Jornalista e fotógrafa gaúcha conta sua experiência ao percorrer o histórico Caminho de Santiago

(Crédito: Arquivo pessoal)
(Crédito: Arquivo pessoal)

Por Andréa Prestes, Especial

A primeira lembrança que tenho sobre o Caminho de Santiago vem das leituras de adolescência: Paulo Coelho. E, de uma forma muito vaga, ouvia vez ou outra algo sobre o assunto. Aquela semente de encantamento e aventura ficou adormecida até que conversei pessoalmente com dois amigos que tiveram a experiência de percorrer a pé esta rota histórica. Foi aí que vi o brilho no olho. E o universo se encarregou de mandar dois trabalhos como freelancer que vieram na medida exata para investir no sonho e torná-lo realidade.

Resolvi me dar de presente 38 dias de mergulho no autoconhecimento, que também trazia o desafio físico e a convivência com peregrinos do mundo inteiro. Em poucos meses, estava embarcando para a Europa, sem muita informação. Claro que levei as dicas dos amigos e fiz alguma pesquisa na internet, mas cada dia de caminhada trazia uma descoberta.

OS VÁRIOS CAMINHOS

Antes mesmo do embarque, descobri que o Caminho de Santiago na verdade são vários. Na época em que o corpo do apóstolo Tiago foi descoberto, peregrinos de toda a Europa saíam para visitar seu túmulo. Isso foi no século 9, e os Caminhos de Santiago passaram a ser uma das peregrinações mais concorridas da Europa Medieval.

Hoje, por ano, mais de 200 mil peregrinos completam a travessia considerada Patrimônio Mundial da Unesco. Então, analisando as possibilidade dos caminhos Português, Aragonês, Inglês, Via de la Plata, Primitivo, do Norte, acabei optando pelo Francês, o mais tradicional e o preferido dos peregrinos.

O COMEÇO

Por sugestão de amigos, comecei na cidadezinha francesa de Saint Jean Pied de Port para poder atravessar os Pirineus. É uma paisagem única que não se repete em nenhum outro trecho da caminhada.
Neste primeiro dia, comecei supercedo porque os franceses com quem dividi o quarto do albergue me avisaram que se levantariam às cinco da madrugada. Acordei ainda noite e fui comprar meus bastões de caminhada.

Eles foram recomendados pela minha fisioterapeuta, já que eu deveria usar todas as ferramentas possíveis para poupar a hérnia de disco na minha coluna. Dizem que os bastões ajudam em torno de 30% na distribuição do peso durante a caminhada, mas diria que é até mais! Eu me apoiava de verdade neles, o que aliviava muito o peso da mochila nas costas. Era praticamente como se eu caminhasse com “quatro pernas”.

O DESAFIO DA MOCHILA

Falando em mochila, ela é o primeiro desafio do Caminho de Santiago. Primeiro, escolher um modelo que se adapte a você e que tenha alças acolchoadas, ajuste no quadril, peiteira e barrigueira, sistema de respiração para as costas etc, etc. Depois, o limite de peso que deve ser de, no máximo, 10% do nosso peso corporal. Imagine que só a mochila já pesa em torno de um quilo e que você vai sempre levar duas garrafinhas de água de 500ml, que serão reabastecidas durante o dia. Só aí já somamos dois quilos. O que sobra é realmente um desafio de economia e praticidade.

A dica aqui é investir em roupas dry fit, que são leves e de secagem rápida. Outra mãozinha da tecnologia é a ação bactericida de alguns tecidos que contêm íons de prata. Isso permite que você use a mesma roupa duas ou três vezes sem lavar, apenas deixando arejar durante a noite.

Para se secar do banho, também tem toalhinha de tecido especial. É superleve, de secagem ultrarrápida e é menor do que uma toalha de rosto. Leve também prendedores de roupa ou alfinetes de fraldas, para pendurar a roupa lavada até na própria mochila.

Chapéu também é indispensável (e protetor solar), assim como o saco de dormir! Vai ser seu lençol em muitos dos albergues com quartos coletivos e nenhuma roupa de cama.

O DIA A DIA COM O BASTÃO

Os albergues do Caminho de Santiago são uma atração à parte. Esqueça qualquer luxo, embora em todos eu tenha tomado banho com água quente. Na maioria, os quartos são coletivos com quatro, cinco, 10 beliches… Então, prepare-se para a sinfonia de roncos levando tampões de ouvido. Proteção para os olhos também é uma boa pois algum peregrino pode acender a luz a qualquer hora sem cerimônia.

Quando amanhece (ou antes disso), todos já estão se preparando para colocar o pé no Caminho. E tem horário para deixar o albergue: normalmente às 8h da manhã. É quando você encontra seu melhor amigo da caminhada: seu calçado. A maioria dos peregrinos prefere bota, mas usei tênis. Mas ignorei o conselho de comprar um número maior e ganhei unhas roxas.

Ser peregrino é caminhar de seis a 10 horas por dia e uma média de 20 a 30 quilômetros. Por isso, estar atenta à boa alimentação e hidratação do corpo é fundamental, além de uma boa noite de sono.

MENU DO PEREGRINO

O bom é beber água de hora em hora, mesmo sem sede. Quanto à alimentação, o mais indicado são lanches leves durante a caminhada. Frutas, castanhas, “bocadillos” (sanduíches), chocolate… Mas aí o problema é que chegamos à noite com vontade de devorar tudo pela frente. E nada melhor do que um Menu do Peregrino nesta hora.
Esta refeição é uma alternativa no cardápio em grande parte dos restaurantes do Caminho. É um jantar mais barato e mais reforçado para repor as energias dos peregrinos. Entrada, prato principal (quase sempre com batata frita), sobremesa e o eterno pão como acompanhamento. E imagine que pedindo água ou vinho o preço é o mesmo!
Então, discordo de uma amiga que me disse: “Coma o que quiser no Caminho que você emagrece de qualquer forma!”. Se tivesse mantido o ritmo dos primeiros dias, teria engordado com certeza! Apesar de todo gasto calórico do esforço físico, comer um banquete e ir direto dormir não é uma boa ideia.
Eu mesma, depois de 800 quilômetros, e cuidando um pouco a qualidade dos alimentos, só emagreci dois quilos. Mas, com certeza, um pouco do meu peso se transformou em massa muscular, principalmente nas panturrilhas.

AMIGOS PELA ESTRADA

Mesmo tendo iniciado o Caminho sozinha, nunca me senti só. Além de toda a natureza e os simpáticos vilarejos te acolhendo, se você quiser companhia é só começar uma conversa. Dizer “Buen Camino” é a saudação oficial do Caminho de Santiago e pode ser o começo de uma bela amizade. Dinamarca, Bélgica, Itália, Portugal, França, Alemanha, Inglaterra, Suíça, África do Sul, Coreia do Norte, Lituânia, Estônia, Grécia, Uruguai, Austrália, Estados Unidos, são alguns dos países de origem dos peregrinos que conheci. E, claro, muitos brasileiros e espanhóis.
Por conta de toda esta diversidade, falar um pouco de espanhol e inglês ajuda. Mas conheci japoneses e coreanos que não falavam uma única palavra fora da sua língua-mãe e conseguiam se virar com tudo!
Com alguns dos peregrinos que cruzaram meu caminho, tive intensas conversas andando lado a lado, horas a fio. Outros, conheci rapidamente em uma pausa para o café ou no albergue. Muitos não encontrei mais e só ficaram na lembrança. E, com alguns, a amizade continua até hoje.

MAIS MULHERES

Hoje, é bem equilibrado o número de mulheres e homens fazendo a peregrinação a Santiago de Compostela. E encontrei várias outras caminhando sozinhas, como eu. Pelas estatísticas da Oficina do Peregrino, a quantidade de peregrinas vem aumentando um pouco a cada ano, chegando a 48% em 2016. O total de mulheres só cai para cerca de um terço nos meses de inverno.

CONEXÃO COM O QUE IMPORTA

Lá, são só você, sua mochila e o Caminho. É possível comprovar na prática que é necessário muito pouco (mesmo!) para estar bem, para ser feliz.
Botar o pé nesta jornada é desconectar dos dramas e da correria do dia a dia e mergulhar em uma vida mais simples. O Caminho de Santiago ensina em um passo a passo a viver com pouco e valorizar as pequenas coisas. Mais tempo e cuidado no andar e no olhar. Uma liberdade e uma leveza sem igual.
Você se dá este tempo para simplesmente estar na sua própria companhia. Tem a oportunidade de ficar totalmente presente na conexão com a natureza. E ainda pode se dar a permissão de conhecer outros peregrinos de uma forma genuína, sem os rótulos de maquiagens, status, profissões, carros… Posses e poses.

A tudo isso, acrescente as dificuldades da longa caminhada. Dores físicas e emocionais vão surgindo, e você pode encontrar o seu melhor como também o seu pior. Vivenciar obstáculos e presenciar exemplos de superação e de solidariedade vai aproximando os peregrinos da sua essência, do seu lado mais humano.

Minha vontade é fazer pelo menos uma das rotas até Santiago de Compostela por ano. E se você também ouvir o Caminho de Santiago te chamar, pode ter certeza de que é uma experiência única. Ouça seu coração, prepare corpo e espírito, e “Buen Camino”!

Andréa Prestes é jornalista, fotógrafa, peregrina e criadora do Projeto Caminhos pelo Mundo
Ela narra a sua experiência como peregrina em dois livros Caminho de Santiago: Uma Viagem Fotográfica e o recém-lançado Caminho de Santiago: de Portugal até o Fim do Mundo, à venda no site caminhospelomundo.com. Você também pode ter mais informações nas páginas do projeto Caminhos pelo Mundo no Facebook, no YouTube e no Instagram.

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