“A ficha caiu. A partir dali, estaria numa cadeira de rodas”: triatleta conta como um acidente mudou sua vida, mas não diminuiu o amor pelo esporte

Foto: Lauro Alves, Agência RBS
Foto: Lauro Alves, Agência RBS

No Instagram, Danielle Nobile se apresenta como “a primeira mulher cadeirante triatleta do Brasil”. E esta é apenas uma de suas conquistas. Em 2012, a professora maratonista de Ribeirão Preto sofreu um acidente que a deixou tetraplégica, mas não diminuiu sua paixão pelo esporte e a determinação em competir. Assim que reaprendeu a viver depois da lesão medular, vieram muitas medalhas em competições paraolímpicas e o bicampeonato brasileiro no paratriathlon. Mais: foi depois desta virada na vida que ela conheceu o noivo, Márcio Ramos, e mudou-se para Porto Alegre para, com ele, construir seu futuro. A seguir, a atleta de 31 anos conta sua história de superação.

“O resgate chegou rápido. Eu não conseguia tirar o cinto de segurança. Não tinha nenhum corte. Nenhum osso quebrado. Mas não conseguia me mexer. A ficha caiu. No hospital, fui informada de que, a partir dali, estaria numa cadeira de rodas. Mas eu disse ao médico que voltaria a correr.”

Era dia 22 de outubro de 2012. Dei meu “booommm diiiaaaa” de todo santo dia no Facebook, autorizei a marcação de algumas fotos da corrida que havia feito no final de semana, fiz minha marmita, peguei minha roupa da academia e fui trabalhar. Havia sete anos, esta era minha vida: trabalhar o dia inteiro e treinar depois. Desde que havia decidido ser mais saudável e menos sedentária, me exercitava diariamente. Apenas 15 dias depois de ter começado a correr, fiz minha primeira prova de cinco quilômetros e, ao chegar na linha de chegada, sabia o que queria fazer pelo resto da vida. Perdi a conta de quantas corridas e meias maratonas eu participei. Aí comecei a treinar para minha primeira maratona e para o triathlon. Então, sofri o acidente.

Naquele dia, olhei a hora no relógio de pulso por um instante e perdi o controle do carro. Se tinha algo na estrada que fez o carro escorregar, não vi. Se quebrou algo no carro, não sei. Só sei que fui parar na grama e dali, fui bater na mureta de concreto que dividia as pistas. Aí, eu entrei no liquidificador. Muito barulho e eu só via terra e céu, grama e céu. E sentia o vento no meu rosto. Pensava “Meu Deus. Isso que é capotar o carro?”. Fiquei consciente o tempo todo, passei os telefones dos meus avós, dos meus pais e do trabalho, para avisar que eu ia chegar atrasada! Mal sabia eu que não voltaria mais para a escola e os meus alunos.

Foto: Lauro Alves, Agência RBS

Foto: Lauro Alves, Agência RBS

O resgate chegou muito rápido. Eu não conseguia desligar o carro para os bombeiros abrirem a porta e me tirarem de lá. Não conseguia tirar o cinto de segurança. Achava que era só cansaço de tanto chacoalhar, mas já estava tetraplégica. Quando o bombeiro pediu pra eu olhar se tinha algo prendendo meus pés, me olhei sem mexer a cabeça. Não tinha nenhum corte. Nenhum osso quebrado. Mas não conseguia me mexer. A ficha caiu. Comecei a chorar, dizendo que era atleta e queria correr. Fui retirada já na prancha e com colar cervical e levada de ambulância ao hospital. Lá fui informada de que, a partir dali, estaria numa cadeira de rodas. Mas eu disse ao médico que voltaria a correr. Lembro que, quando ele pediu licença pra cortar minha calcinha, ainda na sala de emergência, senti a tesoura no meu quadril e pensei: “Nem tudo está perdido”. Esse segundo foi uma das maiores alegrias da minha vida.

Tive uma lesão na cervical, na altura da C7. Meu osso da coluna explodiu no acidente, pressionando e ferindo minha medula. Inicialmente, os médicos disseram aos meus pais que eu ficaria na UTI por três meses. Meu tempo total de hospital, entre UTI e internação, foi de 23 dias. Enquanto estava lá, eu tive tendinite tentando mexer as mãos e os braços. Um mês e meio depois do acidente, o médico me liberou para que eu entrasse na piscina pra fazer hidroterapia. Meu pai me colocava na piscina, com vários espaguetes em volta do corpo, pra eu tentar me movimentar na água sem me afogar. Com dois meses de acidente, entrei numa escola de natação, pra aprender a boiar e nadar na minha nova realidade, usando apenas os braços. Então, veio a fisioterapia e a internação no Hospital Sarah Kubitschek, referência em reabilitação. Lembrando que reabilitação significa aprender a viver de novo – aprender a se vestir sozinho, a tocar a cadeira, a tomar banho. No meu caso, também a comer sozinha. Lá pratiquei esportes como basquete, handball, tênis de quadra, tênis de mesa, vela e canoagem. No dia em que completei nove meses de lesão, ganhei minhas duas primeiras medalhas de ouro, em provas de natação.

Em abril de 2014, eu estava em uma feira de tecnologia em reabilitação em São Paulo, e uma amiga me convidou pra assistir a uma corrida. E decidi participar! Consegui emprestada uma adaptação, que você prende na cadeira de rodas e a transforma numa handbike de passeio. Sem nenhum treinamento e com ajuda de voluntários, fiz minha primeira meia maratona após o acidente – e após um ano e meio sem correr. Naquele dia, ouvi dessa minha amiga palavras que me marcaram para sempre. Quando estava no pórtico de largada, ela me disse: “Aqui é o seu lugar, de onde nunca deveria ter saído”.

Foto: Lauro Alves, Agência RBS

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Depois daquela prova, alguns amigos se uniram para me doar uma handbike nacional, para que pudesse voltar às corridas. Com ela, fiz mais de 10 meias maratonas e ganhei muitos pódios. Tive ajuda mais uma vez em 2016: havia uma prova internacional de triathlon, o Panamericano, mas eu não tinha cadeira de corrida, e a handbike nacional, de ferro e fora dos padrões de segurança internacionais, não era permitida na prova. Fiz uma vaquinha online e, com ajuda do Brasil inteiro (e até gente de fora do país), consegui comprar os dois equipamentos! Fui a primeira mulher cadeirante brasileira a participar de uma prova internacional de triathlon e, em 2017, trouxe uma inédita medalha para o Brasil: prata no Pan-Americano. Sou bicampeã brasileira de paratriathlon e espero conquistar o tricampeonato em 2017.

Mas as conquistas não foram apenas no esporte. Conheci o meu noivo por causa da cadeira de rodas. Nós nos conhecemos num app de relacionamentos – eu sou de Ribeirão Preto, interior de São Paulo, e ele, de Porto Alegre. Ele nunca tinha conversado com um cadeirante na vida até puxar assunto comigo – no meu perfil, havia muitas fotos na cadeira de rodas e na handbike. Ficamos seis meses nos falando pela internet e pelo telefone. Ele me ajudou com os novos equipamentos quando eu fui pro Pan-Americano nos EUA. E nesta viagem, nós nos apaixonamos. Estamos juntos há um ano e meio, e decidi enfrentar o frio de Porto Alegre para construirmos uma vida juntos.

Com certeza meus valores mudaram. Eu simplesmente vejo a vida de uma outra forma. Vi a morte de perto, e Deus me deu outra chance. Dou mais valor aos meus pais (mesmo que eu não demonstre tanto). Dou mais valor aos meus amigos. E tento estar com eles sempre que posso. Dou mais valor ao amor e não tenho vergonha de demonstrar. E procuro viver intensamente cada momento da minha vida. Eu sou muito feliz agora. Claro que faltam coisas. Mas ninguém é totalmente completo e pleno. E aí também está a graça da vida. Mas minha vida é muito mais divertida agora. Viajo mais, conheço mais lugares e mais pessoas interessantes, tenho mais histórias pra contar. Leio mais livros. Pratico mais esporte. Dou valor às pequenas coisas, como sentar para conversar com uma amiga e dividir uma sobremesa. Ou ir ao cinema com meu noivo e ficar ali sentados, um do lado do outro, assistindo ao filme. Só pela companhia. Já parei de tocar a cadeira na subida só pra tirar uma foto do céu. Já agradeci por estar viva, no meio de algum momento legal. Já venci medos, como o de mergulhar no mar, ou de nadar sozinha na piscina.

Eu já fiz tanta coisa. Mas eu sinto que ainda tenho muita coisa para fazer. Tem muita vida aqui dentro para sair. E eu não vou deixar essa vida presa por motivo algum.

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