Entrevista! Gaúcha Naura Schneider estrela o filme “Vidas Partidas”, um retrato da violência contra a mulher

Um dia, era amor. Ou assim parecia. Um casal tão apaixonado que, em meio à rotina de casa, trabalho e filhas, ainda arrumava tempo para cenas românticas sob a lua, na praia.

Mas bastou Raul perder o emprego e Graça avançar na carreira para aquilo que até então parecia coisa de marido ciumento descambar para a violência. Até ela finalmente se dar conta de que não estava mais segura em casa.

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Essa é a história do filme Vidas Partidas, de Marcos Schechtman, estreia desta semana nos cinemas. Mas é também a história de muitas mulheres que fazem parte das estatísticas de violência doméstica no Brasil. Casos que a atriz e produtora Naura Schneider, gaúcha de Santa Maria, vem pesquisando desde 2008, quando interpretou uma mulher que se viu obrigada a fugir das agressões do marido no filme Dias e noites, de Beto Souza. Ali despertou para o tema, que voltaria a tratar no documentário Silêncio das inocentes e agora no longa-metragem que ela produz e estrela ao lado de Domingos Montagner.

— Como atriz, queria fazer uma ficção. E, infelizmente, o assunto não sai dos jornais: são casos absurdos que acontecem todo dia em qualquer lugar.

Assista ao trailer de Vidas Partidas:


Ambientado nos anos 1980, o filme tem pegada realista, atuação visceral e uma apurada ambientação: você passa a viver naquela casa de classe média com a família de Raul e Graça e a se afligir com a mulher, as filhas e a empregada cada vez que ele perde o controle.

Na entrevista a seguir, Naura conta como foi mergulhar nesse tema e o retorno que vinha tendo mesmo antes da estreia. E ela não vai parar por aí. Já tem pelo menos mais um projeto sobre o tema em mente: um deles uma série de TV documental sobre mulheres em risco, feita só por mulheres.

Esta não é a primeira vez que você se envolve em um projeto sobre violência doméstica. O que a levou para esse tema?
Quando comecei a fazer trabalhos para o cinema, sempre pensei no universo feminino. E o que me levou a questioná-lo? O machismo, as coisas que eu via… Você é gaúcha, eu também. Vivi no Rio Grande do Sul até meus 23 anos e via muita disparidade entre os homens e as mulheres, o que me incomodava muito. E, a partir daí, resolvi que queria falar sobre questões femininas. E a questão da violência doméstica surgiu a partir do meu primeiro longa, filmado no Rio Grande do Sul com o diretor Beto Souza: Dias e noites, uma adaptação do livro do Sergio Jockymann, Clô dias & noites. Quando estava filmando, muitas pessoas, até mesmo da equipe, começaram a se aproximar de mim e dizer: já passei por isso, minha mãe, minha tia… Tomei um susto. Eu mesma nunca passei por isso nem tive na minha família esse histórico. Vi que havia muitos casos e que eram mais próximos do que imaginava. Aí comecei a estudar o tema e resolvi fazer um documentário, Silêncio das inocentes, que conta toda a trajetória da Lei Maria da Penha, com depoimentos de mulheres do Brasil inteiro, inclusive da própria Maria da Penha – mulheres que passaram por violência e nem sempre entre homem e mulher, tinha caso de filhas e pais, mães e filhos…

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Já no trailer de Vidas Partidas, há um aviso: “baseado nos casos de muitas mulheres que sofreram violência doméstica”. A Graça conta, portanto, a história de muitas.
Teve histórias de algumas mulheres, e a Maria da Penha é um dos exemplos. E vários outros casos a partir do estudo do documentário, um conjunto de mulheres que resultou nessa ficção, que é Graça. Teve um caso no Rio Grande do Sul, na minha cidade: um homem que matou a mulher e simulou um roubo. Tem uma senhorinha que é maravilhosa e se tornou uma delegada de mulheres depois: uma mulher que estudou, acabou se destacando na profissão e o marido começou a ficar com muito ciúme por causa disso, tornando-se mais violento. E o roteirista se baseou muito nisso para criar uma história que pudesse representar o maior número de mulheres possível.

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Como foi a experiência de viver essa personagem?
Foi sofrido. A gente já estava há oito meses envolvido com o projeto e há dois o Domingos e eu trabalhando mais juntos quando entrei na casa pela primeira vez: entrei no quarto, sentei na cama e chorei. E pensava assim: “Isso não é comigo” (risos). De certa forma, você traz as coisas de que ouve falar, as coisas por que passa. A gente que é mulher sabe: pode não ter sofrido uma violência física, mas quantas vezes se sentiu preterida, quantas vezes teve que brigar para se fazer ouvir não só em casa como no trabalho, quantas vezes teve que ficar quieta porque era mulher ou ganhou menos porque era mulher? Todas essas coisas a gente traz junto, joga para fora e se coloca no lugar daquela mulher que queria demais que a relação desse certo, que amava aquele homem e que queria que aquilo não tivesse se desmanchado. Quantas pessoas se separam – eu mesma já me separei três vezes – e pensa: “Queria que tivesse dado certo”.

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Qual a sua expectativa para a recepção do filme?
A expectativa é de que as pessoas gostem do filme. Mas vou dizer uma coisa: claro que tem um lado comercial, um lado de reconhecimento que, como atriz, quero muito. Mas tem um lado que é muito importante e me satisfaz muito. Quando a gente fez a primeira apresentação em Recife, ao final do filme uma mulher chegou à minha frente, segurou minhas mãos e disse: “Obrigada, você passou a minha vida na tela. Hoje é dia das mães, estou aqui sozinha e não tive coragem de fazer o que você fez (referindo-se à personagem), nunca denunciei meu marido”. E saiu chorando. E eu pensei: atingiu (o objetivo), ela vai pensar. E isso para mim é uma resposta maravilhosa, porque quero que essas mulheres vejam o filme e pensem: “Não existe solução a não ser sair de uma situação como essa”.

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