Marcas de roupa e beleza embarcam na onda sustentável e criam produtos com uma história para contar

Fotos: Fernando Rezende
Fotos: Fernando Rezende

Sombrinha vira bolsa. Garrafa pet é matéria-prima de casaco. Raio X se transforma em joia. E tudo isso com muito estilo e design. Se a moda é um reflexo mutável do que somos e dos tempos em que vivemos, como escreveu a pesquisadora britânica Georgina OHara, uma tendência cada vez mais forte é literalmente vestir a camiseta da sustentabilidade e do consumo consciente. E isso vai muito além do closet.

— É um movimento relacionado ao comportamento e ao estilo de vida. As pessoas têm desejado uma vida mais saudável, e isto respinga também na moda — explica Cariane Camargo, pesquisadora do Núcleo de Moda Sustentável da UFRGS.

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Casaco Contextura em lã tailandesa, feita com reaproveitamento de tecidos. Body Salty de tecido produzido com controle de emissão de gás carbônico. Calça Carina Brendler, feita a partir de uma peça descartada por um ateliê. Colar e brincos Valéria Sá, com prata reciclada de raio X e mamografias

Casaco Contextura em lã tailandesa, feita com reaproveitamento de tecidos. Body Salty de tecido produzido com controle de emissão de gás carbônico. Calça Carina Brendler, feita a partir de uma peça descartada por um ateliê. Colar e brincos Valéria Sá, com prata reciclada de raio X e mamografias

Episódios como as denúncias de grandes grifes acusadas de manter trabalhadores em regime escravo se somam para que o consumidor reflita sobre o que está por trás daquela peça no cabide. E vai além: há muita gente se preocupando também com a qualidade e a história de outros produtos do dia a dia, como o xampu ou a fralda do filho. É o tal do consumo consciente, que leva em consideração pontos como relações justas de trabalho, meio ambiente e saúde humana e animal. Na prática, são marcas adeptas de reaproveitamento de materiais, reciclagem, matérias-primas naturais ou orgânicas (veja as definições dos conceitos no decorrer da reportagem) e um contato mais próximo entre quem produz, vende e consome cada peça.

Vestido Envido feito de nylon biodegradável. Colar e brincos Valéria Sá, confeccionados com prata reciclada de raio X e mamografias

Vestido Envido feito de nylon biodegradável. Colar e brincos Valéria Sá, confeccionados com prata reciclada de raio X e mamografias

– Quando você compra um produto que tem intenção sustentável, você está apoiando um projeto, um conceito. Vai além de consumir por consumir, vira quase que um ato político, algo em que você acredita e está investindo — diz a pesquisadora da UFRGS.

Esse processo tem um preço, muitas vezes maior do que o que estamos acostumados a pagar. A própria Cariane, por exemplo, conta que evita passar por perto de lojas fast fashions para “resistir à tentação”. Mas ser adepto do sustentável tem sua compensação.

— A questão é perceber que se está pagando um preço justo para adquirir um produto que não é feito em série, tem mais qualidade e durabilidade, portanto, vai ficar muito mais tempo no guarda-roupa, sempre com ar de exclusividade — pondera Madeleine Muller, mestranda em Ciências da Comunicação que pesquisa sobre a moda sustentável no Estado.

— Isso tem que custar mais, naturalmente. Mas o custo-benefício de ter uma roupa feita de forma ética, com ótimas matérias-primas, compensa o investimento.

Colete Aurora Moda Gentil em lã, com tingimento natural feito com casca de acácia negra. Saia Carina Brendler, feita a partir de tecidos não utilizados em uma produção. Brincos e pulseiras Valéria Sá, confeccionados com prata reciclada de raio X e mamografias

Colete Aurora Moda Gentil em lã, com tingimento natural feito com casca de acácia negra. Saia Carina Brendler, feita a partir de tecidos não utilizados em uma produção. Brincos e pulseiras Valéria Sá, confeccionados com prata reciclada de raio X e mamografias

A sustentabilidade vem ganhando cada vez mais espaço na moda feita no Rio Grande do Sul. É o slow fashion, vertente que prega a desaceleração da produção, respeitando cada etapa e as condições de trabalho. A velha história de uma nova coleção a cada estação com base nas tendências do momento não tem vez: atemporalidade é sempre a aposta. Cariane Camargo até arrisca até um palpite:

— Talvez possa ser uma característica do mercado do sul. Porto Alegre é um centro onde estão emergindo várias marcas que têm essa consciência.

A onda sustentável que se instala no Estado acaba de render, inclusive, um coletivo, que reúne algumas das principais grifes que seguem essa filosofia. Por coincidência, a primeira reunião da turma ocorreu enquanto entrávamos em contato com as marcas para preparar a reportagem e pudemos testemunhar a empolgação dessa turma. O próximo passo será definir a agenda de pautas e ações futuras do grupo.

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Calça Envido, confeccionada com algodão e linho certificado. Body Salty de tecido produzido com controle de emissão de gás carbônico. Bolsa Aurora Moda Gentil feita no tear, 100% lã, em tons naturais e com tingimento vegetal de cochonilha. Brincos e pulseira Valéria Sá, feito com prata reciclada de raio X e mamografias.

Calça Envido, confeccionada com algodão e linho certificado. Body Salty de tecido produzido com controle de emissão de gás carbônico. Bolsa Aurora Moda Gentil feita no tear, 100% lã, em tons naturais e com tingimento vegetal de cochonilha. Brincos e pulseira Valéria Sá, feito com prata reciclada de raio X e mamografias.

— Sou uma entusiasta da moda sustentável gaúcha e dos esforços dos nossos designers para oferecer produtos locais feitos com qualidade e buscando reduzir seus impactos ambientais e sociais. Ainda são pequenos negócios, mas seu potencial e seus valores pregados nos fazem refletir que vestir essa moda vai muito além de vestir uma roupa bonita: é vestir uma causa na qual a gente acredita — afirma Madeleine Muller.

E se você está pensando em peças sem qualquer apelo fashion, é hora de conhecer as grifes com pegada sustentável que despontam no Estado – e que Donna te apresenta aqui neste editorial. Também preparamos um guia com algumas das mais bacanas marcas de beleza e higiene com DNA sustentável ou orgânico, e três opções para quem quer viver a sustentabilidade para além da moda, na cozinha e no bar.

Vestido The Blue Crafters, produzido com algodão orgânico. Casaco Envido de algodão reciclado e tecido de garafa PET. Bota chelsea de veludo Insecta Shoes, feita a partir da reutilização de roupas vintage, sola de borracha triturada reciclada e forro sintético. Clutch Vuelo, confeccionada de câmara de pneu e nylon de guarda-chuva recolhidos das UT’s, unidades de triagem de lixo. Brincos, pulseira e anel Valéria Sá, feitos com prata reciclada de raio X e mamografias

Vestido The Blue Crafters, produzido com algodão orgânico. Casaco Envido de algodão reciclado e tecido de garafa PET. Bota chelsea de veludo Insecta Shoes, feita a partir da reutilização de roupas vintage, sola de borracha triturada reciclada e forro sintético. Clutch Vuelo, confeccionada de câmara de pneu e nylon de guarda-chuva recolhidos das UT’s, unidades de triagem de lixo. Brincos, pulseira e anel Valéria Sá, feitos com prata reciclada de raio X e mamografias

FIQUE POR DENTRO

• Moda sustentável: a produção respeita o ambiente, promovendo a gestão dos resíduos e reduzindo consumo de recursos naturais, além de utilizar tecidos reciclados ou orgânicos. A peça tem um ciclo de vida para além de sua presença na loja.

• Upcycle: técnica que aprimora e agrega valor a um produto ou material que seria jogado fora.

• Moda vegana: utiliza matéria-prima orgânica ou de origem vegetal e materiais sintéticos reciclados ou ecológicos.

• Moda orgânica: à base de materiais orgânicos, como o tecido de algodão orgânico, cultivado e manufaturado sem utilização de produtos químicos.

Vestido Ada de algodão. Brincos, anéis e pulseira Valéria Sá, feitos com prata reciclada de raio-X e mamografias. Tênis Elef Shoes, com tecido PU tingido em seu cabedal, solado de borracha triturada e reciclada e palmilha de EVA

Vestido Ada de algodão. Brincos, anéis e pulseira Valéria Sá, feitos com prata reciclada de raio-X e mamografias. Tênis Elef Shoes, com tecido PU tingido em seu cabedal, solado de borracha triturada e reciclada e palmilha de EVA

:: Leia mais sobre o assunto Moda Sustentável

FICHA TÉCNICA DO EDITORIAL QUE ILUSTRA A REPORTAGEM:

FOTOS E TRATAMENTO: Fernando Rezende
DIREÇÃO E STYLING: Roberta Weber
BELEZA: Tais Andrade
MODELO: Luana Rieder (Joy model mgmt)
ASSISTENTE DE STYLING: Tuanny Tecchio
ASSISTENTE DE FOTOGRAFIA Morgana Mazzon
AGRADECIMENTOS: José Marcelo Velho, Maria Amália Velho e Pandorga

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