Leitora conta como foi romper o noivado e largar uma carreira de sucesso para viajar o mundo e ter uma vida mais saudável

Com o namorado, Timo, na Holanda | Foto: arquivo pessoal
Com o namorado, Timo, na Holanda | Foto: arquivo pessoal

Caroline Miltersteiner, 29 anos, era sócia de uma empresa de sucesso e estava noiva do namorado de adolescência. Mas faltava alguma coisa. E ela decidiu que era hora de ir em busca. Rompeu o relacionamento, deixou o escritório sem saber ao certo o que faria depois. Então, quando estava meditando, viu a si mesma em um lugar cercado de mar. Teve certeza de que era a Ilha de Páscoa. Fez as malas e começou a viagem que mudou sua vida, como ela conta a seguir.

“Com um noivado recém-desfeito, achei bonito ser workaholic, não ter hora para ir para casa. Mas não foram as minhas crises de ansiedade ou a sensação de que algo estava muito errado que me fizeram decidir parar. Foi a minha saúde. Ninguém entendeu, especialmente a parte em que eu não tinha a menor ideia do que iria fazer no dia seguinte.”

Tem vezes em que tudo o que a gente precisa é abrir aquela porta e simplesmente sair. Não precisa saber onde vai dar. A gente só precisa sair. A primeira porta que fechei atrás de mim foi um namoro que tinha se tornado noivado e já durava quase 10 anos. Nós nos tornamos adultos juntos, e, em algum momento, não deu mais. Até enxergar o quão tóxico aquilo tudo tinha se tornado, não me parecia que parceria e respeito ainda eram possíveis. Quando não consegui mais, olhei aquela porta na minha frente e simplesmente saí.

Em meio a isso tudo, minha carreira estava ascendendo maravilhosamente. Em uma trajetória que também começou cedo, fui de estagiária a sócia de uma empresa de marketing que cresceu rapidamente. Era como se eu tivesse entrado em uma maria-fumaça e me tornado copilota de um foguete. Com o noivado recém-desfeito, o foguete subia cada vez mais rápido, e eu me agarrei a ele com tudo. E falhei. Não na empresa, mas comigo mesma. Achei bonito ser workaholic, não ter hora para ir para casa, sentir o peito doendo por meses. Mas não foram a minha falta de motivação ou as minhas crises de ansiedade ou a sensação de que algo estava muito errado que me fizeram decidir parar. O que me empurrou porta afora foi a minha saúde.

A princípio, ninguém entendeu. Especialmente a parte em que eu não tinha a menor ideia do que fazer a partir do primeiro dia fora da empresa. Como se sai de uma vida onde já está tudo planejado para o completo vazio?

Um dia depois de ter saído do escritório, passei por uma meditação guiada em uma sessão de coaching. Eu me vi meditando sentada em um gramado em um lugar alto, rodeado pelo oceano. Quando voltei à consciência, minha coach perguntou o que tinha visto. E as palavras simplesmente saltaram de mim: “Eu me vi na Ilha de Páscoa”. O que eu sabia do lugar? Menos do que zero. Dei um Google e vi que as imagens eram bem parecidas com o que eu tinha visualizado. Vi, também, que daria para chegar lá voando de Santiago (Chile).

Exatamente no lugar da Ilha de Páscoa que viu quando estava meditando | Foto: arquivo pessoal

Exatamente no lugar da Ilha de Páscoa que viu quando estava meditando | Foto: arquivo pessoal

Passei uma semana na Ilha de Páscoa. E encontrei o exato lugar que eu visualizei. Não procurei por ele, tinha até esquecido. Um dia em que meus planos foram por água abaixo, acabei subindo em uma cratera de vulcão. Andei um pouco em direção ao lugar onde se podia avistar o mar e, quando vi, estava lá. Por mais que não estivesse conscientemente procurando, algo em mim queria encontrar aquele lugar. E ali entendi que qualquer que fosse a minha busca, se continuasse tendo coragem para ir procurar, eu encontraria.

Dali, segui viagem: minha mochila e eu passamos por umas 10 cidades e percorremos alguns milhares de quilômetros até chegar à Patagônia, um lugar que sempre me atraiu. Um dos cartões-postais é o parque Torres del Paine. Lá, para se ver tudo, é preciso fazer trilhas de pelo menos 11 quilômetros por dia, com acampamentos em vários pontos. As pessoas que entendem do assunto estudam o lugar, leem a respeito, levam suas barracas. Eu não era uma delas. Por recomendação de uma amiga, reservei um hostel porque claramente não teria condições de carregar uma barraca por 15, 20 quilômetros, e menos ainda de montá-la. Li praticamente nada sobre o lugar e mal sabia como chegar no hostel.

Na entrada do Torres del Paine, todos precisam passar por um vídeo de instruções de como não se perder, não arriscar a própria vida nem atear fogo no parque. Uma das mais importantes recomendações era: jamais caminhe sozinho pela trilha. A propósito, eu estava sozinha. Até esbarrar em um sujeito com uma mochila quase maior do que ele. Ele queria saber para que lado ficava a cachoeira. Eu, claramente, nem sabia que aquele era o tipo de lugar que tinha cachoeira. Não sei se foi a possibilidade de ouvir a água caindo ou os olhos verde-azulados dele (ou azul-esverdeados, até hoje não sei ao certo), mas algo em mim quis ver onde aquilo ia dar.

Combinamos de procurar juntos a cachoeira, o que não aconteceu. Mas caminhamos juntos naquele dia e no seguinte. Descobri que Timo Hendriks vinha da Holanda, tinha cinco anos a menos do que eu e estava viajando há seis meses. Fizemos um trato de que ele me mandaria as fotos que estava fazendo em troca de dormir no meu sofá quando fosse ao Brasil. Nos reencontramos em Florianópolis, porque eu não conseguia mais ficar parada em casa sem viajar. Comentei que não sabia qual seria minha próxima parada e que ainda não me sentia em casa na minha própria casa. No meio da conversa, me dei conta de que nunca tinha ido à Holanda e que poderia passar um tempo na Europa. Quem sabe morar fora e fazer um mestrado?

Então, o que era para ser o segundo mochilão de 2016 se tornou uma nova busca. Se eu havia ido ao Chile buscando quem eu era de verdade e o que quer que tivesse perdido de mim mesma, agora embarcava para a Europa buscando a pessoa que eu queria me tornar. Meu primeiro destino foi a Holanda. Quando cheguei a Tilburg, a cidade dele (e, spoiler, agora minha também), senti algo quase tão forte quanto o que vivi ao encontrar o lugar que tinha visualizado na Ilha de Páscoa. Foi como se estivesse voltando para casa.

Em menos de 24 horas, já me sentia mais em casa em Tilburg do que em Porto Alegre. E meu amigo e eu finalmente paramos de fazer de conta que éramos só bons amigos e começamos a namorar. Passamos os primeiros cinco meses de namoro mais longe do que perto fisicamente. Estivemos juntos por volta de quatro semanas, e depois precisei voltar pro Brasil.

Voltei para Holanda em janeiro, e entre processos para conseguir um passaporte italiano que me permitiria morar e trabalhar na União Europeia, encontramos um apartamento, mobiliamos, pintamos, instalamos piso e nos mudamos. Enfim, em 2016, tive tempo e disposição para entender o que queria para a minha vida: estar em meio a pessoas em quem pudesse confiar, poder ser eu mesma, ser respeitada e amada, manter relações baseadas em parceria, me permitir errar e acertar. Eu poderia ter encontrado tudo isso em qualquer lugar do mundo. Aconteceu de ter sido longe da minha família, o que torna as coisas um pouco mais difíceis.

Hoje, trabalho quatro dias por semana, sendo que pelo menos um deles em casa, na companhia da nossa recém-chegada gata, e toda quarta-feira eu me dou algo de presente. Faço yoga, medito em casa quase todos os dias, tenho me exercitado mais do que nunca, converso com a família pra matar a saudade, tenho dias tranquilos e dias difíceis. Agradeço muito, mas também desejo muito e corro atrás.

Escrevo no trem, indo pro trabalho, em um dia ensolarado de verão. Tenho uma vida com rotina, responsabilidades, trabalho e diversão na medida que acredito saudável para qualquer pessoa. Tem vezes em que tudo o que a gente precisa é sair por aquela porta, porque a nossa melhor versão possível está do lado de fora, esperando por nós.

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