Martha Medeiros entrevista Stella Florence, autora de livro que aborda o tema do estupro

Foto: Youtube /  Reprodução
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Assim que Martha Medeiros terminou de ler o livro novo da amiga Stella Florence surgiu a ideia: entrevistar a escritora para divulgar ao seu público a obra em questão. “Eu me possuo” (Editora Panda Books, 184 páginas) trata de um tema duro, o estupro, de forma leve. Para Martha, o assunto é atual e merece ser (ainda mais) debatido.

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Stella, como se define no material de divulgação, tem uma filha, 10 livros, 30 tatuagens e 25 mil seguidores no Facebook. É autora dos sucessos “Hoje acordei gorda”, “O diabo que te carregue!”, “32” e “Os indecentes”, entre outros títulos. Neste lançamento, usa a figura da personagem Karina, uma mulher tímida que troca a profissão de dentista pela aventura de abrir um bar, e reencontra um antigo amor nesta nova fase de vida. Detalhe: o rapaz em questão a estuprou anos antes. A escritora não faz rodeios quando é questionada sobre a própria violência sexual que já sofreu no passado. Ouviu muitas confissões de outras mulheres a respeito disso e decidiu trazer o delicado tópico para as páginas em forma de ficção.

Confira a entrevista de Martha com Stella:

Quando surgiu a ideia de escrever o livro? Ele está sendo lançado num momento muito apropriado, em que se discute a cultura do estupro. Foi coincidência?
A ideia de criar um romance sobre o assunto surgiu por eu ter passado por duas tentativas de estupro (uma com canivete e outra com arma de fogo) e dois estupros (um praticado por um ficante e o outro por um amigo, que me dopou). O Eu me possuo sair justamente agora foi coincidência: ele já estava pronto no fim do ano passado e obedeceu ao cronograma da Panda Books. Há um lado produtivo nessas tragédias que vieram a público recentemente: envolver a sociedade na discussão para que possamos começar a desmontar a cultura do estupro.

“Eu me possuo” é um título que abrange mais do que o corpo. Abrange o quê?
Isso mesmo! O título se refere a todos os aspectos da vida da mulher, ao seu direito de autonomia e decisão em todas as áreas. É uma frase pra grudar na geladeira, pra fazer bottom, camiseta, hashtag… (risos).

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No livro há uma conversa muito importante entre o estuprador e a vítima. Você deu a ele o direito de defesa. Foi a maneira que encontrou de desconstruí-la?
Sim, eu quis desconstruir todas as desculpas, os argumentos, as justificativas do estuprador. Também quis trabalhar a mistura dos sentimentos quando o estuprador é um homem por quem você foi (ou é) apaixonada. Por isso ele precisava ter voz.

Houve preocupação em não chocar? Você conseguiu narrar a cena do estupro com surpreendente elegância literária. A passagem é rápida e parece que houve um cuidado em não tornar a cena sensacionalista.
Os capítulos do romance são quase todos curtos e eu mantive o mesmo estilo na cena do estupro. Talvez seja uma espécie de delicadeza minha para com a personagem: eu conto o que é suficiente para sentirmos a dor da Karina naquele momento, nada além.

Dois filmes são citados no livro: Um bonde chamado desejo e Blade Runner. A frase “É doloroso viver com medo”, de Blade Runner, define de certa forma seu livro?
Define o sentimento que toda mulher experimenta, afinal nós obedecemos a um eterno toque de recolher e tomamos precauções constantes que os homens nem supõem. Mas não define o livro porque ele é focado na reconstrução e não no medo. Eu gosto de usar elementos da cultura pop e da literatura dentro dos meus livros. “Um Bonde chamado desejo” é uma das minhas obsessões, eu sempre o cito, além de haver (na peça e no filme) o estupro de Blanche Dubois. Quanto a Blade Runner, eu cresci vendo Harrison Ford transando com Sean Young com um sax romântico ao fundo e achando aquilo lindo. Quando fui vê-lo de novo recentemente levei um susto: aquilo não é sexo, aquilo é estupro! É uma das infinitas materializações da cultura do estupro que naturaliza a violência contra a mulher.

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Muitas meninas acabam se deixando abusar por uma questão que você alerta no livro: elas acreditam que seu medo pode ofender o homem. Como reverter essa hierarquia paralisante?
Nesses momentos, a mulher pode pensar “não quero ofendê-lo dizendo que isso está rude demais” ou então “se eu reagir, vou sair mais ferida”. Para reverter esse silêncio é preciso lutar por uma sociedade em que qualquer mulher possa dizer “eu não quero” e ser plenamente respeitada. Há muito trabalho a fazer.

Sua protagonista se relaciona com vários homens e a maioria deles traz algo de positivo, como Caio e Lúcio. Você quis montar um cenário mais amplo da masculinidade?
Sim, eu não quis pautar todos os homens por Gustavo Jota, o estuprador (e mesmo nele eu criei várias camadas, para torná-lo mais real). Por isso há vários homens de diferentes quilates no livro. E há muito sexo também _ sexo do bom, não estupro.

Qual a sua expectativa para a recepção do livro?
Eu espero que as mulheres (e homens) que foram estupradas sintam que não tiveram culpa e que podem se levantar e sair do espaço emocional de imobilidade e dor em que se encontram. Eu quero que elas caminhem _ e que o livro as ampare em ao menos um passo dessa jornada.

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