Leandra Leal comemora 20 anos de carreira com protagonista e estreia no mundo da moda

Fotos: Felipe Carneiro

No olimpo das estrelas globais, uma posição sempre chama os holofotes para si. Para o bem e para o mal. Com 20 anos de carreira, é a primeira vez que Leandra Leal protagoniza a novela das nove da Globo, o maior produto de consumo da TV brasileira. Em Império, a carioca dá vida à mocinha Cristina, um dos pilares da trama construída por Aguinaldo Silva. Focada 24 horas por dia na construção da personagem, nos calhamaços de textos e nas infindáveis horas de gravação, ela também colhe os lucrativos louros do momento. Este mês, estampa até seis páginas das principais publicações de moda do país como a cara do verão 2015 da Arezzo.

A marca de sapatos e acessórios é conhecida por usar em suas campanhas as atrizes em alta, aquelas que rendem cliques, capas, badalações. As peças publicitárias têm direção criativa de Giovanni Bianco, conterrâneo da atriz que virou queridinho de Madonna, Dolce & Gabbana, Miu Miu, Marisa Monte e Versace, entre outras labels de quilate considerável. Mariana Ximenes, melhor amiga de Leandra, já esteve na mesma produção em outros momentos. Mas quem bate o martelo é o empresário Alexandre Birman, presidente do Grupo Arezzo.

– A primeira (garota-propaganda) foi Claudia Raia, em 2005. A gente viu que transformar uma atriz global em um ícone fashion funcionava. Mesmo elas sendo mulheres muito bonitas, a marca consegue fazer com que apareçam de uma forma única. Tem dado muito certo. E com a Leandra não é diferente – reforça Birman.

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Há um paradoxo interessante nessa vida de atriz/ícone de moda. Nem todas apresentam largo sorriso ao cumprir um dos acordos contratuais. É preciso circular e badalar em pouquíssimas lojas da marca para divulgar a coleção. Em vendas no Sul do país, a unidade do shopping Beiramar, em Florianópolis, está atrás somente da loja do Iguatemi, em Porto Alegre.

Sou uma pessoa muito calma por fora. mas internamente sou bem ansiosa, roo as unhas. poucas coisas me tiram do sério e sou capaz de dizer que são as coisas bobas. o trânsito ruim me afeta bastante, por exemplo. medito há dois anos. depois que você começa a meditar, a vida melhora.

No fim de semana passado, Leandra Leal desembarcou na Ilha de Santa Catarina para posar para incontáveis selfies e assinar alguns autógrafos. Em uma noite de vento gelado, ela esteve atrasada por quase duas horas. Sem alarde, chegou com um figurino comportadíssimo, vestindo saia lápis, cropped top e blazer. Tudo preto. O cabelo, que em São Paulo lembrava o da campanha, veio quase como uma continuação da mocinha de Santa Teresa. Acompanhada de uma assessora, Leandra deu início rápido ao atendimento da fila que instantaneamente se formou junto aos convidados da marca. No rosto, um certo ar de cansaço, algo quase blasé. Antes, precisou calçar ali mesmo, como quem prova um sapato, uma sandália gladiadora, provável hit da nova coleção.

Leandra é conhecida por ser econômica nas palavras quando não está no set. Não é fã de entrevistas como a profissão muitas vezes exige. Sobre seus filmes, por exemplo, prefere que o público vá ao cinema a ficar revelando o roteiro em declarações para jornalistas. Ainda no corredor do shopping, posou para algumas fotos que ilustram a capa e o recheio desta edição. Quis olhar e aprovar cada clique do fotógrafo Felipe Carneiro. Comentou, inclusive, que não gosta de determinados tratamentos de imagem. Para ela, nunca ficam bons.

Sou uma pessoa que gosta de se vestir bem, de se sentir bem. gosto do que eu acho belo, bonito, entende? não sou compulsiva por compras, não compro grandes volumes. tenho o hábito de observar o que está estacionado há muito tempo no guarda-roupa e passar adiante

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Quando sentamos dentro da loja para o tête-à-tête, ganhei cronometrados dez minutos de bate-papo. Para acompanhar, a estrela recusou uma taça de água em troca de refrigerante zero. Com um charmoso sotaque carioca e uma voz rouca, ela respondeu algumas perguntas:

Donna – Você tem dito em entrevistas que fazer uma campanha de moda foi a realização de um sonho…
Leandra – Foi muito leve, muito divertido. Fiquei superconfiante, o Giovanni (Bianco, diretor criativo da campanha) é incrível, é luxo, toda a equipe é muito cuidadosa. O Zee (Nunes, fotógrafo) é maravilhoso.

Donna – É fácil encarar a câmera sem interpretar uma personagem?
Leandra – Ah, tem um exercício mínimo de atriz, de se colocar no lugar. Nessa campanha não tem como ser uma personagem. O próprio look, uma produção bem cool, é muito parecido comigo.

Donna – Aos dois meses de idade você participou de uma peça ao lado de sua mãe (a atriz Ângela Leal). Havia outra opção profissional?
Leandra – Tenho 31 anos e 20 de carreira. Eu sou filha de circo, não tinha como ser diferente.

Donna – Uma de suas últimas novelas, a das Empreguetes (Cheias de Charme, de 2012), fez muito sucesso. De que maneira chegou o convite para interpretar a Cristina?
Leandra –
Na verdade, eu fiz tanta coisa entre as Empreguetes e aqui… Claro, não para o grande público. O Aguinaldo (Silva) me chamou e disse: “Escrevi pra você, é uma mocinha que vai sofrer, é batalhadora, é astral”. Eu trabalhei com ele duas vezes antes, e Senhora do Destino foi um dos trabalhos que eu mais curti na televisão.

Donna – Notei um diamante tatuado em sua panturrilha direita. Tem a ver com a novela?
Leandra – Agora as pessoas ficam falando que fiz a tatuagem para isso, não mesmo (faz cara de desdém). Eu operei este joelho duas vezes, caí do cavalo, fiz há muito tempo essa operação. Na segunda estava fazendo um espetáculo de teatro e dança, esse joelho me deu tanto trabalho, e ao mesmo tempo me deu uma disciplina, um cuidado. Fiz este diamante há uns quatro anos.

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Donna – Império está completando um mês no ar, e as críticas são positivas. Você tem recebido este retorno do público?
Leandra – Para você ter uma ideia, vim direto do Projac para cá, assim será amanhã também. Uma novela das nove é um trabalho grandioso, principalmente uma protagonista, as pessoas não têm essa noção. O Projac tem uma característica que você entra lá e não sabe se é dia ou noite, fica num universo paralelo. Você tem 11 horas entre uma jornada e outra, você fica com seus cachorros, na sua casa, você não vai pra rua, acaba não tendo essa dimensão. Ah, eu vejo coisas de amigos próximos. Eu ainda não saí para almoçar (risos), não fui ao cinema, não sei qual a reação de pessoas.

Donna – Os autógrafos foram substituídos pelas fotos?
Leandra –
É. Tudo virou selfie, às vezes a pessoa nem faz uma e chama de selfie, virou sinônimo de foto.

Donna – Além da novela, há um projeto em paralelo que você vem tocando há anos. Como está o processo de produção do documentário Divinas Divas?
Leandra – É, eu estou há sete anos fazendo, desde a pesquisa… Desculpa, do que eu estava falando? Me distraí.

Donna – Sobre o documentário.
Leandra – Ah, sim. O Teatro Rival, que era do meu avô e agora é administrado pela minha mãe, foi um dos primeiros palcos a abrigar homens vestidos de mulher, como artistas, isso na época da ditadura. Fui criada vendo estes espetáculos. E, quando o Rival fez 70 anos, elas fizeram um espetáculo, o Divinas Divas (no elenco estão Rogéria, Jane Di Castro, Divina Valéria, Camille K, Fujika de Halliday, Eloína dos Leopardos, Marquesa e Brigitte de Búzios). Fiquei superencantada e aí, há uns sete anos, decidi fazer o filme, comecei a pesquisa, há cinco comecei a filmar, é um longo processo, só tinha dirigido videoclipe. Filmei o ensaio e o show que elas fizeram nos 50 anos de carreira. Mas, com a novela, está bem lento.

Donna – Você é consumista?
Leandra – Ah, sou normal, sou uma pessoa que gosta de se vestir bem, de se sentir bem, gosto do que acho belo, bonito, entende? Não sou compulsiva por compras, não compro grandes volumes. Tenho o hábito de observar o que está estacionado há muito tempo no guarda-roupa e passar adiante.

Donna – Quando pensamos em você, logo nos vêm a imagem de uma mulher serena, tranquila. O que te tira do sério?
Leandra – (silêncio)

Donna – Você rói as unhas (pintadas de laranja rosado)?
Leandra –
Sou uma pessoa muito calma por fora. Mas, internamente, sou bem ansiosa, roo as unhas. Poucas coisas me tiram do sério – e sou capaz de dizer que são as coisas bobas. O trânsito ruim me afeta bastante, por exemplo. Medito há dois anos. Depois que você começa a meditar, a vida melhora.

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Fim do papo. Interrompidos pela assessoria da marca, Leandra retoma a sessão de fotos com as poucas pessoas que ainda a aguardavam do lado de fora da loja. E some na movimentação, para ser vista logo em seguida em um dos restaurantes da moda de Floripa, na Avenida Beira-Mar Norte.

No dia seguinte, a atriz retornou ao Rio de Janeiro para mais uma vez encarar o universo de Cristina. Com a morte da mãe, a prisão do irmão e outras intempéries dignas de uma mocinha de novela de Aguinaldo Silva, ainda há muito chororô para passar debaixo dessa ponte. Em breve, ela deve tomar seu lugar como uma das herdeiras do Comendador José Alfredo de Medeiros, interpretado por Alexandre Nero. Há ainda o resgate do romance com o namorado de infância, o chef de cozinha Vicente (Rafael Cardoso), e as vilanias da tia Cora (Drica Moraes).

Se na TV a atriz é reconhecida pelas personagens amáveis, no cinema é nome atuante, diversificado, premiado. Não há limites interpretativos para Leandra, que despontou como a menina que vivia isolada com o pai em uma ilha em A Ostra e o Vento, de 1997. Recentemente, levou o prêmio de melhor atriz no Festival do Rio pela atuação em O Lobo Atrás da Porta, dirigida por Fernando Coimbra. Na telona, ao lado de Milhem Cortaz, ela interpreta uma amante desequilibrada baseada no caso real da Fera da Penha, mulher que chocou o Brasil ao matar a filha do amante na década de 1960.

Reservada quanto à intimidade, a atriz está casada há quatro anos com o produtor cultural Alê Youssef, integrante da trupe de Regina Casé no Esquenta e um dos comandantes do programa Navegador, da GloboNews. Pela primeira vez, devem produzir juntos um documentário sobre o Studio SP, casa de shows criada por ele em São Paulo, além de planejar o primeiro filho. Mas agora não é a hora. Até o ano que vem, Leandra Leal estará confinada no Projac.

Coisas de Leandra

 

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