“Retrocesso disfarçado”, diz criadora do projeto Eu Não Mereço Ser Estuprada sobre vagão feminino no metrô

Não é raro ouvir casos de mulheres que foram assediadas enquanto viajavam no transporte público. Vai desde a mão boba – que de inocente não tem nada -, passa pela encoxada e segue até casos mais graves, como o universitário que tentou estuprar uma mulher dentro de um trem em São Paulo, em março deste ano. Segundo relatos da polícia, Adailton Aquino dos Santos entrou no vagão mais lotado e “colou” na vítima, que foi ameaçada com uma faca. Durante o ataque, a ação foi vista por passageiros que estavam próximos – e o suspeito acabou preso. Mas e quem não consegue se defender ou pedir ajuda a tempo?

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Foi para prevenir outros abusos dentro dos coletivos que a Assembleia Legislativa de São Paulo (Alesp) aprovou uma lei que obriga as empresas a criarem o chamado “vagão rosa“, destinado ao uso exclusivo das mulheres. O projeto de lei 175/300, de autoria do deputado Jorge Caruso (PMDB), tem até a próxima semana para ser avaliado pelo governador paulista Geraldo Alckmin, que decide se sanciona ou veta. Mas a solução não tem agradado as principais envolvidas.

– O vagão exclusivo é um retrocesso disfarçado de progresso. Em vez de educar os homens para não abusar e proteger as mulheres com segurança e disque-denúncia, o poder público obriga as mulheres a ficarem enjauladas – classifica a jornalista Nana Queiroz, criadora do movimento Eu Não Mereço Ser Estuprada.

Com apoio de cantoras como Valesca Popozuda e Daniela Mercury, a campanha nasceu depois que o Instituto de Política Econômica e Aplicada (Ipea) revelou que 65% dos brasileiros acham que mulheres que usam roupas curtas merecem ser atacadas. Os dados da pesquisa foram corrigidos depois: na verdade, o total seria de 26% – percentual menor, mas nem por isso menos alarmante. Foi em meio às manifestações de repúdio nas redes sociais que a Nana convocou o protesto através da hashtag #EuNãoMereçoSerEstuprada. Desde março, foram mais de 5 mil participações somente no Instagram.

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Também no Facebook, a página Vagão rosa NÃO é a solução reúne artigos que rejeitam a medida e a classificam como segregacionista e excludente. Para tentar frear o projeto em São Paulo, está programado um protesto para a próxima sexta-feira, 18 de julho, na Praça da Sé. Até o momento, já são mais de 2,4 mil pessoas confirmadas.

– Nosso direito de ir e vir não deveria ser restrito quando homens e mulheres são cidadãos iguais perante a lei. Sabemos que a superlotação continuará, pois o problema está na qualidade do transporte público; sabemos, também, que os assédios não serão evitados, pois experiências com o “vagão rosa” em outros estados mostram como é difícil a fiscalização dos mesmos; sabemos, também, por essas experiências, que o “vagão rosa” não contempla, na prática, as mulheres transexuais e as mulheres de aparência menos feminina; sabemos, principalmente, que somos a maioria da população no transporte público e que, portanto, não faz sentido que os vagões sejam destinados a nós, ao invés de, por exemplo, serem destinados aos homens, cujos atos criminosos ameaçam a integridade física e psicológica de crianças, mulheres jovens e idosas cotidianamente. Reforçamos que o “vagão rosa” é uma medida de segregação vergonhosa para um país que, há poucos meses, se chocou com os dados do Ipea divulgados pela pesquisa “Tolerância social à violência contra as mulheres”. No imaginário social, as mulheres ainda são culpadas pelas agressões que sofrem, o que leva as vítimas ao constrangimento e medo de denunciar – defendem os organizadores na página do evento.

Há sete anos, as cariocas contam com o vagão exclusivo no metrô, prática que também foi adotada no Distrito Federal. A medida também já está presente em países como Japão, Egito, Índia, Irã, Indonésia, Filipinas, México, Malásia e Dubai. E você, acha que o vagão rosa pode ajudar a diminuir os casos de abusos sexuais em transportes públicos ou acredita que seja uma ação paliativa? Conte para a gente sua opinião nos comentários por aqui!

 

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