Pumpkinstein: “abóbora Frankenstein” é a febre do Halloween norte-americano

Jennifer Medina, The New York Times Service

Como Victor Frankenstein, Tony Dighera estava decidido a dar vida a uma nova criatura. E embora fosse um agricultor novato, percebeu que poderia lucrar com abóboras de formatos estranhos. Criou então a “pumpkinstein” – a abóbora Frankenstein.

Cultivada em molde plástico, as abóboras lembram o monstro de Frankenstein, e Dighera colheu aproximadamente 5,5 mil este ano. Com um leve sorriso, nariz grande, testa um pouco franzida e orelhas em destaque, é fácil confundi-las com esculturas em cera.

— Ninguém acredita que é real. Quando vê pela primeira vez, todo mundo quer pôr a mão para ter certeza. Bom, a ideia era mesmo criar algo que chamasse a atenção —, disse Dighera, segurando uma de suas criações em sua fazenda orgânica de 416 hectares ao norte de Los Angeles, enquanto funcionários colhiam coentro e endro numa manhã recente.

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Seu formato diferente e pouco natural está fazendo grande sucesso. Dighera vendeu sua colheita para fornecedores, meses atrás, a US$75 cada. Os comerciantes esperam conseguir US$100 ou mais nas semanas que antecedem o Dia das Bruxas. Aliás, a data não é mais apenas marcada pelas travessuras ou gostosuras, mas um negócio de US$7 bilhões, de acordo com a Federação Nacional de Varejo, quando os comerciantes se desdobram para tentar superar a temporada anterior.

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No ano passado, cerca de US$2 bilhões foram gastos só em doces, de acordo com dados da indústria. E há muito tempo deixou de ser apenas um feriado cheio de balas para as crianças: grande parte do dinheiro vem das fantasias usadas pelos adultos, com custos normalmente variando entre US$30 e mais de US$100. E no ano passado, os consumidores gastaram US$310 milhões em trajes para seus animais de estimação.

Os artigos de decoração, que agora representam quase um terço dos gastos, são a categoria de crescimento mais rápido e um dos segmentos mais competitivos da indústria.

Dighera começou a produzir frutas e legumes em formatos estranhos há vários anos, depois de entrar em um site em que viu as melancias quadradas produzidas no Japão.

Em 2010, começou a experimentar com moldes de plástico e alguns tipos diversos de melancia. Esse molde é muito pontudo, esse plástico é muito forte, há muita sombra? Se os frutos fossem muito pequenos, não ficariam quadrados, e se fossem grandes demais, se partiriam. Depois de testar dezenas de variedades de sementes e a quantidade de sol que as plantações recebiam, ele produziu uma melancia doce, com polpa vermelha e em forma de cubo. Exultante, resolveu mudar para um molde em forma de coração.

Este ano, vendeu as melancias quadradas e em forma de coração por US$40 cada, principalmente nos mercados locais mais sofisticados. Ao mesmo tempo, descobriu como usar um molde para imprimir logotipos: a Whole Foods recebe melões com sua marca, as letras perfeitamente marcadas na casca.

Dighera testou 27 variedades de abóbora – e gastou aproximadamente US$400 mil – antes de encontrar a que melhor assumiria a forma de monstro.

— Logo percebi que não ia ser uma coisa rápida, mas também vi que, se conseguisse o que pretendia, teria algo especial —, contou.

E que poderia dar muito dinheiro.

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Dighera,de 53 anos, trabalhou como operador de máquinas para o Departamento de Água e Energia de Los Angeles por mais de três décadas, mas sempre sonhou com a terra, não com o asfalto, como seus avós na fazenda em San Diego. Em 2003, comprou um pequeno lote no Condado de Ventura, em uma área conhecida por seus abacates. Durante mais de dez anos, perdeu dinheiro com a agricultura orgânica cultivando couve, alface, morangos e tomates no terreno fértil, vendendo principalmente para mercados orgânicos das redondezas.

Nos últimos quatro anos, no entanto, se dedicou a moldar seus produtos – e aprendeu que poderia fazê-lo apenas com os dois primeiros frutos de um pé, pois os que vinham depois eram grandes demais. Trabalhou com uma empresa de plásticos locais para desenvolver o molde.

— Quando se tenta algo durante quatro anos, as pessoas realmente começam a pensar que você está pirando —, disse.

Este ano, ele estima ter produzido 5.500 abóboras, mas, no ano que vem, planeja o plantio exclusivo, com o objetivo de colher entre 30 e 40 mil pumpkinsteins. Dighera afirmou que o cultivo é mais fácil que o da melancia porque ninguém está preocupado com o gosto da abóbora de Halloween.

Há uma certa obsessão por comida no Sul da Califórnia e dificilmente o preço de uma unidade de um produto chegaria na casa dos dois dígitos – e mesmo para Andrea Moss, que pagaria mais de US$30 por cogumelos selvagens, o preço dos produtos de Dighera parecem altos demais.

— Ela certamente chamou minha atenção, mas mesmo uma aparência incrível não vai me fazer gastar tudo isso agora —, disse Andrea, de 43 anos, enquanto fazia compras em Erewhon, um mercado orgânico em Calabasas, subúrbio rico de Los Angeles, onde as abóboras estavam sendo vendidas a US$100 (e só por encomenda).

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David Johnson, comprador da Specialty Produce em San Diego, disse não acreditar que seus clientes – entre eles alguns dos restaurantes mais caros da região – comprariam os produtos da fazenda de Dighera, chamada Cinagro (“Organic” escrito de trás para frente). Mesmo assim, disse entender o apelo.

— Todo mundo está tentando fazer alguma coisa para ser notado nessa indústria, experimentando várias coisas. Algumas pessoas podem até comprar, mas quando os produtos se tornarem mais comuns, o preço vai cair —, ele disse.

Dighera pegou pessoas invadindo sua fazenda no meio da noite quatro vezes – provavelmente para roubar as abóboras ou para tentar descobrir como são cultivadas. Afirmou ter recusado ofertas de compra de grandes fazendas, mas está considerando licenciar os moldes para outros produtores no ano que vem.

Sua tática de venda para os varejistas é simples: mesmo que o preço seja muito alto, os clientes vão entrar só para ver os frutos e sua forma estranha.

— As pessoas não vão entrar em um mercado, comprar o produto por impulso e comer, mas quando é uma ocasião especial – principalmente envolvendo crianças – todos estão dispostos a gastar muito mais dinheiro —, disse Dighera.

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* Fotos: Monica Almeida, TNYTS

 

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