Mulata, samba e Carnaval: será que símbolos nacionais criam estereótipos da mulher brasileira lá fora?

Por FêCris Vasconcellos

Recém-chegada a Londres, aos 20 anos, para um semestre de faculdade na University of Westminster, esta repórter foi tentar fazer amizade com uma menina simpática de cabelos muito negros e pele muito branca, que equilibrava uma pilha de livros num braço e um copo de rum and coke numa mão. Depois do tradicional “olátudobemqualoseunome”, ela disse, olhando para meu pingente no formato do mapa do Brasil:

– Você não parece africana. Você é de Joanesburgo?

– Ahn? Ah, não. Isso é o mapa do Brasil. Sou de uma cidade bem ao sul chamada Porto Alegre.

– Nunca ouvi falar. Você fala espanhol?

– Não. Português.

– Conhece Buenos Aires?

– (já um pouco irritada) Sim, mas fica um pouco longe, é em outro país.

– Ah, desculpa. Você sabe sambar? Você não é meio branca para ser brasileira? E esse cabelo vermelho?

– (já considerando jogar minha caneca de cerveja barata nos pés dela) Olha aqui! Nem toda brasileira sabe sambar! Eu não sei! E eu sou branca, mas lá tem gente de todo tipo, é um país gigantesco! Você é de onde, afinal, que não sabe nada sobre o Brasil?

– (irretocável e irritantemente serena) Da Finlândia. O que você sabe sobre a Finlândia?

Obviamente, eu não vi a minha cara na hora. Mas deve ter sido algo parecido com aquela que a gente faz quando só descobre o preço de algo que quer muito no caixa, e está muito acima do previsto.

– Eu sei que a capital é Helsinque. E… hum… sei que a Nokia é de lá?

– (ela deu uma risada alta) Viu? Ninguém sabe nada sobre lugar nenhum.

E foi assim que fiquei amiga da Minna, uma finlandesa casada com um neozelandês que estava estudando Letras na mesma universidade em que eu cursava Rádio e TV. Ainda que estejamos em um mundo globalizado e em que a distância entre a ignorância e um vasto conhecimento sobre algo tenha o tamanho de uma página da Wikipédia, fora das culturas anglo-saxãs não há muito espaço para exibir cores além do espectro do estereótipo. Holanda igual a sexo e drogas; Austrália quer dizer coala e surfe; Irlanda significa “ruivos bêbados”; e, claro, Brasil grita samba, mulatas e Carnaval.

A imagem do país no Exterior vem sendo desanuviada por centenas de reportagens na imprensa internacional – especialmente em função da Copa – e, apesar de estar melhorando, como mostra pesquisa feita pelo respeitado Pew Institute e divulgada no início do mês, não é fácil enxergar além da voluptuosa bunda da mulata no dia a dia. Para quem opta por uma vida em outro país, por vezes é difícil superar o estereótipo e mostrar os 50 tons de cinza que há por baixo de nossos penachos e copos de ca-tcha-ça (como os gringos falam).

Para conferir de perto essa realidade, Donna pediu a brasileiras que moram nos mais variados cantos do mundo relatos sobre como elas percebem a visão dos estrangeiros em relação à mulher brasileira e se isso já causou problemas ou trouxe alguma vantagem a elas – afinal, há quem receba um sorriso como simpatia e há quem o veja como insinuação sexual: o significado para cada símbolo, na maioria das vezes, está nos olhos de quem o interpreta. E esses olhos do mundo andam cada vez mais ávidos pelo nosso paranauê.

Daniela Strauss, 34 anos, artista plástica, curadora, mora em Tel Aviv, Israel, há 8 anos

Aqui, por ser uma metrópole bastante heterogênea, as pessoas têm menos preconceito. Mas, todas as vezes que digo que sou brasileira, a primeira pergunta é se sei sambar. E, eventualmente, não entendem como não sou negra com bumbum grande.

Contudo, por ser brasileira, sou mais bem tratada. Desde a fila do supermercado até o hospital ou no imposto de renda. Aqui, não há uma pessoa que não me abra um sorriso ou que não pense que sou a mulher mais interessante do mundo por ser brasileira. Já cansei de embarcar mala com excesso de peso, ganhar cerveja de graça e, hoje mesmo, me descontaram menos impostos por ser sorridente e educada – concluindo, brasileira. É um tipo de feitiço por aqui.
Regina Kytzia, chef e dona de restaurante brasileiro, mora em Bronte, Austrália, há 30 anos

Os estrangeiros com quem converso sempre acham que a mulher brasileira é bonita e sexy. Felizmente, nunca passei por experiência ruim por ser brasileira, pelo contrário. Sempre fui vista como uma mulher amiga, alegre e muito trabalhadora. O pessoal sempre comenta também que nós temos um sotaque bonito ao falar inglês.

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Janine Inez Rossato, 35 anos, neurocientista, mora em Edimburgo, na Escócia, há 9 meses

Em primeiro lugar, acho que os estrangeiros ainda não têm muita informação sobre o Brasil como um todo, e acho que eles ficam surpresos por termos pessoas tanto negras quanto brancas no nosso país. Acho que o estereótipo imaginado por eles para a mulher tipicamente brasileira ainda é a mulata curvilínea com samba no pé, mas nunca observei nada que vincule a mulher brasileira a algum “mercado sexual fácil”. Nunca sofri nenhum tipo de preconceito, ao contrário. As pessoas ficam surpresas quando digo que sou brasileira, perguntam muitas coisas sobre o Brasil, querem saber mais, conhecer, visitar.
Leticia Meruvia, 32 anos, produtora de documentários, mora em Londres, Inglaterra, há 6 anos

Pela minha percepção, existe um “branding” muito forte do Brasil. Na grande maioria das minhas interações, em todos os países em que morei e que visitei aqui na Europa, antes mesmo de as pessoas me conhecerem, quando digo que sou do Brasil sempre abrem um sorriso e acham o máximo. Isso vem se intensificando mais a cada ano, o Brasil vem ficando muito popular e agora, com a Copa, nem se fala.

Por aqui muita gente tem uma visão bastante romântica do Brasil, um paraíso tropical cheio de gente alegre, festeira. É supercomum, aqui em Londres, quando digo que sou do Brasil, as pessoas perguntarem “mas o que faz morando aqui, então??”, muito chocadas por eu escolher estar nesta ilha cinzenta e triste – aos olhos deles – em vez de estar morando no Brasil. Pra não desmerecer meu país, sempre digo que já passei boa parte da minha vida por lá e que sou curiosa demais para ficar a vida toda no mesmo lugar. Agora, com a Copa e infinitos documentários e artigos sobre o nosso país, é que a população média está ficando mais a par das mazelas do Brasil (desigualdade social, crime, corrupção etc.).

Quanto ao estereótipo de mulheres, percebo também o mesmo “branding” de Brasil associado a “paraíso tropical” – e sexy. Até parece que a gente fica mais bonita só de falar que é do Brasil. As imagens de mulher brasileira que mais vejo por aqui combinam mulatas sensuais sambando em performances de Carnaval e outros, com modelos internacionais que fazem muitas campanhas publicitárias, como Gisele Bündchen, Alessandra Ambrósio, Adriana Lima. Fora isso, imagino que também depende muito do tipo de interação que se tem com os estrangeiros, o que pode também influenciar a percepção deles.

No mercado de trabalho com mídia, a maioria é inglês. Mas, ao mesmo tempo, eles são muito cordiais e diplomáticos, em geral pouco espontâneos em ambiente de escritório. Se alguém tem alguma percepção negativa, jamais a expressaria. Parece que, mesmo em um ambiente mais formal, como escritórios, o fato de ser brasileira já garante ser associada a uma personalidade mais “cool, sexy, alegre, descontraída”, o que pode contrastar com o ar mais sisudo dos ingleses.
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Ana Rocha, 35 anos, arquiteta, mora na Europa há 9 anos (atualmente, em Berlim, na Alemanha)

A imagem que os estrangeiros têm, tanto do Brasil quanto da mulher brasileira, varia muito de acordo com a nacionalidade, a classe social e a “época” deles, pois a percepção do Brasil mudou muito nesses nove anos. Porém, no geral, em comum a percepção é de que a mulher brasileira é calorosa, aberta, amigável, atraente e interessante, tanto como amiga quanto para algo mais. Aliás, os homens brasileiros são vistos dessa mesma forma. A reação mais comum quando comento minha nacionalidade é de surpresa, ou pior, de espanto mesmo. Seguida muitas vezes de algum comentário sobre alguém que a pessoa conhece que estava apaixonado (a) por uma brasileira e levou um pé na bunda, e está amando até hoje, queria casar, nunca esqueceu etc.

Outra reação frequente é: “Você sabe sambar? Claro que sabe! Samba para mim?”. Perdi a conta de quantas vezes ouvi. O estrangeiro parece ter essa visão de que o samba é como uma dança mortal do acasalamento. Também tem a coisa da cor da pele. “Brasileira? Mas você é tão branca!” Infelizmente, ouvi isso mil vezes também. Um dia, um britânico-paquistanês me perguntou como eu podia ser tão clara sendo brasileira. Também perdi a conta de quantas vezes fui apresentada assim: “Esta é minha amiga Ana, do Brasil”, em vez de ser apresentada como Ana, a colega do escritório, a amiga da ioga etc. Eu só queria dizer que sou mil coisas antes de ser brasileira.

Acho que a desinformação sobre o Brasil, que é um país tão complexo, acaba levando à propagação desses mitos, que colocam a mulher brasileira nesta posição de mulher mítica. Acho que sim, pelo bem, pelo mal, muito estrangeiro sabe que a mulher brasileira existe quando vê uma mulher mulata sambando e sorrindo na TV.

A destruição desses mitos exige um certo tempo de convívio com a realidade da cultura brasileira que a maioria dos estrangeiros ainda não tem.

Preconceito: sofro, sim, o tempo todo. Normal, essa é a vida de expatriado vindo de um país famoso e presente no imaginário do mundo. Na maioria das vezes, o preconceito só nos rala, mas algumas vezes ajuda também. Por exemplo, em círculos sociais a associação com a personalidade do brasileiro é muito positiva.
Maria Eduarda Venuto Richmond, 23 anos, diretora de arte, mora em Keystone, EUA, há 2 anos

Pelo fato de ser casada com um estrangeiro, acabo me sentindo próxima da real impressão que não só meu marido, mas também os amigos dele têm das brasileiras. Só para começar (e sem querer generalizar), nenhuma pessoa que conheci aqui, seja mulher ou homem, sabia da suposta má fama da mulher brasileira no Exterior. Isso é um fato revoltante, pois aparentemente essa é uma história que parece ter sido inventada por nós mesmos, como forma de julgar aquelas que acabam por conquistar os corações estrangeiros. Eu mesma já ouvi comentários de mau gosto a respeito do meu relacionamento, como se tivesse interesse apenas no fato de meu namorado ser estrangeiro e falar outra língua. Seja para um relacionamento mais sério, seja para uma ficada de apenas uma noite, se procuramos uma pessoa diferente dos nossos padrões, talvez seja por estarmos tentando encontrar algo que não havíamos encontrado antes.

A verdade é que os estrangeiros que conheço sabem muitas coisas boas do Brasil e dos brasileiros. Eles idolatram nossa cultura, nossos costumes, nosso esporte e nossos atletas. E, assim como nós, eles querem se divertir, conhecer gente nova e quem sabe se apaixonar por alguém de um lugar distante. Sonhar faz parte. É natural que sejamos atraídos pelo que é novo, diferente. Somos curiosos e buscamos experiências inéditas a todo momento.

Eu trabalhava no restaurante de um hotel muito popular por aqui, por isso lidava com turistas o dia todo. As pessoas tentavam adivinhar de onde eu era, faziam brincadeiras, me davam gorjetas maiores, queriam ser amigas e não poupavam elogios. Nunca me senti tão querida assim estando no Brasil. Aqui eu costumava receber inúmeros convites para sair, para ser amigo no Facebook, drinques gratuitos em bares e às vezes até cantadas muito desaforadas. Pelo jeito, não são só as gaúchas que “se jogam” para os estrangeiros.

Meu marido diz que se apaixonou por mim pelo fato de eu ser uma pessoa discreta e recatada. Pela minha cultura maravilhosa e pelo número de brasileiros que acabei colocando na vida dele. Ele tem orgulho de dizer para todo mundo que tem uma esposa “gringa” e brinca que todo homem deveria se casar com uma mulher brasileira. Praticamente todos os amigos dele já estão se programando para visitar o Brasil em breve. Eles querem descobrir e “levar consigo” um pouco dessa nossa cultura contagiante. Deve ser por isso que a Copa no Brasil está sendo tão agitada. Parece que as pessoas estavam precisando desse tipo de entretenimento. Do nosso entretenimento.
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Jamile Schmelzer, 28 anos, estudante e babá, mora em Filadélfia, EUA, há 7 anos

Muitos americanos veem as brasileiras – e as latinas em geral, eu acho – como mulheres bonitas e ambiciosas que adoram uma farra, seja a festa em si ou farra sexual mesmo. Acho que não é nem só com a brasileira, mas com a grande maioria das mulheres independentes, que são abertas e confortáveis com a sua situação sexual. E isso é uma coisa que muitas latinas são. Quando querem algo, elas vão atrás e pegam, sabe? A mulher independente e ambiciosa é assim. Mas acho que a ideia de Brasil ligada a Carnaval, festa e bunda prejudica essa imagem.

Em primeiro lugar, a reação deles é arregalar os olhos e dizer: “Brasil? Ah, mulheres lindas! Você é do Rio ou de São Paulo? (ah, sim: o Brasil, para eles, é composto de dois Estados)”. Acabou que, depois de alguns anos aqui, só digo que sou brasileira depois que fiquei amiga da pessoa por algum tempo. Claro que não são todos os homens que reagem assim, vai muito do ambiente em que você trabalha. Então, depois dos primeiros seis meses aqui – acredito que outras brasileiras nesta situação devem pensar o mesmo -, você meio que enche o saco da atitude dos homens.

** Ilustrações: Melina Gallo

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