Elas indicam: confira três lugares para botecar em Porto Alegre no verão

Foto: André Feltes
Foto: André Feltes

Sabe aquele clichê que diz não haver “nada” para se fazer em Porto Alegre no verão? Bom, pode ser mesmo que a cidade dê uma boa parada nas atrações, mas há uma atividade que nunca sai da agenda: sair para beber, sozinha ou com as amigas. Curte um boteco? Então, estas páginas são para você.
Para indicar atrações com muita cerveja gelada, convidamos três participantes da oficina literária Santa Sede, curso de crônicas realizado em bares na Capital e que tem maioria feminina nas aulas. Elas compartilham três sugestões de passeios pela cidade para quem adora esticar o verão.

Foto: André Feltes

Fernanda convida a conhecer o Porkaria: “boteco legítimo tem que ter aquele garçom comediante que chama todos os clientes pelo nome”. Foto: André Feltes

Um amor chamado bacon
Por Fernanda Rosa, publicitária

Para todos os órfãos, como eu, do litoral dos condomínios gaúchos ou da possibilidade de colocar uma barraca na grama na casa da tia, o verão de Porto Alegre reserva grandes achados. Guarde as maratonas de seriados e filmes para o inverno. Você sempre terá dias frios para hibernar em seu sofá embalada pelo streaming.

Aproveitando a desculpa de comemorar o aniversário de uma amiga, fomos em turma conhecer um lugar novo, o Porkaria, no Centro Histórico. Do inusitado cardápio à decoração, ambos com o porco como a atração principal, o chef Eduardo Natalício não poupa em criatividade, bom humor e sabor.
Certas qualidades diferenciam um verdadeiro boteco das imitações. Algumas são óbvias e esperadas como a cerveja gelada, outras só uma autêntica frequentadora consegue perceber. Além dos tradicionais sanduíches, linguiças, caldinho e pastéis típicos, há delícias como porko na lata, batatas ogras com porco desfiado ou ainda o airpig, aipim frito com espuma de catupiry e pernil desfiado.

Se um boteco é bom, a conversa não pode ficar para trás. Animadas pelo clima descontraído do local e pela degustação das bebidas – chope artesanal e algumas porkerinhas, caipirinha de limão, cachaça e um ingrediente nada secreto, amado no mundo inteiro –, só Deus sabe como, iniciamos um debate sobre o número de tetas das fêmeas dos mamíferos. Fiquei pasma quando o Google me disse que uma porquinha tem 18 mamas. Que bom que as porquinhas não se preocupam em usar silicone. Nem biquíni.
Boteco legítimo tem que ter aquele garçom comediante que chama todos os clientes pelo nome. No Porkaria, tem o Barreto. “E aí, Nicole como está o airpig?”, “Maria Alice, o que tu achou do nosso bolinho porkaria?”, “Fabiana, nossa aniversariante, mais um chopinho?”, “Hein, Eleonora, gostou da porkerinha?”, “Ana Paula, como tá o sanduíche porko do chef?”. Ele já sabia o nome de todas nós antes de chegarmos.

E boteco bom mesmo é aquele no qual, do nada, mais conhecidos aparecem, e o número de cadeiras em volta da mesa só aumenta. Então, vem o pudim de leite com uma velinha para a aniversariante assoprar. E a última rodada não é mais a última. Ninguém sai. Ninguém sai. Afinal, é quarta-feira, e você não está no Litoral. Uma ótima desculpa para largar o Projeto Verão e ficar de bacon a vida.

Fotos: André Feltes

Vivi destaca o Bier Keller, um bar só para convidados: “um verdadeiro esconderijo de tudo o que nos atormenta durante o dia”. Fotos: André Feltes

Um antibar para chamar de seu
Por Vivi Sleimon, advogada

Chega o verão e bate um desejo irresistível de curtir a vida e estar entre amigos. Quando não se está em férias, valem pequenas “fugidas”, como encaixar uma partida de beach tennis com as amigas durante a semana ou um mergulho na piscina do clube após o expediente. É assim que, mesmo longe do mar, as atividades da nossa cidade conseguem se aproximar do clima de praia.

Quando a noite está linda, a vontade mesmo é de estar entre amigos ou a dois. Um céu estrelado e uma cerveja gelada são perfeitos (ou, diga-se, até necessários) para fechar o dia. Nesta hora, uma boa escolha é o Bier Keller. Um lugar reservado, bom para a reunião da turma e para quem quer dar um tempo naquela azaração frequente da tradicional noite porto-alegrense. Fechado ao público, os donos abrem as portas para os conhecidos. Sim, você só entra com indicação. Como em uma casa, quem chega toca a campainha e aguarda ser convidado pelos proprietários para entrar. O sorriso do Vitorio lhe recebe.

A ideia é relaxar: um verdadeiro esconderijo de tudo o que nos atormenta durante o dia.
Neste espaço peculiar, as mesas são dispostas ao longo dos ambientes e no porão – tudo decorado com antiguidades que remetem aos botequins do passado. Meu recanto preferido tem capas de LPs decorando o teto, placas e anúncios de cervejas pelas paredes e uma jukebox.

Como em casa, não há garçons para servir os visitantes. Cada um pega seu copo, sua caneca ou taça embaixo do balcão e escolhe uma das muitas opções de cerveja nos freezers, de diferentes estilos, marcas e origens. Os petiscos são feitos pela dona da casa, com destaque para o pão recheado, a tradicional salsicha bock e a carne de panela da Gerti – de comer ajoelhada! Deliciosos, são ofertados no balcão logo na chegada. Pratos e talheres, ficam também ao alcance de todos. Não há comandas, mas o velho costume dos botecos antigos: as garrafas e os pratos vazios deixados sobre a mesa dimensionam o total gasto na noite. Tudo muito acolhedor.

Para os bons cervejeiros, o lugar pode ser cenário ideal para um primeiro encontro, favorecendo a degustação de tantos rótulos quanto a boa conversa exigir. Os que têm a sorte de conhecer o antibar, por indicação ou acompanhando um conhecido da casa, experimentam a sensação única de refúgio e saem com a perspectiva de retorno. Experiência boa para quem curte uma comidinha caseira, aprecia uma boa cerveja e sabe que nem todos os costumes merecem ser rompidos.

Foto: André Feltes

Juliane recomenda o Armazém Água de Beber: “um bar onde uma mulher se senta numa boa sozinha no balcão”. Foto: André Feltes

Porto Alegre-se sozinha
Juliane Farina, psicóloga

É preciso se livrar do ressentimento para passar o verão em Porto Alegre. Aquelas férias na casa da praia da vó, que começavam antes do Natal e terminavam só na quarta-feira de cinzas, nunca mais existirão. Isso quer dizer que ficar na cidade (passando calor) faz parte da vida adulta!

Gasto toda a minha cota de rabugentice gaúcha reclamando do frio no inverno. No verão, é uma libertação! E já que estamos num clima de aceitação, vamos fazer as pazes com a cidade. Minha sugestão é começar sozinha, numa tarde pelo Centro, ali onde temos “a vida como ela é”. O roteiro inclui caminhar sem rumo pelas ruas, ser turista na própria cidade. Quando o calor pedir uma trégua, refugiar-se em um oásis, o cinema. Assistir a um filme bem estranho na Casa de Cultura Mario Quintana ou no Cinebancários, escolhido só porque era o que tinha naquele horário, sem ler a sinopse: tive gratas surpresas assim (e também azares).

Depois disso, rumo ao boteco. Perdido num endereço pouco provável, o Armazém Água de Beber guarda singularidades diante das padronizações do momento. Ao subir as escadas, você será convidada a ficar pela seleção sonora: música brasileira, afrobeat, jazz, ska… Nas sextas, DJs especializados em algum estilo podem estar comandando as pick ups. Ao pedir o cardápio, uma carta de cervejas artesanais (chope e garrafas) a preço justo e risos diante de um fanzine que traz tirinhas com os personagens do bar.

Os nomes dos pratos são uma atração à parte: meus favoritos são o “Te liga, bico!”, um bolinho de grão-de-bico com recheio de calabresa e gorgonzola, a Mandioca do Nono, aipim com carne seca (ou tomates secos na opção vegetariana) e o Ragu da Nona, uma carne de panela desfiada, servida com pão e a incrível mostarda da casa.

A dica não é só por causa das delícias que fogem da batata frita congelada e da gourmetização: este é um bar onde uma mulher se senta numa boa sozinha no balcão ou, como dizem os portenhos, a la barra, algo raro por aqui. Acomode-se, peça uma comidinha e uma cerveja local, rememore o dia e transforme-o numa narrativa – leve sempre os melhores ouvidos que se pode cultivar, o papel e a caneta.

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