Leitores entrevistam a escritora e colunista Martha Medeiros sobre seu novo livro, “Simples Assim”

* Por Alexandre Lucchese

Viagens, livros, conversas entre amigos e noticiários: é vasto o número de temas que podem ser ponto de partida para as crônicas de Martha Medeiros. Com mais de 20 anos de carreira, e hoje escrevendo colunas semanais para o Donna, a escritora acaba de lançar seu 25º livro. Simples Assim (L&PM Editores, 238 páginas, R$ 36) reúne textos publicados nos últimos dois anos. Crônica a crônica, a autora se revela, desde um comentário político a uma cena presenciada na rua e que lhe provocou alguma reflexão.

Na entrevista a seguir, Martha fala mais uma vez diretamente a seu público: leitores enviaram, via rede social, perguntas que gostariam de fazer.

:: Veja as colunas de Martha Medeiros na Revista Donna

Por ser uma seleção de crônicas, não me exigiu nenhuma inspiração, só tempo para selecionar o material já publicado. É diferente de um livro de ficção, em que a gente tem uma história para contar, um ponto de partida, que seria a famosa inspiração. Então, nesse caso, tive que ser inspirada a cada semana para escrever as colunas.

Emilio Pacheco – Um dos problemas da internet é a disseminação de textos com autoria incorreta. Várias crônicas suas circulam como se fossem de Mario Quintana. Como você se sente em relação a isso?

Não gosto. É não é só Quintana. Há um texto meu famoso por ter sido atribuído ao Pablo Neruda, mas também tem (Arnaldo) Jabor, (Luis Fernando) Verissimo, entre outros. São só nomes maravilhosos, mas não tenho por que me sentir grata porque, afinal, fui eu que escrevi. Neruda e Quintana não estão mais aqui, mas é chato também para Jabor ou Verissimo, que não escreveram e podem não gostar de um texto atribuído a eles. E é ruim para o leitor também, que acaba comprando gato por lebre. Mas tem uma coisa que me incomoda mais: quando o texto está assinado por mim, é realmente meu, mas é incluído um enxerto. Acho de uma má-fé tremenda. Quando alguém põe um enxerto, está fazendo uma intervenção, coloca um final meloso, babaca, mas quem lê vai achar que eu realmente escrevi porque a assinatura se mantém. Tem gente que faz campanha política no meio do texto. É um crime.

Emilio Pacheco – Já tomou alguma providência em relação a este tema?

Uma vez, uma fundação publicou um texto meu como sendo do Pablo Neruda. Saiu em um livro. Aí a coisa é séria. Entrei em contato e eles recolheram a edição, retiraram o texto e colocaram de novo na rua.

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Robertson Frizero – Você já conseguiu definir quem é seu público leitor? Escreve pensando nele?

Não sei quem é meu público leitor. Jornal tem um público muito heterogêneo, e a internet, mais ainda. Descubro quem são os leitores quando tenho algum contato na rua ou em sessão de autógrafos. Aí, é incrível a diversidade: desde garotada de 13 a 14 anos, que está se acostumando a ler minhas crônicas na escola, até mulheres e homens de todas as idades. De repente, estou abastecendo o carro e o frentista vem: “Dona Martha, gosto muito do que a senhora escreve”. E daqui a pouco vem um alto executivo falar sobre isso ou um colega escritor. Não quero fazer a cabeça de ninguém nem seduzir um determinado tipo de leitor. A gente sabe que não tem como agradar a todo mundo, e esta não pode ser a motivação para escrever. Escrever é uma reflexão que faço comigo mesma e acabo compartilhando. Então, escrevo para mim. Meu público sou eu.

Patrícia di Carlo– Como você consegue manter “um teto todo seu” (citando o título de um livro de Virginia Woolf)? Como dribla o machismo que ainda se lança sobre as mulheres e sua função?

Consigo um teto todo meu trabalhando. Virginia citou isso não só de uma maneira metafórica, mas também real, no sentido de que uma escritora precisa ter seu espaço para executar seu trabalho. E esse espaço é conquistado por esse mesmo trabalho. Sobre driblar o machismo, sabe que nunca fui muito afetada? Talvez eu enxergue apenas o que quero, fazendo olho branco para o restante. Então, não dou muita trela para essa vitimização, que muitas vezes tem sentido, mas que nunca senti. Sempre fui muito bem aceita me colocando de modo muito honesto, talvez por jamais ter grandes objetivos. Quando comecei, foi por uma diversão: tive uma oportunidade e pensei “Oba, vou escrever colunas e me aventurar na literatura”. Era algo tão despretensioso que, mesmo 20 anos depois, sigo na mesma batida. Talvez por esse desprendimento, eu não me sinta tolhida por nada e nem ache que precise batalhar muito por espaço.

 

* Fotos: Lauro Alves

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