Sonha em tirar um ano sabático para viajar? Inspire-se na história de quem fez esta aventura e confira dicas

Tahila Carvalho saiu de Porto Alegre para uma experiência em 37 países em 365 dias

Fotos: arquivo pessoal
Fotos: arquivo pessoal

Deixar tudo para trás e percorrer 37 países durante um ano: parece impossível? Para Tahila Carvalho, 34 anos, esta decisão foi tomada em um período de… três horas. E não pense que Tatá, como é conhecida, estava de bobeira. Pelo contrário. Quando resolveu largar tudo e se jogar no mundo, a organizadora de eventos tinha tantas responsabilidades (e amarras) quanto eu e você: uma empresa para tocar, uma funcionária, um apartamento, um carro e até uma cachorrinha.

De 13 de abril de 2014 até 12 de abril de 2015, exatamente um ano, esta carioca residente em Porto Alegre desde 1999 deu um peitaço inspirada na decisão de um colega que havia saído de uma multinacional para tirar um ano sabático. Tahila tinha uma empresa e não queria demitir sua funcionária para não deixá-la sem emprego. A ideia de viajar ficou em banho-maria. Até que, em uma sexta-feira de janeiro, ao meio-dia, a colaboradora pediu para sair. Às 15h, Tatá já havia esquematizado tudo para fazer as malas e partir sozinha para a volta ao mundo.

– Os três meses seguintes foram intensos, cheio de providências práticas a tomar. A correria foi fundamental para eu não perder a coragem, pois, se a gente pensar muito, acaba desistindo. O medo e a insegurança são sentimentos que só atrapalham – avalia.

Bolivia 6

As tais providências, a saber, eram questões como encerrar a empresa, alugar o apartamento (para ter uma verba mensal), vender o carro (pois patrimônio parado seria desperdício) e deixar a mascote, Neguinha, aos cuidados de alguém. Tudo esquematizado, era hora de fazer o roteiro detalhado, tirar os vistos para os países que os exigem e arrumar uma mochila compacta com 17 quilos (veja ao lado).

Confiou em suas experiências prévias (havia morado no Canadá, no Chile e em Londres) e não usou como desculpa para desistir o seu nível “eu-me-viro” de fluência no inglês e no espanhol.

O ponto de partida foi Santiago de Compostela: foram 30 dias caminhando 800 quilômetros, no total. Lá, uma lição de vida: Tatá teve que aprender, na marra, a curtir o momento presente.

– Em 2013, eu era súper workaholic, trabalhava sem parar. Na Espanha, precisei me conscientizar de que não estava mais naquele ritmo enlouquecido, e isso foi estranho. Foi a primeira transformação.

No meio da viagem, a Índia proporcionou grandes momentos de reflexão – quase como aquela parte do “rezar” no best-seller Comer, Rezar, Amar, de Liz Gilbert.

– Encontrei minha espiritualidade e aprendi a ser uma pessoa mais tranquila e objetiva.

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Espanha 6

Para marcar a proximidade do fim da volta ao mundo, a jovem escolheu passar seu aniversário de 33 anos, em 3 de março, em Machu Picchu. Ao retornar a Porto Alegre, reabriu sua empresa de organização de eventos e começou a trabalhar de novo. Porém, a sensação de que nada havia mudado na cidade (como as obras inacabadas da Copa do Mundo) e ao seu redor a deixou desconfortável.

– Eu estava diferente. Não tem como a gente voltar da mesma forma de uma viagem dessas. Lá fora não tinha rotina, todos os dias aprendia algo novo. No trabalho, já não me sentia mais motivada a fazer tudo como antes.

Foi quando surgiu a vontade de fazer um mestrado e voltar a morar fora. Formada em Direito e cursando Relações Públicas na Unisinos, decidiu cursar mestrado em Cultura e Comunicação em Lisboa, para onde acaba de partir e ficará por dois anos. Na bagagem, levou os seis diários preenchidos durante a jornada. Pretende lançar um livro quando conseguir lidar com a emoção de reler seus escritos.

– Aprendi tanto sobre outras culturas e outros povos. Comi coisas estranhas que nem sei o nome, passei um Réveillon com tribos indígenas no Panamá, dormi em camas com um pé na areia. Essa experiência me fez deixar de ser individualista, sair do meu umbigo e a olhar mais para o outro.

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O QUE LEVAR NA MOCHILA

Sua “companheira” de viagem precisa ser leve: a mochila é seu guarda-roupa. Tahila levou uma unidade de cada peça: um chinelo, um tênis, uma bermuda, uma legging e assim por diante. Novos itens foram adquiridos em diferentes lugares, outros foram descartados. “Chega uma hora que você não aguenta mais ficar tanto tempo com as mesmas saias e blusas”, conta.
Será preciso desapegar também de rituais de beleza. O protetor solar, obrigatório, compunha um kit com apenas um xampu, um hidratante, um batom e um rímel. “Parece pouco, mas é possível”, brinca.

O MELHOR MOMENTO

“Na Índia, eu me conectei comigo mesma, consegui me centralizar de novo, mentalmente e espiritualmente. Mas a Tailândia foi o lugar mais mágico. Presenciei a festa da lua cheia (full moon party), tradicional no país. Vi a lua nascer no meio do oceano e aquele momento me deixou com uma saudade, o coração apertado e uma gratidão imensa. Só de lembrar daquilo fico arrepiada. Toda aquela beleza ali na minha frente, eu sentada sozinha na beira da praia, comecei a chorar de emoção. Por estar num paraíso do outro lado do mundo, longe de todos, sem ninguém conhecido por perto, e, mesmo assim, estar com o coração tranquilo. Fiquei mais disposta a seguir em frente nos últimos meses de viagem, já com saudosismo dos perrengues do início.”

O MAIOR PERRENGUE

“Vivi situações desagradáveis no Egito, por ser um país muito machista e conservador. Foi quando tive vontade de largar tudo. Eu pensava: ‘Não preciso passar por este sofrimento todo’. Lá, nunca podia ter nenhum momento sozinha na rua, só se estivesse ao lado de um homem. Certo dia, com um calor de 40 graus, eu estava acompanhada de dois novos amigos, toda tapada, de lenço na cabeça e casaquinho para esconder os braços. Os rapazes foram comprar sorvete e fiquei esperando na esquina, na sombra. Não se passaram cinco minutos e um homem chegou e começou a me xingar em árabe. Fiquei pedindo mil desculpas em inglês e pensando: ‘Será que meu véu caiu, minha calça está rasgada?’. Os rapazes voltaram, eu contei o ocorrido, e eles disseram que era só porque eu estava sozinha.”

 

O ROTEIRO DE TAHILA
Foram exatos 365 dias em 37 países. Tahila viajou nesta sequência: França, Espanha, Portugal, Alemanha, Suíça, Itália, Vaticano, Croácia, Bósnia, Sérvia, Romênia, Montenegro, Bulgária, Egito, Líbano, Índia, Hong Kong, Macau (estes três últimos são estados independentes), Vietnã, Laos, Camboja, Tailândia, Malásia, Cingapura, Inglaterra, Panamá, Costa Rica, Nicarágua, México, Estados Unidos, Colômbia, Equador, Peru, Bolívia, Chile, Argentina e Uruguai.

DICAS PARA GANHAR O MUNDO
* Faça um míni-roteiro prévio. Pontue lugares que você acha indispensáveis visitar. Priorize estes pontos-chave na hora de planejar a logística.
* Descubra quais lugares requerem visto. Tahila garantiu entrada em países como Austrália, que acabou não entrando no tour por conta da alta do dólar, Estados Unidos e Índia.
* Organize suas contas e tenha alguém como backup para administrar sua conta bancária a partir do Brasil. Os pais de Tahila depositavam o dinheiro da filha distribuído na conta em que ela usava os cartões de débito e de crédito.
* Dinheiro parado não combina com os dias de hoje. Vender o carro e alugar o imóvel foram as opções da jovem, mas você pode começar uma poupança para conseguir, a médio prazo, viajar. Lembre-se de que você irá precisar de verba extra para resolver imprevistos durante a viagem.
* Calcule uma média de 40 a 50 euros por dia para se manter no Exterior. Este montante dá conta da alimentação, dos passeios e do pernoite. Tatá encontrou albergues de 10 a 15 euros, em média.
* Prefira viajar no verão: a mochila, nesta época do ano, será mais leve e é mais confortável do que levar muitos casacos e bota de neve, por exemplo.
* Faça contato com todos os seus amigos que moram fora. Alguns, dependendo do perfil, vão ter o maior prazer em recebê-la em suas casas e matar a saudade.
* Use aplicativos como o CouchSurfing para opções de hospedagem.

DURANTE A TRIP

* Use cartão de débito e crédito para alternar os pagamentos, mas sempre prefira dinheiro vivo para evitar as taxas. Deixe os cartões em lugares separados. Tahila foi furtada na Itália e perdeu ambos os cartões ao mesmo tempo, o que gerou a burocracia de pedir novos ao banco.
* Cuide da alimentação: você não vai frequentar restaurantes turísticos, e sim locais, onde as pessoas que moram lá comem de verdade. É um jeito de economizar e também conhecer a cultura da cidade.
* Experimente o aplicativo CouchSurfing e similares para conseguir hospedagem em casas nos países visitados. Avalie sempre as recomendações de quem já usou estes serviços online.
* Para ir de um país a outro, vale a pena economizar na grana da passagem pegando os trechos mais baratos. Se um avião que faz duas ou mais escalas for mais barato do que um que vai direto, não hesite em escolher esta opção, mesmo que demore mais. Qual é a pressa, afinal?
* Invista em um seguro de saúde. “É caro, mas é fundamental, pois em qualquer canto do mundo você terá ajuda”, indica. Na Espanha, por conta de inflamação nos joelhos e no pés, Thaila usou o benefício, assim como na Índia, devido a uma dor na coluna. “Por causa de todas as camas duras em que dormi durante a viagem”, brinca.
* Comunique-se com seus familiares no Brasil. “Minha mãe sempre achou uma grande maluquice tudo isso, por eu ser mulher e estar sozinha em culturas diferentes, então mandar notícias pela internet é uma maneira de tranquilizar as pessoas que amam a gente”.
* Registre a aventura para nunca mais esquecer nenhum detalhe do que você passou. Tatá criou uma página no Facebook para compartilhar algumas experiências, mas o principal ficou anotado em seis diários. Um dia, ela pretende publicar o conteúdo em livro.

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