Outrora masculino, universo do vinho vem sendo invadido por mulheres que amam o que fazem – e o que bebem

Por algum motivo talvez devido à mais conhecida das cenas bíblicas, em que Jesus Cristo (um homem) oferece aos demais um cálice como símbolo de salvação , o vinho é diretamente relacionado ao universo masculino no nosso imaginário. São enólogos, degustadores, produtores e críticos que gravitam em torno da mais sublime das bebidas. A história mostra, porém, que vinho é e sempre foi coisa de mulher. Na jovem trajetória do vinho brasileiro, a figura feminina ficou eclipsada pela entidade do imigrante (também masculino) que trouxe para estas terras a cultura. Hoje, uma nova geração de mulheres tomou para si a missão de elevar o vinho brasileiro a um novo patamar, seja fabricando, vendendo ou divulgando o produto nacional. Com seu trabalho, elas estão provando que vinho não é uma questão de gênero; é de alma e de coração.

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Para esta reportagem, Donna reuniu algumas das muitas mulheres envolvidas de alguma maneira com o mundo do vinho. O local do encontro foi a loja Vinho & Arte, em Porto Alegre, cuja proprietária é, claro, uma enóloga. Desde pioneiras no ramo até gurias destemidas que decidiram começar uma vinícola do zero, as participantes da conversa concordam em um ponto: apesar do apelo masculino ainda forte, vinho também é expressão de feminilidade.

— É uma bobagem pensar que não há lugar para as mulheres na produção, nos laboratórios, na elaboração, enfim, em todo o processo. Lá na nossa propriedade, por exemplo, 90% da colheita é feita por mulheres. E a rotulagem é feita exclusivamente por elas, que são mais cuidadosas e criteriosas. O resultado se vê na qualidade dos produtos — comenta Isadora Pötter, de 31 anos, proprietária e fundadora, ao lado das três irmãs, da Vinícola Guatambu, em Dom Pedrito.

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Histórias como essa se repetem sem parar em muitas vinícolas gaúchas

— Quando decidimos plantar vinhedos na propriedade, que até então se dedicava ao cultivo do arroz, as mulheres dos trabalhadores da lavoura nos procuraram para dizer que queriam trabalhar com as uvas. Era uma mão de obra excedente que se mostrou super adequada para o manejo dos parreirais — revela Hortência Brandão Ayub, de 62 anos, proprietária, junto com as duas filhas, da Vinícola Campos de Cima, em Itaqui.

As grandes matriarcas, presentes na história de todas as famílias gaúchas, compõem traço fundamental na história do vinho, transmitindo às gerações o gosto pela bebida de seus antepassados. Por isso, tantas delas são homenageadas postumamente nos rótulos mais especiais de diversas vinícolas. É o caso da avó de Hortência, que molhava o dedo no tinto que bebia e dava aos netos, para que provassem. Dona Irene Antonieta, que ensinou a família a apreciar e a respeitar o vinho como símbolo de saúde, celebração e união, batizou no ano passado o primeiro rosé da Campos de Cima.

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Outras matriarcas, que são uma espécie de encarnação da história do vinho brasileiro, imprimem, elas próprias, o nome em seus rótulos. É o caso de Beatriz Dreher Giovaninni, 69 anos, neta e filha dos imigrantes que ergueram o império de bebidas Dreher. Depois de ver a família se desfazer da empresa que seu avô construiu, ela recomprou a terra onde ainda havia vinhedos do tempo do seu pai, em Pinto Bandeira. Ao lado do marido, realizou o sonho de erguer a vinícola Don Giovanni, para fabricar produtos de excelência e altíssima qualidade, como aprendeu com a família. O espumante mais prestigiado da casa, um corte de chardonnay e pinot noir maturado durante 48 meses pelo método champenoise, chama-se Dona Bita, o apelido que Beatriz carrega desde a juventude.

— Este é um universo muito feminino, pois o vinho tem muito a ver com a sensibilidade das mulheres, seu jeito de encarar o mundo e a vida. E também é a história de muitas mulheres como eu, que nasceram e cresceram rodeadas por uvas. Por isso quis ter um espumante com o meu nome. Afinal, eu faço parte da trajetória do vinho brasileiro — garante Dona Bita.

Sensibilidade feminina, aliás, não está relacionada apenas à fabricação ou à degustação dos produtos. O mercado está descobrindo o poder das mulheres na hora de mudar o cenário de consumo da bebida. Empenhada em divulgar a qualidade do produto nacional, a sócia-proprietária da Vinícola Quinta Don Bonifácio, Marina Libardi, 31 anos, marca presença em eventos e feiras para tornar conhecido o vinho feito pela família em Caxias do Sul. Para ela, a vantagem de ter mulheres à frente da estratégia comercial é a sensibilidade e flexibilidade que elas demonstram, fazendo cair preconceitos e deixando de lado a rigidez masculina.

— Existe um preconceito forte com o vinho brasileiro no mercado. Muitas vezes o comprador nem quer conhecer e diz que prefere o importado. Aí entra a capacidade de convencimento e de argumentação das mulheres, que são capazes de entender o interlocutor e ajuda-lo a abrir a mente para novas experiências — relata Marina.

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Por acreditar ser possível fazer um vinho de qualidade realmente superior no Brasil, mulheres enfrentaram (e ainda enfrentam) cenários inóspitos e batalhas duras para manter de pé os seus sonhos. É o caso de Daniela Borges de Freitas, de 50 anos, proprietária, junto com os dois irmãos, da vinícola Villa Francioni, a primeira a desbravar o terroir de altitude da Serra Catarinense, na cidade de São Joaquim. O pai, fundador do empreendimento, morreu subitamente antes do lançamento do vinho oriundo da primeira safra. Foi uma tragédia que poderia ter posto fim ao ambicioso projeto, não fosse o espírito conciliador de Daniela e o comprometimento dos irmãos.

— Meu pai sonhou em fazer um vinho de qualidade superior, e o terroir era propício para isso. Então, assumi esse desafio e nunca me senti menos preparada para ele por ser mulher. Pelo contrário. Foi preciso força, e isso as mulheres têm de sobra – afirma Daniela.

 

 

 

Especialistas e decisivas

A presença feminina não está somente nos vinhedos e nas vinícolas. Uma legião de mulheres já se reúne em confrarias e grupos para aprender, apreciar e discutir os temas relacionados ao universo do vinho, tornando-se, elas também, especialistas no assunto. Também é cada vez mais comum a mulher ter o poder de decisão sobre o vinho no momento da compra.

— A mulher é o principal fator de crescimento no consumo de vinho no Brasil. Aqui na loja, por exemplo, mais de 70% das clientes são mulheres. Sem contar que somos três gurias no atendimento e na administração — comenta Maria Amélia Flores, enóloga e proprietária da loja Vinho & Arte.

Apesar disso, os estereótipos e preconceitos ainda são frequentes. Quem nunca escutou que mulher só gosta de espumante doce ou que um tinto encorpado não serve para o paladar feminino? Ou não teve que explicar ao garçom que ela, e não o marido, iria escolher o vinho para o jantar? A própria Maria Amélia já perdeu a conta de quantas vezes protagonizou essa cena em restaurantes pelo mundo. Felizmente, este tipo de situação tende a tornar-se mais rara, segundo as mulheres que respiram o vinho no Brasil, afinal, trabalhar com a bebida ou simplesmente apreciá-la não é coisa de homem ou de mulher, mas de gente. Gente que ama o que bebe – e ama o que faz.

— Ao trabalhar com o vinho, as mulheres enfrentam tantos desafios quanto em qualquer outra atividade, cada uma com a sua característica. Eu, por exemplo, administro uma vinícola inteira e levo minhas duas filhas pequenas à escola todos os dias. É essa a mágica das mulheres — destaca Magda Zandoná, proprietária, junto com o irmão gêmeo, da Vinícola Almaúnica, em Bento Gonçalves.
Algumas mulheres na história do vinho

Barbe-Nicole Clicquot Ponsardin, a Viúva Clicquot

Em 1804, aos 27 anos, ficou viúva e com uma filha pequena para criar, Barbe-Nicole percebeu que a vinícola deixada pelo marido, em Champagne, na França, ia de mal a pior. Em pleno período de guerras napoleônicas, ela precisava agregar valor ao seu produto para vender fora do país. Teve então a ideia de acondicionar as garrafas na posição inclinada, para que os resíduos das leveduras decantassem durante a fermentação. Criou assim o método champenoise, que é o processo tradicional de fabricação do champagne. A bebida, que ficou cristalina, tornou-se sinônimo de luxo. O método inventado pela viúva é usado até hoje para fabricar vinhos espumantes de alta qualidade e o rótulo que leva o seu nome é um dos champagnes mais prestigiados do mundo.

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Antónia Adelaide Ferreira

Como as outras, esta portuguesa nascida em Peso da Régua, na região do Douro, despertou para os negócios depois de ficar viúva. A diferença é que recebeu a vinícola Ferreira como herança do pai, que já fabricava vinho do Porto. À frente dos negócios, travou longos embates com o governo português, em nome de melhores condições de comercialização do vinho nacional. Também foi fundamental no combate à filoxera, praga que assolou vinhedos em toda a Europa no século 19. Decidida a preservar suas vinhas, ela viajou a Inglaterra em busca de remédios para os parreirais. Abriu, assim, as portas do Reino Unido para o principal produto vinícola português – até hoje, os ingleses são os principais compradores do vinho do Porto. Morreu em 1896 deixando a Ferreira em situação extremamente confortável, com cerca de 30 quintas em todo o Alto Douro Vinhateiro. Até hoje, é possível visitar a sede da vinícola, em Vila Nova de Gaia, e conhecer a história de sua matriarca.

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Jeanne Alexandrine Louise Mélin Pommery, a Madame Pommery

Visionária, criou o primeiro champagne brut da história em 1874, de olho no mercado inglês, que preferia bebidas menos doces. A história de Madame Pommery é semelhante a de Barbe-Nicole Clicquot – ficou viúva cedo e com uma vinícola para administrar, na cidade francesa de Reims. Sua propriedade ficava sobre uma rede subterrânea de túneis de cerca de 18 quilômetros, construídos na época do Império Romano. Jeanne Alexandrine aproveitou e fez ali uma cava gigantesca para armazenar seus produtos, o que transformou a Pommery em uma das maiores empresas da França.

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Jancis Robinson

Inglesa de 64 anos, é a crítica de vinhos mais respeitada do mundo. Formada em filosofia, começou a se interessar por vinhos há mais de 30 anos, quando começou também a estudar sobre o assunto. Foi a primeira mulher a receber o título Master of Wine, resultado de um exigente teste de qualificação que mede os conhecimentos no assunto. É autora de livros importantes, como o Atlas do Vinho, e assina uma coluna sobre o tema no jornal inglês Financial Times. Também já cuidou da adega do Palácio de Buckingham. Em suas falas, costuma dizer que não há certo ou errado quando o assunto é vinho. Há, sim, gostos e sensibilidades diferentes.

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* Fotos: Diego Vara e Reprodução

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