Escritora defende a liberdade individual em relação ao filho único

Autora de Primeiro e Único, a jornalista e escritora Lauren Sandler defende a liberdade individual e o fim das cobranças relacionadas ao número ou ausência de filhos.

No Brasil, a taxa de fecundidade caiu de 6,16 em 1940 para 1,90 em 2010. Quanto maior a renda familiar, menor é o número de filhos, chegando a 0,96 em famílias da região Sul com renda superior a 5 salários mínimos. Nesse mesmo período, o Brasil também experimentou um conjunto de modificações que resultam em maior desenvolvimento social e econômico. Essa relação – quanto mais desenvolvido o país, menos filhos – existe em outros países? E por que ela se daria?
Quanto maior a educação das mães, menos crianças elas tendem a ter – isso é verdadeiro ao redor do mundo. Mas o que é mais interessante é que quando a economia cai, a fertilidade cai junto. Eu diria que o efeito da educação e da mudança cultural é uma força formidável, como mostram os dados do Brasil.

>> Leia mais: Filho único: as dores e as delícias de ter um só

Algumas pessoas atribuem a decisão de casais de terem apenas um filho ao egoísmo – uma tentativa de não impactar tanto nem na vida nem na organização familiar, mas também causar menos impacto na parte financeira. Como você lida com esse tipo de acusação?
Sou muito familiarizada com essa acusação – e gasto boa parte do livro discutindo como isso é absurdo. Em tempos de degradação ambiental, com mais pessoas consumindo recursos, emitindo carbono, essa é a opção mais altruísta. Além disso, quando centenas de estudos conduzidos por décadas nos mostram que filhos únicos não estão em pior situação, o que há de egoísta em ter apenas um? Os pais felizes e engajados no mundo – o que é estatisticamente mais possível com menos crianças – não têm mais probabilidade de serem bons pais e modelos? Não existe um tamanho de família que satisfaça a todos e precisamos parar de cobrar isso.

Depois de todas as pesquisas feitas para o livro e do que observa como pesquisadora, quais são as maiores vantagens e desvantagens dos filhos únicos em relação aos filhos com irmãos.
Existe uma variedade enorme de experiências para filhos únicos, como existe para qualquer outro. Crianças sem irmãos tendem a ter uma relação mais intensa com a família e amigos, para o bem e para o mal. Eles tendem a atingir um escore mais alto em testes de inteligência e desempenho, se isso é algo que você valorize muito. Além disso, tendem a ter uma proteção extra contra a solidão, porque elas desenvolvem um relacionamento muito forte com elas mesmas. Mas eles não têm a diversidade de uma família maior, que pode tirar a pressão, e confrontar as tristes realidades do envelhecimento e da morte dos pais pode ser difícil. Pode ser difícil com os irmãos também, mas certamente preocupa aqueles de nós sem eles. Não é melhor ou pior – apenas diferente.

Nos discursos das mulheres entrevistadas para o livro, em que medida você sentiu que a opção por apenas um filho se dava também em função das exigências do mercado de trabalho?
Eu acho que é certamente um fator. A maioria das famílias tem duas pessoas trabalhando, e creche é caro. Mas, mesmo em países onde há suporte para as famílias que trabalham, muitos casais têm filhos únicos, ou porque eles querem criar uma criança mas ainda manter um certo grau de liberdade, ou, em muitos casos, porque eles vieram para a paternidade tardia, buscando o amor romântico ou sucesso profissional ou ambos.

No livro, você se questiona se o fato de não ter tidos irmãos pesa na decisão de também ter apenas um filho. Dar um irmão a Dahlia ainda é uma questão em aberto?
Faço 40 no início de setembro, por isso o meu tempo para sentir vontade de mais filhos está começando a terminar. Honestamente, estamos muito felizes em nossa pequena equipe de três, é difícil me imaginar fazendo outra escolha agora. Mas eu sei que Dahlia seria uma grande irmã mais velha, e a verdade é que eu amo bebês e crianças. Felizmente, temos muitos amigos com crianças de idades diferentes, de modo Dahlia e eu podemos ter uma grande família escolhida com muitas de crianças.

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