela não tinha WhatsApp. Por filosofia de vida. Fiquei muito impressionada. O lugar-comum diz que não existe mais espaço para isso, né? Bom, ela criou. Tenho sérias dúvidas sobre onde começam e onde terminam os benefícios destas ferramentas de alta conexão.

Nesta fase da vida, tenho consciência de que algumas coisas ficam para depois. A maternidade talvez seja o desejo mais emblemático. Ela está no meu plano de curto prazo, então preciso enxergar e me planejar para que esse bebê entre em um ambiente um pouco mais tranquilo. As relações de amizade, de família. Muitas vezes me sinto pouco presente na vida de pessoas que são muito importantes para mim. Mas, nesse ponto, não existe maior tranquilizador do que entender que a gente é feito de muitos momentos de vida dentro de uma mesma vida. Hoje, a minha escolha é essa.

Foto: Omar Freitas

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Existe um papo sobre mudanças de estilo de vida e de trabalho, mas vou te dizer que não é o que eu observo. No meu entorno, vejo muito mais estranhamento frente ao cara que parou por seis meses para repensar o que fazer do que ao sujeito que trabalhou até ir para o hospital com uma crise de enxaqueca. As pessoas estão aí muito mais para te aplaudir pelo excesso de trabalho do que pela escolha da calmaria. Há toda uma cultura no mercado de comunicação que teria de ser repensado.

Não consigo me imaginar largando tudo. A executiva que tinha uma carreira legal até ter um problema de coração e ir para a Praia do Rosa vender açaí. Nada contra, muito pelo contrário, admiro escolhas disruptivas, mas acredito que exista um ponto intermediário e um caminho a ser percorrido até ele. Amanhã ou depois, posso buscar esse caminho. Eu “posso”, uma palavra tão poderosa, né?

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