Novo livro de Alain de Botton celebra a graça e a rotina das relações duradouras

Foto: Pixabay
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Thiago Momm, especial

Imagine o seguinte roteiro. Rabih, nascido em Beirute, é arquiteto e mora em Edimburgo. Está solteiro há alguns anos e sempre na expectativa de conhecer alguém. Em um trabalho de campo, depara com Kirsten, inspetora escocesa. Eles se apaixonam, namoram e casam, mas ainda estamos no começo do filme. O restante é sobre o cotidiano do casamento e a chegada de dois filhos. O produtor que recebesse esse argumento provavelmente olharia torto para o roteirista. A história é banal. Não tem surpresas, vertigens, reviravoltas. E a ideia de o relacionamento se estabilizar no começo? Quantos espectadores se interessariam pelo que vem depois?

the-course-of-lovePara o filósofo anglo-suíço Alain de Botton, no entanto, é justamente dos aspectos cotidianos das relações que a arte precisa aprender a falar. A história de Rabih e Kirsten, que não daria muita bilheteria como comédia romântica, é criada por ele no muito comentado The course of love (O curso do amor, em tradução livre), um livro que mistura ficção e filosofia para explorar o desenrolar convencional de uma relação prolongada. The course of love está sendo lançado em um tour pela Europa, mas não deve demorar para sair em português – Botton teve seus 12 títulos anteriores publicados no Brasil.

“As histórias das relações que duram décadas, sem uma óbvia calamidade ou felicidade plena, permanecem as exceções entre as narrativas que ousamos contar a nós mesmos sobre os progressos do amor”, escreve no livro.

O psicanalista Contardo Calligaris, na sua coluna na Folha de S. Paulo, uma vez disse algo semelhante. Em Hollywood, notou, “o que é idealizado nunca é o convívio, mas a perda, a saudade, o luto ou, no máximo, a procura”. Mesmo nas categorias de filmes independentes e filmes estrangeiros da Netflix, a convivência de um casal é um tema incomum. Quando é tratada, muitas vezes não permanece em primeiro plano. The course of love aponta esse problema e já se oferece como alternativa. Botton sabe falar do convívio intrigando o leitor. Se vemos Rabih e Kirsten divergindo, irritados, sobre que copos comprar na rede de lojas Ikea, também lemos que “o parceiro ideal para nós não é o que miraculosamente compartilha todos os gostos, mas aquele capaz de negociar diferenças de gosto com graça e inteligência”. Isso aguça o olhar do leitor sobre as suas próprias relações e pode deixá-lo mais compreensivo.

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Cativar não é um feito qualquer para um livro que declara, quando Rabih e Kirsten se casam, depois de apenas um quinto das páginas, que “o desafio romântico ficou para trás” e “a vida a partir de agora vai assumir um ritmo fixo, repetitivo, a ponto de eles passarem a ter dificuldade de localizar um evento específico no tempo, tão similares os anos vão parecer por fora”. Ou seja, ele não morrerá atropelado, ela não reencontrará um antigo amor mal resolvido. Os filhos vão trazer mudanças, mas não desestruturar o casamento. Kirsten não vai receber uma oferta de emprego distante, Rabih não vai descobrir que tem poucos meses de vida. Um acontecimento afeta a certeza de um dos dois sobre o casamento por um tempo, mas sem exageros ficcionais.

Botton está mais preocupado com uma discussão sobre a divisão de tarefas da semana ou sobre as delícias e os deslizes das fantasias conversadas durante o sexo. Em vez da história romântica tradicional, que tanto nos inspira quanto nos diminui com as suas idealizações, The course of love quer mostrar o quanto o “amor é uma habilidade, não apenas um entusiasmo”, e que ter nossas vivências corriqueiras espelhadas na arte nos faz curti-las mais, deixando-nos mais aptos a fruir os longos relacionamentos.

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MARTHA MEDEIROS: “A RELAÇÃO DURADOURA PODE SER MAIS INTERESSANTE”

Entre os tantos temas explorados em The course of love, o mais fascinante é um implícito em todos os outros: se assumirmos que manter um romantismo intenso como o dos filmes é pouco viável, quais os principais benefícios das relações que perduram? A reportagem fez essa pergunta a Martha Medeiros, que, além de escrever crônicas sobre relacionamentos, integra a School of Life, instituição criada por Alain de Botton na Europa, voltada à inteligência emocional.

O repórter queria saber se a “monogamia serial”, entendida como recomeços com novas pessoas ao longo dos anos, não seria mais rica em possibilidades.

– Não tenho dúvida de que uma relação duradoura pode ser mais vertiginosa e interessante do que infinitos recomeços com pessoas diferentes. As pessoas tentam fugir da mesmice, mas só o que conseguem é mais do mesmo: o entusiasmo inicial e fim – afirma a escritora. – Dedicar-se a uma única pessoa pode, contraditoriamente, ser um processo muito mais dinâmico, pois uma relação passa por diferentes fases ao longo da vida. As descobertas feitas a dois, a troca de confidências, os acordos feitos para manter a coisa funcionando, os ajustes, as brigas, os reatamentos, as piadas internas, o sexo mais íntimo, a passagem do tempo trazendo novos desafios… Nada disso me parece enfadonho.

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