“Malala é uma Cinderela de seu tempo, embora às avessas”, diz autora de livro infantil sobre a paquistanesa

(Fox Filmes, reprodução)
(Fox Filmes, reprodução)

Uma semana após o ataque em Paris, chega aos cinemas a saga de Malala, outra vítima do radicalismo. Em 2012, quando a jornalista Adriana Carranca desembarcou no Paquistão com o objetivo de escrever um livro sobre os conflitos da região, encontrou um país em vigília pela vida de Malala Yousafzai. Dias antes, um membro do talibã havia baleado a adolescente de 15 anos que estava ficando conhecida por defender o direito das meninas estudarem.

A história da menina que sobreviveu ao atentado para se tornar a mais jovem Nobel da Paz chegou na quinta-feira aos cinemas no documentário Malala. A direção é de Davis Guggenheim, o mesmo do premiado Esperando pelo Super-Homem, um contundente raio-X do sistema de educação dos EUA. Sob a ótica de Malala, o tema educação volta ao debate.

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A narrativa da menina paquistanesa também contagiou Adriana, que deixou seu livro sobre a guerra de lado por um tempo para escrever Malala, a Menina que Queria Ir para a Escola, um livro-reportagem infantil com ilustrações de Bruna Assis Brasil. A convite da revista Donna, Adriana conta por que é tão importante falar sobre Malala, especialmente após os acontecimentos recentes na França. No texto, a jornalista afirma que “Malala é uma Cinderela de seu tempo, embora às avessas”.

O livro "Malala, a Menina que Queria Ir para a Escola" (Companhia das Letras, 96 páginas, R$ 29,90)

O livro “Malala, a Menina que Queria Ir para a Escola” (Companhia das Letras, 96 páginas, R$ 29,90)

A Cinderela de seu tempo, por Adriana Carranca*

É uma coincidência feliz em meio a acontecimentos tristes que voltemos a falar de Malala Yousafzai justamente agora. O que aconteceu em Paris na última sexta-feira 13, seja qual for a sigla por trás da autoria, é efeito do mesmo radicalismo que, em 2012, invadiu um ônibus escolar no Paquistão para identificar e desferir três tiros contra uma adolescente que insistia no direito em frequentar a escola. Da reação de Malala ao atentado, também há uma lição contra o terrorismo.

A história de Malala chegou às telas de cinema na semana que passou em forma de documentário. Ainda não tive a oportunidade de assistir ao filme – nas cenas do trailer, aparece a mesma menina engraçada e generosa que conheci em meados do ano passado -, mas já festejo de antemão que uma nova narrativa de paz será disseminada. Que o filme venha ao encontro dos belos discursos de Malala, como ao receber o Nobel da Paz de 2014, em que dividiu as honras com um indiano, Kailash Satyarthi. Outro cena simbólica de tolerância entre povos rivais.

Há tantos bons motivos para contar sua história, que é difícil escolher. Os meus foram os seguintes.

Malala é uma Cinderela de seu tempo, embora às avessas. Por toda a vida, meninas de diferentes gerações ouviram contos de fadas com a seguinte mensagem subliminar: comporte-se, seja boazinha, e um belo dia um príncipe aparecerá para casar com você. Caso houvesse nascido em uma família de valores diferentes, talvez Malala também sonhasse com um príncipe. Aprenderia somente a cozinhar, como grande parte das meninas confinadas às casas do Vale do Swat, para onde a sombra do talibã se abateu em 2007. Mas Malala preferiu a escola em vez de um marido. Sua semelhança com a Gata Borralheira ficou no sapatinho deixado pelo caminho, após ser baleada.

Escrevi sobre essa inusitada Cinderela ainda sem saber se ela sobreviveria. Quando conheci a heroína de meu livro ao vivo, em meados do ano passado, mostrei fotos das suas amigas e dos seus parentes, com os quais me hospedei para pesquisar sobre a sua vida. Convém lembrar que Malala fechou os olhos no Paquistão, alvejada, e abriu novamente na Inglaterra, onde sua família vive até hoje. Jamais voltou pra casa. Daí a sua emoção ao ver as minhas fotografias. Em particular, Malala confidenciou que muitas vezes gostaria de poder aproveitar as férias escolares com as amigas, em vez de se reunir com líderes mundiais para pedir mais investimentos em educação, como acabara de fazer na Casa Branca quando nos encontramos. Mas cada um tem uma missão, e ela aceita a sua.

Em respeito à missão de Malala, meu livro começa com a menina desejando ir para a escola. Termina com ela indo para escola. Há uma lição aí. Há anos, países como a Arábia Saudita gastam milhões para disseminar a doutrina wahabita, a linha mais radical do Islã, que propaga o retorno do califado e inspira grupos terroristas como o Estado Islâmico. Não há um investimento proporcional no sentido inverso, em disseminar uma cultura de aprendizado, tolerância e paz. Nenhuma manchete está falando em educação como resposta aos atentados da França, apenas em bombardeios. Como a própria Malala diz, “bombas matam militantes, não matam ideologias”.

Mais uma vez os indícios apontam para atentados executados por europeus jovens de origem muçulmana. Está na hora de investigar com mais cuidado por que o radicalismo conquistou o coração deles, em vez da tolerância. A resposta pode estar em uma sala de aula.

*Jornalista, escritora e colunista dos jornais O Globo e Estadão

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