De jogo da velha a aplicativos de smartphones, os cães estão indo além das bolinhas

Pi, a cachorrinha inteligente | J. Emilio Flores, NYTNS
Pi, a cachorrinha inteligente | J. Emilio Flores, NYTNS

Por David Hochman, NYT

Não que eu queira me gabar, mas talvez tenhamos um pequeno gênio em nossas mãos. Nossa bebê de seis meses levanta antes do sol nascer para brincar com jogos de inteligência. Ela sabe se virar no iPad, é arrasadora nos quebra-cabeças e está aprendendo a ler comigo. Recentemente, aprendeu a mexer em um brinquedo avançado de xadrez. Estou falando, claro, da nossa cachorrinha.

Eu tinha nove anos quando tive um cachorro pela última vez, mas poucas horas depois de adotar a Pi, eu senti que ser pai de um animal de estimação hoje – ninguém mais usa a palavra “dono”, aparentemente – significa cultivar inteligência, costumes e habilidades de comunicação assim como o pai de, digamos, um pequeno humano.

Nossos amigos caninos não comem mais em meras tigelas. Agora, existem produtos interativos de alimentação, como o Dog Twister (importado da Suécia, por cerca de US$ 50), com compartimentos rotatórios escondidos que fazem com que os cães deduzam o caminho que tem que seguir até a comida. Outro, chamado Slo-Bowl, uma homenagem ao movimento de comida artesanal, com formas de borracha “inspiradas na natureza” e sulcos que fazem com que os cachorros “saiam em busca de cada comida”, diz o site da empresa (US$ 20).

Um jogo da velha para cachorros da Petco estimula a “resolução de problemas” e melhora a “coordenação olho-pata-boca”, por US$ 17. Aplicativos de smartphones como o App for Dog, o iSqueek e o Answers: YesNo permitem que os filhotes rabisquem, brinquem com bolinhas virtuais e até mesmo reconheçam algumas palavras simples. Outros ajudam a tirar selfies. Além disso, há o movimento crescente de contabilização das atividades dos cães: uma empresa de São Francisco chamada Whistle Labs fabrica um monitor de atividades fácil de usar – o Fido Fitbit, que custa US$ 129 dólares – e registra cada vez que um cão senta, fica e rola.

Nem preciso dizer que comprei tudo isso. Minha esposa e eu já estávamos microgerenciando os deveres escolares, a ingestão de alimentos, as atividades extracurriculares e os coleguinhas do nosso filho; por que não ajudar a Pi a ir o mais longe possível dentro dos limites de sua raça? Isso nos levou a procurar descobrir de qual raça vinha ela originalmente: hoje em dia, dizer que o cachorro é vira-lata não basta. Por US$ 70, os cientistas por trás do Wisdom Panel 2.0 “revelam percepções baseadas em DNA que podem nos ajudar a entender aparência única do cão, assim como seus comportamentos e necessidades de bem-estar”, de acordo com o pacote. Depois de retirar duas amostras da saliva de Pi, havia um teste de laboratório para descobrirmos seu pedigree, chegando a até oito bisavós.

Um novo cachorro de estimação não é senão um mistério envolto em pelos. O que exatamente estava escondido por trás dos olhos esfumaçados de Pi? Ela seria um sedutora, uma cientista ou uma trapalhona, uma boba que ficaria perseguindo o próprio rabo? Para conseguir respostas, recorri a Brian Hare, um antropólogo que estuda o comportamento evolutivo no Centro de Cognição Canina na Universidade de Duke. No ano passado, ele criou o Dognition, um serviço de testes baseado na internet que cobra a partir de US$ 29 para realizar uma série de rigorosos experimentos de vídeo domésticos para avaliar habilidades cognitivas de um cão. Os resultados são divulgados em um banco de dados com dezenas de milhares de cães, indicando um dos nove tipos de personalidade: “socialite”, “rebelde”, “cachorro do renascimento” e assim por diante.

— As pessoas querem entrar na cabeça dos seus cães, e depois de 40 mil anos de vida ao lado deles, a ciência está finalmente nos ajudando a fazer isso – diz Hare.

Para Julie Hecht, a urina canina é o que há de mais interessante. Ela é pesquisadora do Laboratório Horowitz de Cognição Canina no Barnard College (Yale também acaba de abrir um centro de pesquisa sobre cães) e publica o divertido blog Dog Spies no site da Scientific American. O trabalho de pós-graduação de Hitch estudou o “jeito culpado” que os cães demonstram depois de redecorarem a sala de estar com papel higiênico. (Descobriu-se que eles fazem a mesma cara quando alguém joga lixo no chão.)

Quando eu percebi que tinha uma tendência a exagerar nos cuidados como pai de Pi, Hecht disse que esse impulso fazia sentido. Uma década de pesquisas realizadas em conjunto com o Projeto Cão de Família da Universidade Eotvos Lorand, de Budapeste, na Hungria, onde Hecht realizou sua dissertação de mestrado, sugere que “os cães apresentam respostas muito semelhantes às observadas em bebês e até crianças pequenas com idade por volta de dois anos”, disse ela.

Como escreveu Gregory Berns, professor de neuroeconomia da Universidade Emory e autor de How Dogs Love Us: A Neuroscientist and His Adopted Dog Decode the Canine Brain (Como os Cães nos Amam: Um Neurocientista e seu Cão Adotado Decodificam o Cérebro Canino, em tradução livre), em um artigo do New York Times muito comentado, “os cães também são pessoas”.

Passamos semanas à procura de tais evidências na Pi. Noite após noite, meu filho de 10 anos, Sebastian, e eu transformamos a nossa sala de estar em um laboratório científico improvisado para cachorrinhos enquanto colocávamos Pi para fazer dezenas de exercícios de avaliação no site da Dognition, que mediam empatia, comunicação, astúcia, memória e razão. O jogo de bocejos aferiu se um bocejo humano faz o cão bocejar, um sinal de empatia entre espécies que apenas alguns caninos exibem. Pi não estava entre eles. Ela só tentou comer o post-it que marcava o lugar onde deveria ficar.

Ela se saiu melhor no jogo da memória que pediu que ela encontrasse uma guloseima escondida sob um copo depois de um minuto olhando de longe. Ela, no entanto, não parou de roer o copo. Seu gesto genial se deu em um jogo de raciocínio físico, no qual ela inferiu repetidamente que um pedaço de papel em um determinado ângulo significava que um alimento estava escondido por trás dele. Pi agarrou o queijo e largou o papel.

Sentindo que ela poderia se sair ainda melhor com uma atenção individualizada, fiz uma consulta com Anna Jane Grossman, que dirige a Escola de Cães de Manhattan. Entre tantas atividades, ela ensina cães a usarem iPads. Sim, você leu certo.

Em uma demonstração apresentada a estudantes de ensino médio na Escola de Saint Ann, no Brooklyn, em janeiro, o Yorkiepoo de Grossman, chamado Amos, encostou o focinho no Doodle Draw, respondeu perguntas usando o aplicativo YesNo e tirou algumas selfies (terríveis) com um aplicativo chamado Big Button Camera.

Fui correndo para casa para experimentar os truques do iPad com a Pi. A pequena imagem de manteiga de amendoim na tela bastou para que ela começasse a fazer imagens digitais e lamber o Flappy Bird. O verdadeiro empecilho era ensiná-la a reconhecer “senta”, “fica” e outros comandos usando um aplicativo chamado Big Words. Eu mostrava a ela uma palavra e a pronunciava em voz alta. Se ela se sentasse quando solicitado, eu a bombardeava com pedacinhos de carne. Depois de um tempo, ela passou a se sentar mesmo sem que eu dissesse a palavra.

É verdade que cães de toda parte estão fazendo coisas que teriam sido inimagináveis tempos atrás. No ano passado, pesquisadores do Centro de Trabalho Canino da Universidade da Pensilvânia treinaram uma equipe de pastores e retrievers para farejar amostras de laboratório contendo câncer de ovário. Também estão sendo usados sabujos para prever ataques epilépticos e infecções potencialmente fatais. Um labrador preto do Centro de Treinamento de Cães Farejadores de Câncer de Chiba, no Japão, acertou 98% das vezes ao identificar os primeiros sinais de câncer de cólon.

Como Hare, da Duke, disse:

— Prefiro um cachorro cheirando minha boca a uma colonoscopia.

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