Por que amamos tudo que tem a ver com Buenos Aires – e como viver um dia “porteño” em Porto Alegre

Mi Buenos Aires querido,
cuando yo te vuelva a ver
no habrá más penas ni olvido

Os primeiros versos do famoso tango de Carlos Gardel, Mi Buenos Aires Querido, gravado pela primeira vez em 1934, poderiam ter sido dedicados a nós, gaúchos. Afinal, voltar a ver uma de nossas cidades mais queridas é, de fato, um alento para o coração, que espanta para longe todas as tristezas e os esquecimentos. Pode ser que tenhamos visitado a capital argentina uma vezinha só, pode ser que sejamos assíduos frequentadores ou até portenhos de primeira viagem: percorrer o longo trajeto entre o aeroporto de Ezeiza e o centro da cidade é uma espécie de preâmbulo de emoções. É a certeza de experiências simples, mas que dizem tanto sobre nós mesmos, sobre nossos gostos e personalidades. É a garantia de dias inesquecíveis.

Mas por que será, afinal, que a gente gosta tanto assim de Buenos Aires? Por que nos parece que aquela ali é nossa segunda casa? De onde vem a impressão de que aquele parque, aquelas ruas, aquelas lojas e aqueles restaurantes também são um pouco nossos? Que sensação de pertencimento é esta que nos invade, mesmo estando mil quilômetros distantes de casa?

#DonnaViaja
:: Peru muito além do mochilão: por que o país andino nunca esteve tão na moda
:: Caminhos de Pedra: um passeio cheio de charme em Bento Gonçalves, no RS

00b13af3

Nossa história pode começar a explicar este fenômeno. Desde a chegada dos colonizadores, as fronteiras entre Brasil e Argentina sempre foram transitórias, especialmente na parte mais ao Sul do território, onde hoje é o Rio Grande do Sul. Mesmo antes da chegada dos europeus, os índios que habitavam a bacia do Prata também circulavam por toda a extensão do Pampa. Várias etnias, como os charruas e os guaranis, transitavam pelas vastidões, deixando marcados os traços de suas culturas. A chegada do gado vacum, trazido pelos europeus e incrivelmente bem-adaptado às planícies sulinas, povoou os campos com a riqueza que representaria a pujança econômica da Argentina e também do Rio Grande. Com o gado, nasceu a figura do gaúcho – ou gaucho, no espanhol platino -, o homem solitário, valente e livre, mistura de índio e branco, que vive nos campos a conduzir rebanhos e a desempenhar com destreza as lidas com os animais. Este homem rude montado em seu cavalo vestindo bombacha e poncho e empunhando facão e boleadeiras é figura icônica – para nós e para nossos vizinhos do mesmo jeito.

A partir da segunda metade do século 19, com o fim das guerras civis que estabeleceram as fronteiras da Argentina, o país conheceu o período mais próspero de sua economia. A capital, Buenos Aires, tornava-se cada vez mais exuberante. As artes, a arquitetura, a moda, a literatura, tudo tinha inspiração na Europa, especialmente em Paris, principal destino dos latifundiários que enriqueciam com as exportações de carne e trigo. As cidades do Sul do Brasil, especialmente Pelotas e Porto Alegre, também viviam um período de pujança econômica graças ao bem-sucedido comércio do charque. Devido à proximidade geográfica e às afinidades culturais, os ricos e aristocratas gaúchos tinham Buenos Aires como referência muito mais do que o Rio de Janeiro, a capital brasileira à época.

00b13aef

Essa origem histórica comum fez valer suas consequências ao longo do tempo, tornando cada vez mais vivas as similitudes e afinidades entre nós, os gaúchos, e nossos vizinhos argentinos. Ouvimos com paixão a música deles, seja o rock do Fito Páez, as invencionices de Soledad Vilamil ou as raízes imortais de Mercedes Sosa ou Atahualpa Yupanqui – sem falar no tango, claro. Comemos a comida deles com ardor, especialmente a maior paixão dos hermanos, que também é a nossa, a carne. Tomamos mate com a mesma erva, quase do mesmo jeito, herança dos guaranis, antepassados comuns. Nos encontramos nas páginas dos escritores argentinos, que de alguma forma falam também de nós – desde o Martín Fierro, em alguma medida o precursor do velho Blau Nunes, até Borges, Cortázar, Piglia. E o cinema dos caras, com o gênio de Ricardo Darín? Nada poderia ser mais nosso.

E não para por aí. Sentar em um café para ler as notícias do dia entre goles da bebida fumegante e mordidas em uma medialuna, fazer um piquenique em algum parque num dia de sol, devorar um suculento lomo a la parrilla, caminhar sem pressa pela rua, degustar um malbec no capricho, ler um livro na companhia de uma bem servida fatia de mil folhas, com muito dulce de leche, dançar um tango depois de uma ou duas lições e achar que está arrasando. Quem já esteve em Buenos Aires cumpriu pelo menos um (ou dois, ou três) destes rituais. E invariavelmente sentiu-se em casa em todos estes momentos.

00b13af2

Pena que a gente não pode ir a Buenos Aires toda semana, não é? Mas será que não podemos mesmo? Bem, ir toda semana, de verdade, para fazer turismo, só para milionários com bastante tempo livre. Como não é este o caso da maioria de nós, descobrimos um jeito de viver como um portenho aqui mesmo, na nossa Capital. Para matar a saudade da Buenos Aires querida, Donna preparou um roteiro para repetir, por aqui, tudo o que fazemos de bom na terra dos hermanos.

Enquanto a gente não embarca para a Reina del Plata, conforme outro tango de Gardel, curtimos o jeito portenho de ser em plena Porto Alegre. Dale!

 

Tango: impossível ser portenho sem ele

Uma forma de caminhar pela vida, como definiu o escritor Jorge Luis Borges, o tango é a mais perfeita síntese do que é ser portenho. Muito mais do que nos argentinos de modo geral, o tango está na essência dos nascidos e moradores da capital do país vizinho. O interior da Argentina, pela diversidade de sua cultura, tem outros ritmos folclóricos mais representativos, como a zamba, a milonga e o chamamé. Mas, em Buenos Aires, nada é mais verdadeiro do que o bailar de um tango ao som de violões, violinos e do típico bandoneon.

Acredita-se que o tango tenha remotas origens africanas. A forma como o conhecemos, no entanto, nasceu no século 19, nos bordeis das zonas de meretrício de Buenos Aires. Uma dança sensual e melancólica ao mesmo tempo, que fala de amor, de perdas, de protestos. Com Carlos Gardel, na década de 1930, o tango ganhou o mundo por meio de seus discos e filmes. Até hoje, os portenhos referem-se a Gardel como o artista que canta cada vez melhor – mesmo tendo se passado 80 anos da sua trágica morte, em um acidente aéreo. O tango é, ainda hoje, um dos elementos identitários mais importantes de Buenos Aires. Para onde se olha, especialmente no centro da capital argentina e no bairro de La Boca, há gente ouvindo e dançando tango.

VÍDEO! Afinal, de onde veio o tango argentino? Conheça a história do ritmo

 

Aqui em Porto Alegre não há tanto tango, é verdade, mas é possível ouvir, assistir e, principalmente, aprender a dançá-lo. Uma das companhias que nos aproxima deste hábito tão portenho é a La Marrupeña, que promove espetáculos em eventos, teatros e restaurantes, além de ministrar aulas para quem quer mergulhar no universo desta dança tão fascinante. Os ensaios, que ocorrem semanalmente na Casa de Cultura Mario Quintana, são um desfile de cultura argentina. Além do tango, os bailarinos ensaiam outros ritmos folclóricos oriundos do interior da Argentina, como malambo, chacarera e chamamé. Mais do que ensinar, o objetivo da companhia é difundir a cultura e o folclore argentinos como uma forma de promover o diálogo entre os países. O professor e fundador da escola em Porto Alegre, Juan Ignacio Sunde, comenta que a receptividade para a sua arte é enorme na cidade, onde se sente à vontade.

— Encontrei aqui muitas semelhanças com a nossa cultura, o que explica a aceitação ao trabalho que estamos fazendo — comenta.

Quem quiser conferir a agenda de espetáculos ou inscrever-se para os cursos, basta acessar o site do grupo.

Aula relâmpago! Aprenda os passos básicos do tango argentino

 

Um café, para começar

Ninguém tem dúvida de que sentar em uma cafeteria para a primeira refeição do dia é coisa de portenho. E, de uns tempos para cá, é coisa de porto-alegrense também. Afinal, basta uma olhada rápida nas ruas de qualquer bairro da cidade para notar a profusão de cafeterias, confeitarias e até padarias que oferecem pão fresco, café de qualidade, iguarias caprichadas e um espaço confortável, com wi-fi e jornais, para que os clientes desfrutem ali das suas primeiras horas.

Foi na cidade natal que Maximiliano Zalacain, 38 anos, adquiriu o costume de começar seus dias em algum café. Afinal, o hábito de fazer o desjejum fora de casa é quase uma unanimidade entre os portenhos como ele. O trabalho como engenheiro em uma indústria, no entanto, pouco a pouco tirava do engenheiro mecânico o gosto por estes pequenos prazeres. O estresse, a correria e os compromissos profissionais deixavam o argentino amante dos cafés cada vez mais ausente de suas descoladas mesinhas.

00b15aa5

Foi quando uma viagem a trabalho o apresentou a Porto Alegre. Foi amor à primeira vista.

— A cidade é muito receptiva e muito familiar para nós, que crescemos em Buenos Aires. Claro, é menor, mas tem uma atmosfera muito semelhante, com ruas arborizadas, cafés interessantes, pessoas dispostas a desfrutar os prazeres do dia a dia — declara.

Daí até decidir abandonar a rotina sufocante na Argentina para realizar o sonho de empreender no Brasil foi um pulo. Antes de abrir o La Tasca en el Centro, local que é uma mistura de cafeteria, padaria e bar de tapas, Maxi fez curso de panificação e confeitaria artesanal na Argentina, para aprimorar a técnica. Abriu as portas do casarão reformado há quatro anos e, desde então, mantém um reduto de produtos e costumes portenhos em sua loja.

00b15aa3

O pão, sempre artesanal e natural, é a atração principal. Mas também tem os doces, as tortas e, especialmente, as tapas, as famosas fatiazinhas de pão cobertas com toda sorte de delícias, inventadas pelos espanhóis e amplamente reinventadas pelos bares e bistrôs portenhos. Isso tudo vai bem com o café, outra paixão compartilhada por nós e por eles, ou com a carta de vinhos e cervejas que dá destaque aos produtos argentinos.

— Nossos costumes portenhos, como desfrutar de algumas horas do dia na companhia de um bom café e algo realmente gostoso para comer, já são compartilhados com o povo de Porto Alegre — comemora Zalacain.

La Tasca En El Centro
Rua Duque de Caxias, 678, Centro
(51) 3212-5966
Aberto de terça a domingo, das 10h às 22h

00b15a8d

 

A carne nossa de cada dia 

De todas as características que nos aproximam dos vizinhos portenhos, nenhuma é tão marcante e arraigada como o gosto que compartilhamos pela carne de rês. Argentinos são, assim como os gaúchos, carnívoros por excelência, conforme atesta o Instituto de Estímulo e Divulgação da Carne Bovina – sim, esse órgão existe, pertence ao governo argentino e faz o seu trabalho direitinho, propagando as maravilhas deste insumo. Você pode até ser perdoado se disser a um argentino ou a um gaúcho típicos que não gosta de futebol e que tanto faz quem vencer o clássico do fim de semana. Mas experimente dizer que não gosta de carne…

Tanta fissura começou com a chegada do gado vacum ao território do Pampa. Aquele pasto fértil e nutritivo fez a bicharada se multiplicar, engordar e virar refeição para as populações do campo e da cidade. No século 19, a carne era a base da economia na Argentina e também no Rio Grande do Sul.

O jornalista Ariel Palacios, que além da ascendência familiar também trabalhou durante anos como correspondente em Buenos Aires, publicou o livro Os Argentinos, pela Editora Contexto, no qual aborda os mais diversos aspectos sobre a cultura, a personalidade, os costumes e a história dos personagens-título. Um dos capítulos mais interessantes do livro é, justamente, sobre a carne. As curiosidades reveladas por Palacios demonstram a fissura dos nossos vizinhos por um bife bem suculento. O país, historicamente um exportador de carne, tem o verdadeiro foco no mercado interno, que consome mais de 80% da produção. Segundo o livro, em 1951, tempos áureos do poder aquisitivo dos argentinos, cada compatriota comia nada menos do que 100 quilos de carne bovina por ano. Já no início dos anos 2000, com a catástrofe econômica que se instaurou no país, o consumo caiu para míseros 51 quilos, quantidade irrisória para manter vivo um ser humano nascido na margem do Rio da Prata. Assim que os primeiros sinais de recuperação apareceram, o consumo voltou logo a crescer. Em 2012, ufa!, a média devolvia os argentinos ao posto de comedores mais vorazes do mundo, com 63 quilos anuais per capita. No ano passado, essa conta fechou em 59,4 quilos.

“As touradas, emblema da cultura espanhola, que tiveram sucesso em ex-colônias como México, Peru e Venezuela, jamais foram populares na Argentina. Matar um bovino pelo simples ato de matar, sem que fosse para esquartejá-lo e devorá-lo, não fazia o menor sentido”, relata Palacios em um dos trechos do livro.

 

Suculento e na parrilla! 

Tanto amor pela carne exige um jeito especial de preparar a iguaria mais querida do sul da América. Tem que ser na grelha, com o calor das brasas feitas com tocos de lenha. É a famosa parrilla. Eles inventaram, é verdade, mas a gente ama tanto que já considera esse jeito especial de assar os cortes uma especialidade nossa. O cenário para desfrutar um asado no capricho pode variar. Uma mesinha charmosa em um dos restaurantes de Puerto Madero é uma opção bastante atraente. Muito longe para você essa semana? Tudo bem. Porto Alegre tem opções que substituem à altura o templo original. Uma delas fica na Zona Sul e atende pelo nome de Mestre Parrillero. Prepare-se, pois entrar lá pode trazer lembranças dos seus melhores dias em Buenos Aires. E a saudade vai doer.

Amigos dos tempos de adolescência, os empresários Ricardo Westphalen, 38 anos, e Felipe Jockyman, 36, sempre compartilharam a paixão por tudo o que envolve o estilo de vida da capital argentina. Quando começaram a dividir o desejo de empreender, concluíram que esta afinidade poderia virar negócio. A experiência de Ricardo na parrilla, que ele já comandava como mestre parrillero em eventos e casas de clientes, unida ao conhecimento adquirido por Felipe durante um período de cursos na Inglaterra, deu aos dois a coragem de abrir as portas do Mestre Parrillero, um dos mais portenhos restaurantes da Capital.

00b24ac6

Duvida? Então vamos ao cardápio: carne, carne e mais carne. De todos os cortes: vacío, asado de tira, tapa de cuadril, matambre relleno e bife de ancho. Quer mais? Então tem parrillada completa, com todas aquelas coisinhas estranhas que amamos provar para fazer cara de espanto: molleja, riñones, chinchulin, morcilla e chorizo. Na carta de vinhos, os óbvios malbec fazem companhia para outros rótulos menos conhecidos produzidos na região de Mendoza. Para quem gosta de cerveja, a pedida é deliciar-se com a argentiníssima Quilmes. E, para quem acha que ainda está em Porto Alegre, os caras oferecem um copinho de Fernet com Coca, um destilado de ervas amargo como fel que só existe nas bandas de lá. Os vizinhos bebem o líquido misturado ao refrigerante, para suavizar o amargor e melhorar a digestão, exatamente do jeito que o Fernet é servido aqui.

Nas paredes do restaurante, além dos emblemas de todos os times de futebol da capital argentina, quadros, cartazes e até placas remetem o comensal diretamente para algum local da Recoleta ou do boêmio bairro de Palermo. Nas noites de quarta e quinta-feira, o detalhe final que prova que o Mestre Parrillero é mesmo uma máquina de teletransporte, que nos leva direto para Buenos Aires: aulas e shows de tango ao alcance das câmeras dos tímidos e dos passos dos ousados.

 

Um docinho, para acompanhar

Ao primeiro contato da massa com a boca, o tlec-tlec delicado da mordida faz a trilha sonora para o encantamento que está por vir. Depois de sentir a textura macia, leve e quebradiça, uma espécie de feitiço emana das camadas de recheio agora reveladas. É a poesia em forma gastronômica, é o instante suspenso em que o açúcar encontrou a forma perfeita. É a primeira mordida em um mil-folhas de dulce de leche.

Quem já comeu o legítimo, em alguma confitería escondida pelas calles de Buenos Aires, conhece essa sensação sublime. Quem ainda não comeu, não pode esperar nem mais um minuto para viver essa experiência – que será irreversível, garantimos. Não, não dá para aguardar a promoção da companhia aérea, a coisa é urgente. Sorte a nossa que, como quase-portenhos que somos, temos o nosso próprio (e legítimo) alquimista dos mil-folhas, que materializa essas partículas de paraíso bem pertinho de nós.

Diego Andino é o mago responsável por esta e outras iguarias que trazem a assinatura da sua terra natal, com a personalidade própria que o talento e a ousadia do chef imprimiram às receitas tradicionais. Ele, que seria jogador profissional de futebol não fosse o rompimento de um ligamento do joelho, escolheu a pâtisserie como o caminho alternativo. Nascido e criado no bairro de Olivos, em Buenos Aires, Diego teve gosto pela cozinha desde cedo, como hobby. Depois de abandonar o futebol, estudou confeitaria com grandes chefs, especializou-se na Europa e abriu restaurantes em diversos locais da Argentina. Quando fechou seu último empreendimento e estava de partida para os Estados Unidos, para viver com um dos irmãos, reencontrou o primeiro amor da juventude, a gaúcha Neca Carvalho, que 20 anos antes havia capturado o coração do hermano nas areias de Atlântida.

— Sempre gostei muito do Brasil, especialmente do Rio Grande do Sul. Aqui é a minha casa, onde me sinto à vontade e onde encontrei o verdadeiro amor — declara-se.

00b249f0

Consciente do sucesso que as iguarias da sua terra fazem por aqui, Diego faz questão de preservá-las no cardápio de sua pâtisserie, mas sempre com um toque pessoal. Na decoração, detalhe do qual o chef cuida com esmero milimétrico, a exuberância das formas emoldura o sabor tradicional. Além do aclamado mil-folhas, que representa mais de 50% das vendas, o comensal também encontra outras delícias argentinas, como as medialunas e as empanadas salgadas (com carne moída e ovo no recheio, como aquelas que a gente come entre uma volta e outra na Calle Florida).

— Tem algo mais gaúcho e argentino do que comer bem? — questiona o chef.

Quem discorda?

Diego Andino Pâtisserie
Rua Arthur Rocha, 795, Mont’Serrat
(51) 3264-4198 / 3085-0222
De segunda a sábado, das 10h às 19h30min

 

Para assistir! Três vezes Darín

Um Conto Chinês (2011, dirigido por Sebastián Borensztein)

Um dos filmes mais interessantes da nova geração do cinema argentino, que se especializou em extrair drama e tensão de situações triviais, ambientadas, preferencialmente, em alguma ruela desconhecida de Buenos Aires. Estrelado por Ricardo Darín – como são os melhores filmes feitos atualmente no país vizinho -, Um Conto Chinês é inesperado desde o começo. No que deveria ser mais um dia comum na vida do maniático e obsessivo dono de uma ferragem, um táxi cospe no meio-fio um chinês desconcertado pelo assalto sofrido minutos antes. O sujeito não fala uma palavra de espanhol, o rabugento nem sabe como começar a falar chinês. Ele não quer a companhia do asiático, mas, ao mesmo tempo, se compadece da sua situação e o mantém em sua casa, gerando situações hilárias, fortes e dramáticas.

 

O Segredo dos Seus Olhos (2009, dirigido por Juan José Campanella)

Você vai dizer que já viu este filme, logo ele não deve estar aqui, nesta seleção de películas argentinas que nos inspiram. E nós respondemos: mesmo que você já tenha visto, O Segredo dos Seus Olhos merece estar aqui para lembrá-lo de assistir a esta maravilha sempre que possível. Além do onipresente Darín, o filme tem a presença delicada e marcante da atriz e cantora Soledad Vilamil, com interpretação elogiada pela crítica. Benjamin Espósito, personagem de Darín, envolve-se em uma enigmática investigação para solucionar um crime que o atormenta há anos. Para isso, tem a ajuda de Soledad, que interpreta a superiora do investigador, por quem o protagonista nutre uma paixão ardente e secreta. O filme ganhou o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro em 2010.

 

Relatos Selvagens (2014, dirigido por Damián Szifron)

Composto por seis histórias curtas e de grande tensão dramática, ora ancorada na tragédia, ora no humor, o filme é a experimentação dos limites da condição humana a todo momento. Gentes de todos os tipos vivem situações absurdas cujo resultado é sempre extremo – para o bem ou para o mal. Darín estrela um dos episódios. O longa concorreu ao Oscar de Filme Estrangeiro e à Palma de Ouro em Cannes, mas não ganhou nenhum dos prêmios. Ainda assim, foi uma das maiores bilheterias da história da Argentina.

Vai uma leitura aí?

Ler é outro hábito pelo qual temos tanto apreço quanto nossos hermanos – especialmente se a literatura em questão vier de lá. E, muito mais do que apenas devorar os livros, temos prazer em manuseá-los, escolhê-los e convidá-los para irem para a casa com a gente. Percorrer livrarias e sebos é um programa imperdível para porto-alegrenses ou portenhos. Diz aí se aquela tarde na Livraria Ateneo, considerada a segunda mais bonita do mundo pelo jornal britânico The Guardian, não valeu a viagem até Buenos Aires?

Não se pode ter Ateneo todo dia, é verdade. Mas por aqui também tem coisa boa. Uma das alternativas pequenas, mas cheias de surpresas, é a Palavraria (Vasco da Gama, 165), no Bom Fim, que mantém atualizado um interessante acervo de escritores latino-americanos, em especial argentinos. Também tem cafés e comes, para tornar ainda mais completas as horas na companhia dos livros. Cursos, debates e lançamentos agitam a cena literária da cidade.

Ah, você é daqueles que prefere os sebos de Buenos Aires? Sim, os de lá são realmente fascinantes, mas estes templos também existem por aqui e podem ajudar a matar a sua saudade. A maior concentração deste tipo de livraria está no Centro, em especial nas ruas Riachuelo e General Câmara, em que as minúsculas portinhas revelam universos incríveis de obras esgotadas, antigas e raras.

Quer uma dica?

1. Jorge Luis Borges

O cara era cosmopolita, culto e combatia o provincianismo. Mas ninguém nega que tinha alma de um legítimo portenho e, como tal, conduziu sua vasta produção literária. Não deixe de ler os livros de contos O Aleph (Cia das Letras, 160 páginas, R$ 38) e Ficções (Cia das Letras, 176 páginas, R$ 39), duas das mais geniais criações de Borges, publicadas originalmente na década de 1940.

Jorge Luis Borges. Foto ROBERTO PERA © 2001.

2. Maitena

Como não amar esta argentina que, com seu traço escrachado e seu humor ácido, botou o dedo na ferida de muitos dos dilemas femininos modernos? A série Mulheres Alteradas continua atualíssima e sempre merece uma olhada. Com vários volumes lançados no Brasil pela Rocco, a série encontra-se esgotada no fornecedor – mais um bom motivo para visitar um sebo atrás das coletâneas de tiras.

001b9bcc

3. Júlio Cortázar

Como bom argentino, é mestre na arte do conto. Foi neste gênero literário que ganhou notoriedade e produziu suas obras mais notáveis. Em um universo meio realista e meio fantástico, o escritor revela sua visão, entre outras coisas, sobre a sua cidade, Buenos Aires. Experimente O Jogo da Amarelinha (Civilização Brasileira, 640 páginas, R$ 72), sua obra mais conhecida, ou perca-se nas oito histórias de Todos os Fogos o Fogo (Best Bolso, 160 páginas, R$ 19).

00a58d8a

 

* Fotos: Julio Cordeiro e Mateus Bruxel

Leia mais
Comente

Hot no Donna