Gaúcha conta como é viver em alto-mar com marido e filhos: “Um desafio de convivência”

Foto: Arquivo pessoal
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Em fevereiro deste ano, uma família de Porto Alegre deu partida no sonho de viver em alto-mar mundo afora. A médica veterinária Alessandra Rocha Machemer, 46 anos, embarcou com o marido, Marcio, 48, e os filhos, Henrique, 17, e Carolina, 14, rumo a uma viagem de dois anos a bordo de um veleiro.

A seguir, ela conta como está sendo essa experiência que os está levando tão longe e, ao mesmo tempo, para mais perto um do outro. Você pode acompanhá-los no Instagram, no perfil @veleirobigua, ou pelo YouTube e pelo Facebook como Veleiro Biguá.

Leia o relato:

Marcio e eu nos conhecemos muito cedo, eu tinha 17 anos, e ele, 18. A vida toda nós fizemos tudo juntos, e a ideia de ter um barco só veio muitos anos depois, quando já estávamos casados. A primeira vez que essa vida nos despertou interesse, muito sutilmente, foi em uma viagem a Punta del Este. Estávamos no Yacht Clube passeando e vimos um casal entrar em um bote e ir devagarinho até um pequeno veleiro. Ficamos olhando aquilo e achamos bem legal eles descerem com pão fresquinho e tomarem café no barco. Ali começamos a pesquisar mais sobre veleiros. O Marcio já tinha alguma experiência velejando com o avô dele quando criança. Eu nunca tinha pisado em um veleiro antes.

Resolvemos fazer um curso de vela de oceano para eu sentir como era. Era a única mulher, e adorei! Naquele ano de 1998, resolvemos procurar um barco pequeno para velejar no Guaíba. Olhamos vários de 23 pés e acabamos comprando um bem maior, um veleiro de 32 pés chamado Kanaloa (“deus do vento” em havaiano). Vivemos muitas aventuras no nosso Guaíba e fomos até São Francisco do Sul, em Santa Catarina, com ele.

Tempos depois, fiquei grávida do Henrique (hoje com 17 anos), e, quando ele estava com dois anos, vendemos o Kanaloa para um casal de Rio Grande. Ficamos um tempo sem barco, mas a ideia continuava na cabeça. Em 2010, compramos nosso segundo barco, um veleiro de 43 pés, o Aruna (“amanhecer”, em sânscrito). Este foi muito importante para nossa decisão de viver a bordo por mais tempo. Fizemos muitas viagens com ele: fomos ao Rio de Janeiro e ao Uruguai, mas a viagem em que tudo fez sentido aconteceu em 2012, quando ficamos cinco meses morando no veleiro em Paraty.

Naquela viagem, várias decisões foram tomadas: desde eu diminuir a carga horária do trabalho até parar de pintar o cabelo! Busquei me tornar mais livre e menos dependente de coisas que até então pareciam imprescindíveis na minha vida. Diminuí gradativamente meu trabalho como veterinária, dispensei a empregada e a van escolar e comecei eu mesma a fazer as coisas em casa e a levar e buscar as crianças. Além disso, fiz meu primeiro curso de formação em yoga. Diminuí as idas ao salão de beleza (sério, eu era escrava do salão!) e aprendi a me virar sozinha. Tudo isso levou tempo e planejamento.

Enquanto isso, o Márcio seguia no seu emprego como comandante de linha aérea e tentávamos descobrir uma maneira de viabilizar o projeto. Em 2016, perdemos minha sogra para o câncer. Meu sogro já havia falecido alguns anos antes da mesma doença. Essas perdas precoces nos levaram a refletir se não deveríamos realizar essa aventura de uma vez. Tínhamos várias questões por resolver: a escola era uma delas. Henrique estava prestando o vestibular, e Carolina, terminando o sétimo ano do Ensino Fundamental. As respostas vieram naturalmente. Henrique passou no vestibular e trancou a faculdade, Carol entrou em uma escola americana de ensino a distância. Agora, faz homeschooling no barco.


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Tínhamos que resolver o emprego do Márcio. E mais uma vez tudo conspirou a favor: a empresa disponibilizou licenças sem vencimentos por até dois anos. Calculamos quanto custaria por mês viver em um barco e guardamos dinheiro para nos manter.

Vendemos nosso barco no Brasil e compramos o veleiro Biguá (sim, esse é o nome que escolhemos!), cuja data de entrega determinou o início da viagem: partimos em 8 de fevereiro de Les Sables d’Olonne, na França. Enfrentamos um frio bárbaro na Europa, com direito a barco tapado de neve! Tivemos que atravessar o temido Golfo de Biscaia no inverno, passando pela Galícia, chegamos a Portugal, atravessamos o Estreito de Gibraltar, chegamos à costa Espanhola Mediterrânea, passamos por todas as Ilhas Baleares, Sardenha, Roma, Ponza, voltamos às Baleares e agora estamos em Gibraltar.

Nossos dias variam de acordo com o lugar onde estamos. Quando estamos em uma marina, fica parecido com o dia a dia de uma casa: procuramos fazer as refeições no barco, cozinho almoço e jantar, aproveitamos para fazer coisas como lavar o barco e manutenção, comprar comida e gás (que sempre é uma novela), usar o wi-fi para atualizar vídeos e, principalmente, lavar roupas.

Nas travessias, que muitas vezes levam alguns dias, temos uma rotina diferente: precisamos nos dividir em turnos. Sempre há algum de nós responsável por cuidar da navegação: são 2 horas para cada um, sendo que eu e Carol fazemos o turno da noite juntas. Então, todo mundo dorme pelo menos 4h seguidas. Procuramos nos organizar para que as refeições sejam feitas mais ou menos nos horários normais. Almoçamos e jantamos todos juntos sempre que possível – café da manhã é cada um por si, pois dormimos e acordamos em horários diferentes. À noite, sempre deixo uma sopa pronta para a madrugada. Mesmo no verão, sempre é mais fresquinho à noite e isso ajuda a ficar acordado.


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Nas travessias, a gente lê bastante, a Carol faz as aulas, trabalhamos com o computador, descansamos sempre que possível. Procuro fazer minha prática de yoga todos os dias – a diferença é que, em alto-mar, adapto a prática por causa do balanço do barco.

Uma viagem como essa é realmente um desafio de convivência. Já tivemos brigas e discussões em casa, mas, no barco, é diferente, porque as coisas precisam ficar resolvidas. Muita coisa vem à tona, é um grande aprendizado sobre cada um de nós, principalmente sobre si mesmo. A parte bacana é esse crescimento, essa oportunidade de se conhecer e de perceber que, apesar dos defeitos, a família se ama. Uma vez que a gente percebe isso, pode modificar determinados padrões e melhorar. Cada vez mais estamos compreendendo melhor um ao outro.

Meus filhos estão gostando muito da experiência. Um dos fatores que contribuíram para a escolha do roteiro da viagem foi ter um enfoque cultural: visitar museus, assistir a peças de teatro, conhecer lugares históricos… Segundo a Carol, “algumas coisas são mais difíceis, como estudar, fazer os temas e provas, porque tem muita distração”. Mas ela diz que está podendo ver um milhão de possibilidades diferentes e aprendendo coisas novas.

Nosso próximo desafio é velejar até as Ilhas Canárias, onde vamos terminar de preparar o barco para o Rally Atlantic for Cruisers, competição com cerca de 200 barcos que sai de Palma de Gran Canaria e vai até Santa Lucia, no Caribe. Serão mais de 20 dias atravessando o Oceano Atlântico.

Muitos chamam a gente de “corajosos”, mas, cada vez mais, as palavras que sinto que nos definem são organização e planejamento. Tomar a decisão de deixar a comodidade da vida que levávamos para viver a bordo de um veleiro não foi fácil. Havia dúvida e medo. Mas a cada dia percebo que tomamos a decisão certa.

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