Entrevista: às vésperas de show na Capital, Maria Gadú fala sobre família, feminismo e política

Por Carolina Goyer, especial, e Thamires Tancredi

Uma das vozes mais reconhecidas da música brasileira contemporânea, Maria Gadú chega a Porto Alegre com o show do álbum Guelã (2015), terceiro disco de estúdio e o mais intimista de sua carreira. Apenas algumas semanas depois de celebrar a união com a produtora de moda Lua Leça, com quem mantém união estável desde 2013, a dona do hit Shimbalaiê celebra uma fase mais tranquila, mas nem por isso menos criativa.

Os fãs poderão conferir a apresentação da paulista neste sábado, no Opinião. No repertório, canções como Bela Flor e Escudos, além de suspiro e trovoa – do videoclipe em que aparece ao lado da esposa. Donna conversou com a artista sobre a vida de casada, a luta pela igualdade de gênero e o momento político do Brasil.

coragem é saber sentir tudo e não desmentir o peito.

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Você já disse que, ao lado de Lua, tem a intenção de adotar e também fazer inseminação. Como é a expectativa para aumentar a família?

A gente já está casada há algum tempo. Há bastante tempo, na verdade. E chegamos nesse momento de querer doar amor para uma criaturinha que possa vir e compor a nossa família, com alegria, como casal. Acho que a gente chegou em um lugar bonito de maturidade dentro do relacionamento, que permite que a gente crie uma criança pelo caminho da adoção. Acreditamos muito nessa doação de amor, que não precisa ser necessariamente para um bebê, mas alguém que está num abrigo e merece a oportunidade de estudar, conhecer o mundo, se expressar, descobrir os seus próprios talentos, com carinho, com amor. A gente também tem essa vontade de gerar um filho, pelo caminho da inseminação, que é o que nos cabe. Isso é um plano para bem logo.

Você afirmou se sentir mais à vontade defendendo a bandeira da igualdade do que a LGBT. Por quê?

A luta vai além da bandeira, né. Quando uso essa palavra, bandeira, é mais como um simbolismo, mas acredito na igualdade de tudo. Uma coisa fala pela outra. A bandeira LGBT pede igualdade, não é para evidenciar a diferença. Não acredito que a orientação sexual de uma pessoa não tenha que ser tratada de uma outra forma, que não com igualdade. Por isso que digo que temos que lutar pela igualdade de gênero, pois temos direitos iguais, sobre qualquer perspectiva. A classe artística vem, ao longo de muitos anos, falando sobre a sua própria sexualidade, não sou a única a fazer isso. E por ter esse acesso mais fácil, acabamos criando uma relação sentimental com o público. Isso vira uma força muito grande, de coragem, de disponibilidade, de possibilidade. É muito importante que esse tema seja falado abertamente, que não seja mais um tabu, que seja um assunto leve, porque a leveza traz a igualdade. Estamos chegando a um momento muito bonito de conscientização e de aceitação, apesar de o Brasil ser o país que mais mata transexuais no mundo. Essa união que está ocorrendo agora se baseia em muita coisa legal para o futuro.

las chicas poderosas. @asbahiaseacozinhamineira #foratemer

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As pautas sociais e políticas relacionadas aos direitos das mulheres estão mais em alta do que nunca. Como você vê esse momento?

É um momento bonito, de conscientização por direitos iguais. Essa pauta mais feminista endossa um coro inteiro, tanto da questão anterior, sobre gênero, como relacionada aos direitos da mulher. Tudo isso é pleitear igualdade. A gente tem falado sobre isso, tem transformado isso numa grande pauta, que não está mais escondida dentro de conversas nichadas. Eu me sinto mais forte quando eu olho para as outras mulheres e vejo força nelas em enfrentar as desigualdades.

Qual a sua relação com o feminismo?

O feminismo é, em tese, a luta por igualdade de qualquer espécie. A igualdade entre mulher e homem. Ser feminista não é diminuir o homem. Ao contrário, é buscar caminhos iguais e paralelos para que possamos conviver com mais tranquilidade. O feminismo necessita dessa força, desse grito, que deixa algumas pessoas eufóricas, outras com raiva, mas que ocorra por conta das atrocidades que as mulheres vêm sofrendo, de repressão, de diminuição. Há agora uma coisa muito bonita dentro da música, que é um número maior de mulheres instrumentistas. Essa sempre foi uma ala da profissão mais exercida por homens, mas estamos conquistando nosso espaço. Enfim, minha relação é essa: sou mulher, sou gay e estou lutando por igualdade dentro do meu convívio pessoal e dentro do meu trabalho. Ninguém fala sobre si só, eu falo pelo meu gênero, pelos meus ancestrais também.

Você participou do ato pelas diretas, ao lado de nomes como Caetano Veloso e Pitty. Como vê este momento no no país?

Está sendo importante, doloroso e menos poético do que parece. Estamos nos reunindo por acreditar que merecemos um país melhor, mais justo, sem preconceitos de qualquer qualidade. Confesso que ver o Caetano mais uma vez entoando Podres Poderes, quase 33 anos depois, deprime muito. É bonito? Romantismo. Gostaria de não precisar ter que pedir o básico. Já que há a infeliz necessidade, vamos ao ato como cidadãos que usam a arte para expressar indignação.

Serviço

Neste sábado (24), às 20h, no Opinião (Rua José do Patrocínio, 834, em Porto Alegre)
Ingressos a partir de R$ 45, com a doação de um quilo de alimento não perecível.
Mais informações em opiniao.com.br.

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