Mulheres à água: elas se aventuram com esportes náuticos no Guaíba e no Rio Jacuí

As meninas se encontram no píer da marina antes de irem para a água | Foto: Félix Zucco
As meninas se encontram no píer da marina antes de irem para a água | Foto: Félix Zucco

Ana Carrard, especial

Comece essa leitura colocando como trilha sonora a música Reggae das Tramanda, do Armandinho. Pronto? Agora responda: quem nunca imaginou pegar onda no Guaíba?

Esse grupo de mulheres não só imaginou como pôs em prática a ideia. Elas moram em Porto Alegre e, no dia a dia, vivem imersas em uma “selva de pedra”. Mas, ainda assim, arrumam tempo e disposição para praticar esportes náuticos. E melhor: no Guaíba.

Sem precisar sair da cidade, elas recorrem à água para fazer exercício, relaxar, se divertir, curtir a natureza e renovar as energias. Uma escapadinha da rotina de trabalho em um dia de semana ou um tempinho a mais no final de semana, tudo é motivo para ir para a água.

Há quem considere o Guaíba um paraíso dentro da metrópole. Pode soar bairrista, mas em tempos tão difíceis para os porto-alegrenses, valorizar o que há de positivo na cidade pode servir como alento.

Dos mais suaves aos mais radicais, há diferentes modalidades para cada estilo. E uma coisa é certa: o stand up paddle, o windsurf, o wakeboard, o wakesurf e a canoa havaiana (novidade por estas bandas) vêm ganhando cada vez mais adeptas. Ainda assim, os técnicos de esportes náuticos em geral são homens. Muito se deve ao fato de serem modalidades tradicionalmente masculinas. Mas as mulheres citadas nessa reportagem provam que esse panorama tem tudo para mudar. As atividades destacadas representam apenas uma parte de todas as possibilidades de esportes náuticos ofertadas pela cidade. Não tem desculpa para não experimentar.

As meninas na lancha prontas para cair na água | Foto: Félix Zucco

As meninas na lancha prontas para cair na água | Foto: Félix Zucco

Tomar banho de Guaíba, molhar o cabelo, passar frio no inverno, nada é empecilho para quem passa o dia contando as horas para entrar na água. Se você têm um espírito mais bossa nova, vai curtir o SUP, a canoa havaiana e o wakesurf. Se você é mais rock’roll, não deixe de conhecer o wakeboard e o windsurf. Agora, se você é meio bossa nova, meio rock’roll, vale um tour por todos para escolher o seu. Nas páginas a seguir, confira histórias de quem pratica cinco modalidades.

Tem que se molhar?

As perguntas mais frequentes que os praticantes de esportes no Guaíba e no Jacuí ouvem é: vocês caem na água? Não pegam doença de pele? Sim, todo mundo se molha, é impossível ser diferente. Dentre a turma de 15 entrevistados dessa reportagem, apenas um deles afirmou ter algum receio quando se trata dessas águas. Todos os outros convivem com o Guaíba e com o Jacuí em harmonia e afirmam nunca terem pego sequer uma micose. Porém, a Smam (Secretaria Municipal do Meio Ambiente) alerta que não há monitoramento da qualidade da água nas principais regiões que servem para a prática de esportes náuticos (Guaíba na altura da Pedra Redonda e na altura dos clubes Sava, Veleiros e Jangadeiros e no Rio Jacuí, na Ilha das Flores, na altura do Canal da Conga). Os pontos monitorados pela Smam são Lami e Belém Novo, pois são os mais utilizados pela população. Já outras regiões não são monitoradas.

– Por falta de análises, a água é considerada imprópria para banho, em função de uma série de afluentes poluídos que chegam às regiões – alerta Glauber Zettler Pinheiro, engenheiro químico da Smam responsável pela balneabilidade do Guaíba.

WAKEBOARD

Foto: Félix Zucco

Foto: Félix Zucco

Entre os esportes náuticos, o wakeboard é um dos mais radicais. Se a maioria das atividades na água tem um espírito bossa nova, pode-se dizer que o wakeboard é rock’n’roll. Envolve técnica, velocidade, força, concentração e precisão.

– Precisa ter sangue no olho para acertar as manobras mais radicais – brinca Gabriela Martins Andrade, 28 anos, dentista, praticante da atividade desde 2014, nossa capa desta edição.

Para Gabriela, tudo começou em um feriado em que o vento não colaborou para a prática de kitesurf, a qual ela vinha se dedicando:

– Estava no Rio de Janeiro em uma viagem com o objetivo de praticar kite, mas como o vento não apareceu, procurei uma escola de wake para conhecer e não perder a viagem.

E nunca mais parou. O kite foi deixado de lado e hoje ela pratica wakeboard no Rio Jacuí uma ou duas vezes por semana. A cada sessão, uma nova manobra é testada, e os tombos não são poucos.

– Esse desafio de cada session, a autossuperação e a adrenalina são o que me move no wake. Junta isso com a turma de amigos na lancha e a proximidade com a natureza. Pra mim não existe nada melhor –  conta.

O wakeboard consiste em uma prancha de cerca de 140cm com botas aparafusadas. Munido dessa prancha, o praticante parte da água puxado pela lancha por meio de um cabo com manche. A lancha precisa ser específica para a prática, pois é necessário que produza as marolas para a execução das manobras. A velocidade média é de 40 km/h.

O instrutor de wakeboard Ricardo Barradas conta que alguns candidatos à prática perguntam se podem fazer aulas individuais pela vergonha dos primeiros caldos. Mas ele garante que 70% das pessoas já sai de pé na primeira tentativa. E mais: o número de mulheres vem aumentando consideravelmente:

– Quando a escola começou, em 2009, 90% dos alunos eram homens. Hoje, estamos com meio a meio.

Também instrutor da modalidade e educador físico, José Machado Barradas conta quais os principais benefícios da atividade para o corpo:

– Uma session de meia hora queima entre 800 e 1200 calorias. Trabalha muito o core (centro de produção de força do corpo, composto por 29 músculos que suportam o complexo quadril-pélvico-lombar), pernas, braços e tórax e exige muito esforço para manter a estabilidade na água.

Esporte: wakeboard
Onde praticar: Wakesul, com saída da Marina da Conga (Rua dos Pescadores, 1650, Ilha das Flores)
Investimento: R$ 160 (30 minutos de aula)
Equipamento: não é necessário ter material próprio, a escola fornece o equipamento
Informações: fone 51 (99273.5221), com Ricardo Barradas e wakesul.com.br

Wakedivas sem modéstia

Por Ana Carrard, jornalista, personal stylist, autora desta reportagem

Comecei a praticar wakeboard no auge do inverno de 2015. No início, o convívio com outras alunas era restrito às aulas. Logo, as sessões foram seguidas de happy hours e churrascos (há ótimas assadoras no grupo!) e não demorou para virar viagens ou encontros nos dias de semana.

Natalia, Gabriela, Márcia e Lu começaram no mesmo ano, no fim de 2014. Cheguei no ano seguinte e, depois, a Betina. Juntas, somos as “wakedivas”. O nome surgiu de uma brincadeira interna para compartilhar fotos em grupo de redes sociais e deu origem ao nome da turma também no Instagram: hoje, o perfil @wakedivas já passou de 10 mil seguidores.

Como se vê pelo nome, modéstia não é o nosso forte. Só que o wakeboard realmente não é um esporte para modestos: se baixar a cabeça em cima da prancha, vai de cara na água. Exige esforço físico, concentração e uma eterna vontade de superação. E, para isso tudo, ter uma turma que torce e vibra a cada nova manobra alcançada é uma injeção de incentivo. Incentivo que ultrapassou o convívio na lancha e ganhou espaço na vida. Volta e meia alguém lança um pedido de companhia no grupo de WhatsApp. Aí lá vão as outras ajustar a agenda de trabalho para tentar sair mais cedo, correr em casa, pegar maiô e prancha e encontrar a turma. Não é por nada que a gente costuma dizer que a água é a nossa melhor terapia.

WAKESURF

Foto: Félix Zucco

Foto: Félix Zucco

O wakesurf pode ser considerado uma variação mais suave do wakeboard. Exige mais movimentos de quadril e menos força nos braços. Foi essa suavidade que conquistou a médica radiologista Marcia Medaglia Grüssner, 40 anos. O sonho de surfar existia desde a infância, mas a dificuldade de constância no esporte em função da necessidade de viajar para a praia para praticar fez com que ela experimentasse o wakeboard, em 2014. Mas logo o esporte foi substituído pelo wakesurf.

– A proposta de menos impacto no corpo e de curtir mais tempo em pé na água, numa onda que é perfeita e infinita, tem mais a ver com minha filosofia de vida – conta.

Praticante também de pilates e ioga, Marcia faz wakesurf uma ou duas vezes por semana:

– É um momento de conexão com a natureza e de técnica associada à intuição, pois as manobras devem ser precisas e as decisões rápidas. Minha alma de surfista se realiza no wakesurf.

O wakesurf pode até ser mais suave que o wakeboard, mas não mais fácil de aprender. Enquanto no wakeboard a prancha fica presa aos pés por uma bota, no wakesurf a prancha (muito parecida com uma prancha de surfe mesmo, só um pouco menor) fica solta na água e normalmente são necessárias algumas aulas para ficar em pé pela primeira vez. O embalo inicial também é feito por uma lancha específica para produção de marolas com um cabo onde a pessoa é rebocada. Depois de ficar em pé, aos poucos o praticante vai soltando o cabo e dropando as ondas como o surf no mar.

Esporte: wakesurf
Onde praticar: Wakesul, com saída da Marina da Conga (Rua dos Pescadores, 1650, Ilha das Flores)
Investimento: R$ 210 (30 minutos de aula)
Material: não é necessário ter material próprio, a escola fornece o equipamento
Informações: fone 51 99273.5221 e wakesul.com.br

WINDSURF

Foto: Omas Freitas

Foto: Omas Freitas

Maria Izabel Schneider Severo, ou Bebela, como é conhecida pelos amigos da água, é um exemplo de que nunca é tarde para uma virada. No vento ou na vida. Hoje com 56 anos e atual campeã gaúcha na categoria slalom, teve a primeira experiência no windsurf aos 40, no mesmo ano em que se tornou avó. Já havia praticado bodyboard, kitesurf e SUP quando foi apresentada por uma amiga ao wind. Quando começou, foi uma das primeiras mulheres a se aventurar neste esporte:

– Via o Veleiros do Sul a partir da janela da minha casa, aquelas velas que pareciam borboletas se mexendo. Então uma amiga me convidou e pensei, puxa, só tem homens nesse esporte, mas vamos lá.

A partir de então, a paixão só aumentou. Hoje, com uma agenda de trabalho mais maleável – ela é empresária do ramo financeiro, coach de executivos e mediadora de conflitos – consegue praticar até três vezes por semana, mas depende sempre das possibilidades de clima e vento.

O windsurf é composto de uma prancha específica e uma vela e, por isso, só é possível ser praticado quando o vento colabora, pois é ele quem garante o movimento do equipamento. Uma das grandes vantagens do esporte, segundo ela, é a sensação de liberdade e a possibilidade de ter um momento consigo mesma. Quando lembra de situações que a aproximaram verdadeiramente da natureza, enche os olhos de lágrimas:

– Às vezes tem um único raio de sol que forma uma espécie de trilha na água e a gente segue aquela trilha velejando, contemplando em silêncio, ouvindo só o barulho do vento e da água. Para mim é um momento único de relaxamento e de deixar o estresse do dia a dia de lado. É a minha definição de paraíso.

O educador físico e instrutor de windsurf Eduardo Berger lembra que o wind é considerado um esporte radical e, por isso, exige, além de conhecimento sobre os ventos e sobre a condição da água, algum preparo físico. Mas isso é para quem pretende se aprimorar para velejar sozinho:

– Qualquer pessoa que não tenha limitações físicas pode fazer aula e aprender porque o nível de dificuldade é proporcional à possibilidade de cada aluno. As primeiras aulas são feitas sempre em dias de pouco vento e com monitoramento constante.

Além disso, entre os esportes de água, é um dos que mais trabalha preparo físico e força:

– É uma academia completa – garante Eduardo.

Esporte: windsurf
Onde praticar: A BWS (Berger Water Sports) ministra aulas na Raia 1 (Cel. Marcos, 355, Pedra Redonda)
Investimento: a aula individual custa R$ 160 e o curso básico, de 6 aulas, custa R$ 1 mil
Equipamento: não é necessário ter equipamento próprio, a escola fornece todo o material
Informações: bergerwatersports.com

CANOA HAVAIANA

Foto: Omas Freitas

Foto: Omas Freitas

“Canoa havaiana não é um esporte, é uma filosofia de vida”. Essa é a frase que permeia toda a explicação do coach de canoa havaiana, Paulo Gatti. As canoas são sagradas para os havaianos e foi essa aura espiritual que envolve a modalidade que conquistou a produtora de elenco Simone Butelli, 42 anos. Ela já foi praticante de outras atividades de água, como o stand up paddle, mas encontrou realização na canoa havaiana:

– Considero a canoa uma extensão do meu corpo, tanto física quanto mentalmente. Sinto que em dias que não estou muito bem, a canoa parece não sair do lugar ou andar em ziguezague. Entro na água não só para remar e fazer exercício, mas principalmente para pensar, refletir e resolver problemas do dia a dia. Para mim funciona como uma meditação.

Com origem na Polinésia, a canoa servia originalmente como meio de transporte para as famílias. O histórico explica bastante sobre a filosofia da atividade porque exige união, colaboração, sincronicidade e foco. Nesse esporte, o respeito às tradições da Polinésia é fundamental.

Em Porto Alegre, a canoa havaiana ainda é novidade, mas se seguir a tendência de São Paulo, Rio de Janeiro e Nordeste, não deve demorar a virar febre. A prática mais tradicional é feita em canoas de 6 lugares, mas existem também embarcações individuais e para até 12 pessoas (com a junção de duas canoas de seis lugares).

Para começar, Gatti aconselha o uso das canoas coletivas, por serem mais estáveis e seguras. Cada ocupante tem uma função específica e é preciso que todos trabalhem em conjunto e concentrados no aqui e agora.

Por ser um esporte novo em Porto Alegre, ainda não há turmas formadas para colocar com frequência a canoa de 6 lugares na água. Em função dessa restrição, Simone optou por treinar com a canoa individual, que exige prática e conhecimento do esporte:

– Tudo o que a gente quer é trazer mais gente para praticar e poder formar várias turmas para remar – diz Simone.

Esporte: canoa havaiana
Onde praticar: Núcleo Paulo Gatti PRG VA’A SUP. A Walea (waleacanoa.com.br) também ministra aulas apenas com canoas de um e dois lugares .
Investimento: no PRG VA’A SUP custa R$ 250 (2x por semana) e R$ 140 (1x por semana) a aula individual custa R$ 160
Equipamento: não é necessário ter material
Contato: prgatti@gmail.com e telefones (51) 99261-7824 e (51) 98170-1107

STAND UP PADDLE (SUP)

Foto: Félix Zucco

Foto: Félix Zucco

Entre os esportes de água, o stand up paddle, ou SUP, é o mais democrático de todos. Não existe restrições de condicionamento físico ou idade para praticar. Talvez por isso tenha se popularizado e virado febre nos últimos anos. Mas não se engane: com prática e treino, é possível pegar onda no mar e fazer manobras bastante radicais. É o caso da advogada Luciane Potter. Ela começou a praticar em 2012 e hoje, com 47 anos, já participou de campeonatos nacionais e acumula uma coleção de troféus.

Para ela, a sensação de bem estar causada pela flutuação na água, o sol e o vento no rosto e a produção de serotonina é um momento quase espiritual:

– Para cada remada mentalizo um pensamento bom e, no final, saio renovada de boas energias.

Luciane é advogada criminalista com ênfase em vítimas de crimes sexuais e tem uma rotina bastante pesada.

– O stand up é a minha válvula de escape e sei que só consigo ser uma boa profissional porque tenho esse esporte para me dar o equilíbrio – conta.

O educador físico e instrutor de SUP Eduardo Berger lista como um dos principais benefícios da atividade a liberação do estresse. Além disso, a modalidade trabalha equilíbrio e todos os grupos musculares, desde os dedos dos pés, que precisam estar fixos na prancha, passando pelo abdome, que mantém o equilíbrio, até a cervical que garante a postura da cabeça para o aluno ficar em pé na prancha:

– É um exercício funcional inclusive para tratamento de patologias na coluna e para idosos em recuperação das articulações, desde que liberados pelo médico.

Mas como todos os esportes praticados em águas abertas, também exige cautela e conhecimento do clima.

– Às vezes a pessoa que é inexperiente sai para remar a favor do vento e depois não consegue mais voltar. Por isso é importante ter instrução e conhecimento sobre o local onde irá praticar – avalia.

Esporte: stand up paddle (SUP)
Onde praticar: há varias escolas e possibilidades para a prática no Guaíba. A BWS ministra aulas com saída da Raia 1 (Cel Marcos, 355, Pedra Redonda). Outras escolas que também têm aula de SUP: Walea (waleacanoa.com.br), Kitesul (fone 51 35730-709), Torelly (torellys.com), PRG VA’A SUP (51) 99261.7824), Clube Adventure (facebook.com/clubeadventurepoa) e 30 Nós (30nos.com.br)
Investimeto: na BWS, a aula de um hora incluindo a prancha custa R$ 100
Material: não é preciso material próprio, a escola fornece prancha, remo e colete salva-vidas
Informações: bergerwatersports.com

Confira a galeria de fotos de esportes náuticos

Leia mais
Vídeos recomendados
Comente

Hot no Donna