Primeira blogueira de moda do Brasil, Camila Coutinho vira mulher de negócios e conta como transformou hobby em carreira

Foto: Guga Benevides
Foto: Guga Benevides

Aos 18 anos, a estudante de design Camila Coutinho começou a trilhar sua carreira. Falando assim, até parecia uma jovem obstinada, mas ela nem sabia o que estava por vir.

Foi em uma madrugada ociosa de 2006 que ela decidiu criar um blog que batizou de Garotas Estúpidas, para compartilhar fotos e fofocas de celebridades com as amigas.

Por causa da página, a pernambucana, hoje com 30 anos, detém o título de primeira blogueira de moda de sucesso do país. Somando mais de 2,3 milhões de seguidores no Instagram e alcançando 1 milhão de visualizações nlo blog por mês, Camila passou de produtora de conteúdo a mulher de negócios.

No recém-lançado livro Estúpida, Eu?, a influencer usa dessa experiência para falar sobre empreendedorismo. Camila recorda o começo, quando “tudo era mato” na internet, e revela como se apropriou das ferramentas certas para alcançar o sucesso desejado, em uma era em que a disputa por likes é tão acirrada.

– Era uma coisa quase que inocente no começo. Não havia uma referência. Hoje em dia, já se sabe desbravar. E como tem muita gente, todo mundo pode dar uma dentada nessa pizza. Então, tem que correr atrás mesmo e fazer coisas diferentes.

Foto: Guga Benevides

Foto: Guga Benevides

A blogueira reconhece que teve uma ajudinha nesse start: Camila morava com os pais e tinha bastante tempo livre para criar conteúdo. Mas usou de sua espontaneidade para pedir jobs em eventos de moda e se agarrou à rede de contatos conquistada, ponto que destaca entre as dicas que dá no livro.

– Continuo cara de pau, mas em outros níveis – diverte-se Camila. – Sou muito atrevida, mas é claro, com tato. Eu não tenho vergonha de falar dos meus objetivos.

Além do blog, que mantém com a ajuda de uma equipe pequena de seis pessoas, a pernambucana transformou seu nome em marca. Empresas pagam por menções no seu Instagram e querem sua presença em eventos.

Garotas Estúpidas e Camila Coutinho trabalham separadamente. São dois canais com conteúdos distintos e que, por consequência, geram receitas diferentes. Mas a influencer garante: tem muito suor envolvido.

– As pessoas só veem o resultado final, o que sai no Instagram. O look, a festa, o evento, a viagem. A gente trabalha com o subjetivo e isso dá muito trabalho. A manutenção da imagem é eterna – observa.

Foto: Peter Wise

Foto: Peter Wise

Em um papo por telefone com a Revista Donna, antes de embarcar para a Semana de Moda de Nova York, onde frequenta desfiles e festas e regista tudo nas redes sociais, Camila falou sobre exposição nas redes sociais, padrões de beleza e conta sobre como conseguiu transformar um hobby em negócio. Um conselho? Descobrir o que te diferencia dos outros.

– Ninguém alcança o extraordinário fazendo o que todo mundo está fazendo – afirma Camila.

Como surgiu a ideia de escrever um livro? Era um plano que você tinha há algum tempo?

Na verdade, eu posso já ter pensando rapidamente nisso, mas não era um sonho. A minha editora me convidou e eles tiveram que insistir, na verdade, pra me convencer a escrever. Eu não tinha tempo, achava que não ia conseguir fazer do jeito que eu queria, porque eu jamais faria com ghostwriter. Eu não ia conseguir nunca que alguém escrevesse isso por mim. Querendo ou não, é um projeto que conta a minha história, é pessoal. Mas aí ela [a editora] me convenceu que, sim, que fazia sentido, e eu embarquei. Mas isso foi há dois anos! Demorou até ficar pronto.

Como está sendo a repercussão do livro? Você esteve na Bienal do Livro em São Paulo neste ano e tem participado de eventos do gênero.

Está maravilhosa! O livro saiu melhor que a encomenda. Como o processo demorou um pouco mais do que a gente imaginava, eu fui amadurecendo e mudando os caminhos do livro até ficar como ele está agora. A ideia era que ele falasse sobre mim, mas não queria uma coisa egotrip, sabe? Queria que falasse sobre a minha história, mas percebi que essa história, que são 12 anos de carreira, estava costurada com outros assuntos, como mudanças de mercado, por exemplo. Então tem isso também. É um livro que fala sobre ter coragem, se divertir no trabalho, ter paixão na vida profissional, e isso se encaixa para muita gente, não só pra quem trabalha só com moda ou para o meu público. E o feedback das pessoas está sendo muito legal, desde meninas de 14 anos até homens de 50, todos tiraram alguma coisa dali.

No livro você lembra vários momentos de 2006, quando lançou o Garotas Estúpidas, e a gente lendo consegue comparar com o que acontece agora. São 12 anos que separam esses períodos e muita coisa realmente mudou. Como você olha pra trás e enxerga a mudança da Camila nesses anos?

Eu fico muito, muito, muito orgulhosa, às vezes me parece que é uma coisa que não aconteceu, porque ao mesmo tempo em que é muito real, eu sou muito pé no chão. Quando meu nome saiu no #bof500 (a lista que reúne os 500 nomes mais importantes da moda), foi surreal, mas que eu fico muito feliz. Eu sei que sempre tem trabalho a sair. Por isso é engraçado que a Camila de 18 tem muito a ver com a Camila de hoje, porque eu sempre estou procurando coisa pra fazer, querendo me arriscar, me jogar, e virando iniciante em vários momentos. E isso é muito legal!

Você era estudante universitária quando começou o blog. Como foi acompanhar todas as transformações digitais e mudar a forma de produzir conteúdo na internet?

Eu não projetava ter o blog como um trabalho. Era mesmo para falar com as minhas amigas. E era uma coisa quase que inocente no começo. As pessoas, em geral, estavam testando tudo, não havia uma referência. Hoje em dia o mercado já sabe desbravar, sabe os caminhos que dão certo, os objetivos são mais claros. Isso é bom, mas também é ruim, porque tira um pouco a naturalidade e acaba quase que todo mundo fazendo a mesma coisa. A graça está justamente em se arriscar. Como tem muita gente, a porteira está aberta, o mercado sem barreiras, e todo mundo pode dar uma dentada nessa pizza, tem que correr atrás e fazer coisas diferentes.

Foto: AFP

Foto: AFP

Pois é, como você lida com a concorrência? Você foi pioneira lá atrás, a primeira blogueira de moda de sucesso mesmo no Brasil, como consegue se manter em alta?

Eu amo a concorrência, amo. É ela que faz tudo melhorar. As marcas, as pessoas. A concorrência faz a gente ir pra frente mesmo. Sendo saudável, é claro. Por isso é importante ver o que você tem de diferente para oferecer. No que você tem que é único. No meu caso, eu gosto muito dessa parte de marketing e criação de conteúdo mesmo, é que eu gosto de fazer, é no que eu aposto. Por mais que não vai dar 1 milhão de likes em um vídeo no Youtube, mas é o meu forte, entende? E eu estou aqui para fazer o que eu gosto. Hoje, mais do que nunca, tem aquela coisa do tudo pela audiência e tal, mas tem que se respeitar.

Você costuma dizer que conseguiu transformar o seu hobby em trabalho. Isso é realmente possível? Existe aquela frase do filósofo que diz: ‘Escolha um trabalho que você ama e você nunca terá que trabalhar um dia sequer na vida’. Você concorda com isso?

Eu concordo, sim. Acho que hoje em dia o mundo está cada vez mais propenso para o empreendedorismo, para novas ideias. E o significado de sucesso mudou. Não é mais só dinheiro, é realização. As empresas também estão enxergando que não é só pegar o cara e deixar ele lá batendo ponto todo o dia, tipo, é importante ele poder se envolver, se dedicar a outros projetos. Então quem quiser transformar seu hobby em negócio eu digo que é preciso muita responsabilidade, porque às vezes você não pode fazer como eu fiz. Morava com meus pais, tinha 18 anos, vivia de mesada e me joguei. Mas às vezes se tem outras responsabilidades antes. Mas dá pra ir testando, se esforçando um pouco mais, e aos poucos fazer essa transição. Hoje também tem muitas ferramentas pra criar conteúdo na internet, não precisa ter uma grande estrutura montada pra começar. No início, não tem que estar perfeito, não tem que estar impecável.

E como é ser seu próprio patrão? Muita gente tem isso no imaginário. Como é a Camila chefa?

A minha equipe é bem enxuta, cada um trabalha da sua casa. Eu demorei a pegar manha de ser mais chefe, de resolver problemas, e de ser mais firme, porque eu sou mais pulso amigo (risos). Mas precisa. Eu sou bem exigente, eu acompanho todas as partes do processo todo. Às vezes mais de longe, mas estou sempre a par do que está acontecendo. E eu tento jogar o pessoal pra frente mesmo, sabe? Deixo muito claro meus objetivos para o meu time e vamos lá. Mas assim é engraçado ser seu chefe, porque na verdade você começa a trabalhar muito mais. Está sempre online, está tudo na sua mão. Eu estou apreendendo a ir um pouquinho menos. Tipo assim, ‘não, agora vou desligar o celular’. Às vezes é o momento, claro, tem que dar um gás em alguma coisa, mas também tem que saber o tempo de parar um pouquinho.

Você fala que o universo da moda é 99% ralação e 1% glamour. É isso mesmo?

Talvez seja 70% e 30% (risos). O que acontece é que as pessoas veem só o resultado final, o que sai no Instagram. O look, a festa, o evento, a viagem. A gente trabalha com o subjetivo, então até chegar a esse nível de que vão querer que você vá a um lugar, que você poste, entende? É uma manutenção eterna. Isso dá muito trabalho. A manutenção da imagem é eterna.

Foto: Bob Wolfenson

Foto: Bob Wolfenson

Falando em manutenção da imagem, você recentemente até foi capa de revista fitness. Como você encara essa questão de padrão de beleza?

É muito difícil pra gente. Porque por anos as mulheres tentam chegar a um ideal que na verdade é inatingível, né? Não é possível. A gente está acostumada a isso, diferente do homem. É muito injusto. Mas é muito bom que a internet tenha aberto as portas da representatividade. De a gente ver e achar legal outros tipos de pessoas, de corpos, de cabelos, de sotaques, de tudo. Então, eu treino, como direitinho, estou gostando de me cuidar. Não só na parte fitness, mas de saúde. De parar pra fazer uma meditação, uma yoga, uma massagem. Estou adorando, acho que é muito importante. E eu corpo mudou mesmo. Não faço nada exagerado, só estou me cuidando mais.

Você lida com as redes sociais de uma forma bem profissional, né, Camila? Seu perfil é uma marca, você não posta, por exemplo, fotos da sua vida pessoal. É tranquilo pra você separar isso?

Na verdade, eu sei que o que dá audiência e sei que as pessoas gostam de ver a vida pessoal. Mas como eu falei, eu me respeito muito e vou até onde fico confortável. Tem dias que estou mais aparecida, às vezes menos. A minha audiência é madura, é muito educada. Eu não tenho haters quase. Acho que nem tenho. E as críticas também são muito boas. Respeito muito.

O seu negócio virou dois veículos: o blog Garotas Estúpidas e a marca Camila Coutinho. Como foi separar os dois canais?

Foi muito intuitivo, na verdade. Naturalmente estava acontecendo de as blogueiras descolarem dos seus próprios blogs. Mas como o Garotas Estúpidas nunca foi só sobre mim, a gente manteve os dois produtos. Fazia bem mais sentido isso. Eu gravo os vídeos por Youtube, edito e escrevo para o blog, mas não seria possível fazer todo o conteúdo. Tem coisas que só você pode fazer, mas tem coisas que oura pessoa pode te ajudar. Delegar é muito importante, se não, você não cresce.

Voltando ao livro, você fala bastante do seu início profissional. Você diz que era bem cara de pau e se oferecia pra ser estagiária, pra trabalhar de graça nos eventos de moda. Alguém já te pediu estágio também?

Pedem muito (risos). Cada vez mais.

E como você reage?

Olha, eu acabei de contratar agora um leitor para ser nosso estagiário de conteúdo.

E você ainda continua sendo assim, uma cara de pau?

Continuo, pior que continuo, viu? Em outros níveis. Mas eu sou muito atrevida, mas é claro, com tato. Eu não tenho vergonha de falar dos meus objetivos.  E rola, viu? Eu costumo contar uma experiência que foi quando eu fui capa da Cosmopolitan. Eu falei pra diretora de redação da época que adoraria ser e ela me disse: ‘Vamos nessa!’. E rolou! Tem hora que tem que ser mesmo, sabe?

Por fim, o que é sucesso pra você?

Olha, sucesso é um termo relativo. Como eu te disse antes, não é mais sobre ter o primeiro milhão. É sobre você estar feliz fazendo o que te satisfaça, dar algo para a comunidade no sentido de fazer uma coisa útil, sabe? Criar suas próprias coisas. Sucesso é fazer o que você ama. Como atingir? É se dedicar de verdade. Ninguém alcança o extraordinário fazendo o que todo mundo está fazendo. Você vê que pessoas de sucesso estão sempre se superando. Parece meio clichê, mas assim, é sempre uma hora a mais que ela fica, sabe? É ir com calma, acreditar nas suas coisas e não passar por cima de ninguém.

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