Fabrício Carpinejar lança livro de crônicas sobre as dores e as delícias de ter amigos

Foto: Rodrigo Rocha, divulgação
Foto: Rodrigo Rocha, divulgação

Fabrício Carpinejar já muito escreveu sobre amor. E continua escrevendo, pois, como diz o título do seu novo livro, Amizade Também É Amor (Bertrand Brasil, 2017). Desta vez, Carpinejar dedica título e boa parte das 122 crônicas a esse tipo de relacionamento cuja “intimidade não é estragada pelo sexo”. A ideia de escrever sobre a amizade veio justamente de uma conversa com um amigo. Um do seleto time para quem o poeta liga diariamente para ajudá-lo a tocar lenha na usina de ideias. O camarada era Eduardo Nasi, que certa vez ligou para Carpinejar para parabenizá-lo pelo aniversário da amizade entre os dois, celebrada no dia de lançamento do seu primeiro livro de poemas, As Solas do Sol, de 1998.

– Ele foi o único crítico que gostou (risos). Achei uma grande ideia celebrar aniversário de amizades. Só não como no Facebook. Ali eles têm um talento impressionante em te juntar com quem não importa – brinca o colunista de Donna.

Rodeado de amigos, ele espera, Carpinejar autografa o livro nesta terça-feira, dia 18, às 19h, na Saraiva do Moinhos Shopping, em Porto Alegre. Confira a entrevista com o autor.

Como o próprio título do livro sugere, por que se escreve tanto sobre o amor romântico e tão pouco sobre as amizades, se muitas vezes são estas as que permeiam nossa vida?

As pessoas acham que têm controle sobre o amor, mas não têm. O amor é uma terceira pessoa entre duas pessoas. Por isso, intriga tanto. A amizade é menos sofrida. Escrevemos menos sobre ela porque nos exige menos. A amizade tem espaço para a solidão, para o defeito, para as chatices, para as implicâncias, até para a distância, porque duas pessoas distantes podem continuar
amigas a vida toda. A amizade tem espaço para a infidelidade. Às vezes, preciso mais do amigo; às vezes,
da amiga. A amizade é o único relacionamento aberto que dá certo.

Em tempos em que as redes sociais nos dizem que temos centenas de amigos, como sabemos com quais podemos contar?

No meu caso, são os que eu telefono. Os com quem eu bato-papo no WhatsApp. De alguma forma, cada um sabe quem são os amigos verdadeiros. É o que eu chamo de DNA do espírito. Tu fazes essa tua família, e ela acaba se assemelhando pela convivência. Depois de 10, 15 anos, vocês se tornam parecidos entre si. Tem algo que eu acho muito bonito: quando tu deixas uma chave para o teu amigo, não para o teu irmão. Ele tem menos solenidade para adentrar tua casa, tua vida. Até porque não tem um pai e uma mãe entre vocês dois para dificultar (risos).

Em umas das crônicas você cita o provérbio “se quer ser amigo feche um olho, se quer manter uma amizade feche os dois olhos”. Amizade é lealdade? Amigo de verdade é quem é leal aos seus mesmo quando estão errados?

É exatamente isso. Amigo é o que fica junto, ali por perto, porque sabe que haverá uma catástrofe logo mais (risos). Só fica perto como um gerente de crise, para controlar os danos. E não é porque o amigo
não avisa, né? Só que, quando estamos cegos, enxergamos apenas com as nossas próprias palavras. Quando acontece a catástrofe, o amigo não tripudia no teu erro. Não é arrogante de jogar na tua cara: “Eu te avisei!”. Ele te oferece a humildade do desconhecido. Finge surpresa. E te fala a grande frase da sabedoria da amizade: “Ainda vamos rir disso tudo”. Abre uma brecha para a alegria.

Foto: Rodrigo Rocha, divulgação

Fabrício Carpinejar | Foto: Rodrigo Rocha, divulgação

Como diferenciar a amizade da bajulação?

Não precisa diferenciar, se entrega logo. Porque o bajulador é um chato, né? Vamos combinar. Um chato! Ninguém suporta muito tempo. O bajulador quer ser amigo sem passado, sem intimidade. Quer passar no concurso com ponto no ouvido. Para tu te considerares amigo de alguém, tu tens de passar por uma indiada com ele. E vocês vão contar isso para o resto da vida. O bajulador não convence ninguém por muito tempo. Por isso mesmo, uma pessoa rodeada de bajuladores costuma ser uma pessoa sem amigos.

Uma das crônicas é dedicada às amizades de ocasião. A turma da academia, do curso de inglês, os outros pais do colégio… temos como saber quais são os que entrarão para o time dos amigos do peito?

São justamente os que superam a afinidade do contexto. É quando acontece a transposição do status.
Eu tenho um amigo com quem saio quando estou solteiro. Se eu me caso e ele continua ao meu redor, aquele ali é meu amigo.

Por que é tão difícil fazer amigos novos depois de certa idade?

É curioso, né? Acho que porque quando tu és criança, tu não pensas muito. Tem alguém ali jogando bola, tu perguntas: “Ô, posso jogar aí contigo?”. Na juventude, nós somos mais destemidos. Com o tempo, tu vais criando uma espécie de mundo particular que tu proteges. Por isso, depois de determinada idade, só fazemos amigos quando amigos nos apresentam outros amigos. Precisamos desses mediadores afetivos. É engraçado que isso aconteça quando somos mais preparados, mais maduros, mais interessantes para novas amizades. Mas, ao mesmo tempo, mais medrosos. Acredito que
funcione como qualquer conhecimento. Traz um medo junto.

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