Encontro para beber cerveja após ioga vira tendência nos Estados Unidos

*Por Stephen Krcmar, The New York Times

Um chef de cozinha, 24 iogues e um cachorro entram num bar art déco. São 10h30min de um domingo recente, e a maioria dos alunos acabou uma corrida de 3,7 quilômetros pelo centro de Los Angeles, liderados pelo mestre-cuca, Rob Rice, professor diplomado de ioga.

Rice põe para tocar sua mais recente lista de músicas Detox Retox no Spotify e orienta a turma durante uma série de saudações ao sol, incluindo algumas posições do cachorro, deixando envergonhado o cão quando os iogues humanos completam o movimento com perfeição.

Noventa minutos depois, a aula para iniciantes e intermediários chega ao fim. Porém, em vez da despedida tradicional de “namastê e tchau”, Rice estende a gratidão aos alunos de sua aula inaugural na cervejaria Angel City, que acompanha o sucesso de um ano do Detox Retox com uma aula de sábado na Golden Road, cervejaria vizinha.
Dez minutos depois, a maioria dos participantes pagou o valor de US$ 10 e trocou o cupom da bebida por uma cerveja no bar.

O Detox Retox faz parte de uma tendência crescente de ioga com cerveja após a prática. Essas aulas, muitas vezes realizadas em cervejarias, estão se espalhando pelos Estados Unidos, e algumas têm nomes bem-humorados como Ioga Happy Hour com Joe Sixpack (Zé seis latinhas, em tradução literal), na Filadélfia; BrewAsanas (cerveja e asanas), no Colorado (em Boulder e Denver); e Três Folhas para a Posição do Guerreiro, em Wilmington, em Delaware.

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A tendência teve início dois anos e meio atrás em Charleston, na Carolina do Sul, com Beth Cosi, funcionária de restaurante que virou professora de ioga. Cosi costumava convidar os amigos para fazer suas aulas, mas poucos iam ao estúdio. Após entrar em contato com uma cervejaria local, ela estendeu o convite a amigos que não praticavam ioga para participar de uma aula para iniciantes com uma degustação de cerveja no final.

Cosi, cujos amigos apareceram, aprendeu que a cerveja é um chamariz eficiente:

— A maior surpresa é como isso ganhou vida própria. Nunca imaginei que essas aulas ficariam maiores do que a cervejaria, a Holy City, e precisassem mudar para outra.

As turmas da ioga com cerveja costumam ter mais de 50 alunos: assim, Cosi acrescentou um assistente para ajudar a fazer ajustes nos alunos. Há pouco tempo, ela abriu uma turma em uma destilaria. A cerveja ao término da aula adiciona um elemento social à ioga.

— O maior componente é a conexão: eles têm permissão para curtir, ficar juntos. Conversam e riem. É muito social. Tem tudo a ver com a comunidade. A ioga é secundária. É uma forma de unir as pessoas — diz Cosi.

Essas turmas costumam contar com mais homens do que nas aulas tradicionais da instrutora. Entretanto, puristas não veem com bons olhos o acréscimo do álcool à antiga prática da ioga. O Ashtanga Yoga Boston afirma em seu site: “Nós consideramos o consumo de álcool, tanto um agente tóxico quanto um veneno, inconsistente com a prática da ioga Ashtanga. Esperamos que todos os estudantes façam um esforço de boa-fé para reduzir ao mínimo e, idealmente, cortar o consumo de álcool enquanto estejam matriculados em nossa escola”.

Rhonda Hobgood, proprietária do Room Yoga, em Seattle, diz que “depende do objetivo da pessoa”:

— Se a sua meta é viver o estilo de vida da ioga, juntar essas duas coisas não combina. Se estiver bebendo, você se afasta daquele processo tão sutil de fazer o ajuste fino da sua consciência. O álcool é uma toxina. Cria seu próprio estado mental, o qual as pessoas geralmente usam como escape. A prática da ioga é justamente o contrário de fugir de si mesmo. O ideal é dedicar-se integralmente a tudo o que vivenciamos, sem alterações provocadas por uma substância externa.

Antes de ser atraído ao Detox Retox com a promessa de uma cerveja depois da aula, Mark Roden havia feito seis aulas de ioga em 14 anos. Nos últimos 12 meses, Roden já fez 30 aulas e compara a experiência ao crescimento da popularidade de megaigrejas ateias.

— Um lugar para pessoas sem crenças espirituais vivenciarem o aspecto comunitário de uma igreja. É o que temos no Detox Retox — observa.

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