Mulheres no bar: elas adoram drinks, tanto consumir quanto prepará-los

Mahara Soldan, Nani Parizotto e Bianca de Lazzari no Capone - Fotos: André Ávila
Mahara Soldan, Nani Parizotto e Bianca de Lazzari no Capone - Fotos: André Ávila

Por Marcela Donini, especial*
* Colaborou Raíza Vieira

A mão leva aos lábios um copo Old Fashioned, baixo, com fundo grosso e boca mais larga. Dentro dele, uma dose de gim, outra de vermute tinto e uma de Campari. Gelo. O Negroni desce amargo pela garganta. Se você imaginou um homem na cena, precisa rever seus conceitos. O drink forte combina cada vez mais com a mulherada. Público tradicionalmente associado a bebidas doces ou cremosas, elas têm conquistado cada vez mais espaço no balcão – dos dois lados.

ELAS NO COMANDO

Pelo menos duas das drinkerias mais badaladas de Porto Alegre estão sob o comando de meninas. Ao lado da sócia, Bianca De Lazzari, Mahara Soldan abriu o Capone em dezembro de 2013. Depois da experiência com o Lola – Bar de Tapas, inaugurado em 2012, as empresárias decidiram apostar alto nos drinks.

O Capone tem de 15 a 20 bebidas no cardápio, praticamente todas criações de Mahara, 33 anos, com a ajuda da atual chefe de bar, Nani Schneider. As paredes pretas exibem algumas fotos do mafioso que dá nome à casa, e, entre os móveis, também escuros, não há muito espaço para circulação. A iluminação baixa completa a decoração, sem muitas firulas, diferentemente do Lola e suas lampadinhas penduradas no teto e corações coloridos desenhados a giz nas paredes.

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Com 75% do público feminino, o Lola é ponto de encontro de muitos grupos de amigas – a bebida mais vendida é a sangria, oferecida em jarra, o que convida a compartilhar. Mahara conta que a ideia original não era essa, mas foi inevitável que o bar tivesse a cara das donas e talvez a decoração delicada tenha atraído a mulherada, acredita.

– Não queríamos que o Capone fosse um Lola dos drinks, queríamos atrair o público masculino – destaca Mahara.

Enquanto o Lola se tornou um “bar de meninas”, o Capone é um exemplo de que não existe “bebida de homem e bebida de mulher”. Lá, elas são metade dos frequentadores e, como os homens, apreciam todo tipo de combinação.

– A bebida mais vendida é o Scarface, suave e não muito alcoólico. Tem uma decoração legal e aroma de baunilha. A gente pode imaginar que os homens não tomariam esse drink mas ele é três vezes mais vendido do que o segundo, à base de bourbon – diz Mahara. Por outro lado, misturas fortes são comumente vistas nas mesas das meninas.

ATÉ SEM COMPANHIA

É verdade que ainda é mais usual ver homens sozinhos no balcão, dando uma passada no bar para tomar um único drink antes de ir para casa depois do trabalho. Mas já se observam mulheres com o mesmo comportamento ou chegando mais cedo e pedindo uma taça enquanto aguardam uma companhia.

Sentar sozinha para tomar um drink não é novidade para Bruna Abeijon, 25 anos, responsável pela carta do Vasco da Gama, 1020. Pelo trabalho e por ser apreciadora dos destilados, Bruna costuma frequentar bares sozinha especialmente em viagens.

Foto: Anderson Fetter

Bruna Abeijon preparando drinks no Vasco da Gama 1020

– Nem sempre é confortável – comenta, referindo-se aos olhares que frequentemente constrangem as mulheres.

Ela conta que, no Vasco, tem sido cada vez mais comum mulheres chegarem sozinhas e sentarem no balcão.

– Acabou o estereótipo de menina que só toma caipiroska de morango – brinca, destacando que elas são mais abertas a experimentar do que os homens.

Com cinco anos de experiência, Bruna conta que começou a trabalhar em bar por acaso, quando cursava faculdade de Moda. Acabou se apaixonando pela possibilidade de criar novas receitas e fez alguns cursos em São Paulo para se aprimorar. Para ela, o que falta entre bartenders – homens e mulheres – é mais profissionalismo e conhecimento.

MERCADO A CONQUISTAR

Do lado de lá do balcão, a desproporção é mais evidente. Mulheres ainda são minoria nos cursos de mixologia e poucas são aquelas que se destacam no mercado. Jéssica Sanchez, 27 anos, é uma delas. Gerente dos bares do Belmond Copacabana Palace, no Rio de Janeiro, virou referência para as bartenders brasileiras depois de ter conquistado o segundo lugar na etapa nacional do Diageo World Class, maior campeonato de coquetelaria do mundo.

Jéssica Sanchez celebra o aumento de mulheres em cursos atrás do balcão

Jéssica Sanchez celebra o aumento de mulheres em cursos atrás do balcão

Para ela, o cenário já está mudando. As dificuldades que encontrou no início são percebidas não como preconceito, mas estranhamento.

– Não tinha mulher atrás de bar. Nos cursos que fiz, também quase não tinha, ninguém estava acostumado a contratar mulher. Hoje é normal – afirma.

Formada em Comércio Exterior e criadora dos blogs Buenos Aires para Chicas e São Paulo, Encantada, Amanda Mormito, 26 anos, também percebe mudança no mercado, ainda dominado por homens. Morou quase 10 anos em Buenos Aires, onde, segundo ela, há mais mulheres bartenders do que em São Paulo.

A atmosfera coqueteleira da capital portenha despertou o interesse da jovem, que fez cursos na área e arrisca receitas mais simples como Spritz e Mojito em casa para os amigos. A maior diferença entre os drinks feitos por homens e mulheres, opina Amanda, é o equilíbrio:

– A mulher, em geral, tem mais sensibilidade e um senso de estética um pouquinho melhor, o que resulta em drinks mais balanceados.

A blogueira não gosta de generalizar, mas confessa que um bom hábito das meninas é não calibrar muito no álcool, menosprezando os outros ingredientes.

Para Amanda, o recente empoderamento feminino visto em outros cenários contribui para mais mulheres no comando de drinkerias. Ela acredita que, da mesma forma que as mulheres conquistaram seu lugar em frente aos balcões, como apreciadoras de bons drinks, também vão colocar as mãos nas coqueteleiras e provar que “lugar de mulher é onde ela quiser”.

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