Uma visita à pousada Quinta do Bucanero, um dos destinos preferidos na Praia do Rosa, em SC

Deus mora no detalhe. E mora muito bem se o detalhe estiver cravado nas pedras do morro que oferece uma das melhores vistas da mítica Praia do Rosa, em Imbituba, ao Sul de Santa Catarina. A empresária Jaqueline Biazus, 53 anos completados no dia 21 de junho (sou geminiana, avisa) está instalada por ali há algumas décadas. Acostumada com os melhores e os piores hotéis, decidiu juntamente com o marido, o piloto de corridas Cezar Bocão Pegoraro, criar a pousada Quinta do Bucanero e transferir toda a experiência como hóspede para o outro lado do balcão. Era 1995 quando o empreendimento foi inaugurado.

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Esportista nato, Bocão já havia passado pela região bem antes de comprar o terreno onde hoje está o empreendimento que já arrancou suspiros do The New York Times e da National Geographic, entre tantos outros jornalistas que se deslumbraram com o horizonte. O piloto manteve uma fábrica de pranchas justamente naquela época em que Imbituba era desbravada pelos gaúchos, dos anos 60 para os 70. Quando o casal se conheceu, ele 12 anos mais velho e recém-saído do primeiro casamento, fez questão de apresentá-la ao paraíso.

– A primeira vez que estivemos juntos aqui foi um desastre. Viemos de carona com um jornalista, ele carregava uma arma no carro, acabamos parados pela polícia, o carro ficou retido, choveu o tempo todo, fez frio em dezembro, ou seja, deu tudo errado – relembra Jaque, sorrindo, entre um Malboro Light e um cafezinho, sentada no alto da varanda com a lagoa lá embaixo, ligada ao mar como uma poesia.

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Detalhe da parede de pedra e das peças de decoração do lounge da lareira

Nascida em Caxias do Sul, Jaque é um dos quatro filhos do caminhoneiro que fez a vida em Porto Alegre como dono de empresa de transporte público. A mãe sempre teve comércio, daquelas mulheres que fugiram à regra e não ficaram em casa entre as crianças e o fogão. Quando chegou na cidade grande, aos sete anos, a menina já sabia ler e escrever, autodidata, devorando os gibis do Pato Donald. No fim do colegial, prestou vestibular para Jornalismo, fez um semestre, mudou para Arquitetura e em seguida para Direito, que não chegou a concluir.

– Além de estudar, eu gerenciava uma boutique no Moinhos de Vento. Era o sonho de todas as meninas – busca na memória um desejo que ficou marcado para uma geração de garotas.

Foi nessa época, “num dos botecos da vida”, que cruzou o olhar com o playboy Bocão, nome de destaque na história do automobilismo nacional. Se apaixonaram, ela de viagem marcada para um intercâmbio nos Estados Unidos. Contrariando a família, voltou antes do previsto, uniu-se ao amor de sua vida e seguiu em frente. A veia empresarial da italianada a transformou em dona de lojas de roupas. Quando o raiozinho amarelo da Zoomp, fixado no bolso de uma calça jeans, era o que os brasileiros queriam ostentar, Jaque comandava uma franquia da marca na capital gaúcha. Além de outras duas multimarcas. No Rosa, uma casa reunia o casal e os amigos durante a temporada de calor. Já era início dos anos 1990 e depois de um verão inesquecível, a volta para a correria do dia a dia ficou mais difícil.

– Vivia gripada, dentro de um shopping center, não sabia quando era dia ou noite. O Bocão estava quase se aposentando das pistas e eu sofri um assalto. Tudo isso somado a temporada de três meses que passamos aqui serviu de influência.

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A rusticidade e o aconchego de luxo estão presentes já no lounge da recepção

O marido avisou que ao deixar os carros de lado, pegaria as malas e se mudaria para Santa Catarina. Enquanto passeavam pelas areias brancas da praia, encontraram um italiano. Papo vai, papo vem, ele contou que tinha um terreno para vender, “aquele da pedra?”, perguntou encantada. Mas queria US$ 70 mil em cash dentro de 48 horas, antes de partir para a Itália.

– O Bocão tinha um veleiro no Iate Clube e um senhor vivia fazendo oferta para comprá-lo. Mas nunca demos muita atenção. Quando voltamos deste verão, com a proposta do terreno na cabeça, o Bocão foi a um banco que nunca ia fazer qualquer movimentação. Lá, encontrou o senhor prestes a pagar US$ 70 mil por um barco que estava na Bahia. Ele me ligou, decidimos comprar o terreno e vender o Bucanero, como era chamada a embarcação. É uma história muito louca, não é nem coincidência – dispara Jaque.

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A suíte Casa Terra tem 100 metros quadrados, sala de estar e varanda com hidromassagem

Vem daí o nome da pousada localizada na charmosa Estrada Geral do Rosa, entre tantas placas de hospedagens, bistrôs, lojas de açaí e de roupas para surfistas que surgiram ao longo das últimas décadas. No início eram 10 quartos – recentemente, foram inauguradas duas outras suítes.

– Como o Bocão viajava muito, tinha patrocinador, acabávamos ficando hospedados nos melhores hotéis. Ou nos piores, dependendo da cidade e do país em que nos encontrávamos. Foi uma aula intensiva de hotelaria. Quando decidimos montar um hotel, pensamos exatamente no que mais gostávamos: um bom banho, uma ótima cama, um quarto escuro e serviço – enumera, revelando ainda que nunca havia se hospedado em uma pousada antes de ter a sua.

Foram três anos de construção até a inauguração de um projeto iniciado com 600 metros quadrados e finalizado com 1,2 mil metros quadrados. Na baixa temporada, de julho a novembro, a diária do quarto mais simples custa R$ 570; do premium, R$ 890. Localizada em um morro e com uma coleção de escadas, os proprietários decidiram que a pousada não receberia crianças. Naturalmente, o espaço se tornou um recanto para os casais apaixonados. Tanto os que estão no início do namoro quanto aqueles em lua de mel. Ao longo do tempo, Jaque viu o público mudar, se renovar, ampliar:

– Hoje, a gente tem, além dos habituais, o cara que economiza um ano para passar a lua de mel aqui, é uma responsabilidade enorme. Nós temos mais de 80 mil seguidores no Facebook, todo dia eu leio, umas três ou quatro vezes, “é meu sonho de consumo”. Elas podem ficar encantadas ou ter um nível de qualidade inatingível. Eu estou lidando com o sonho das pessoas.

Para transformar o hotel em um desejo, é necessário um pouco mais do que a localização. A cama, os quartos, o barquinho na lagoa para o transporte até a praia, as geleias e os pães fresquinhos, os passeios de bicicleta e as aulas de surfe fazem parte das atrações. Mas Jaque, que em vários momentos se denomina “um pouco bruxa”, sabe que pequenos detalhes encantam. Pequenos sachês com óleo de rosas são confeccionados por ela, assim como os corações vermelhos de feltro que, espalhados pela cama, recebem os recém-casados. Bocão, que no dia da visita da reportagem surgiu de roupão, ficou responsável pela parte burocrática, pelo dinheiro e pelo controle dos gastos.

– Eu mesma bordo. É a bruxaria, faço na frente da tevê, sempre tenho um tempinho. E tudo o que tu faz, o que faz com a tua energia, passa para o hóspede, ele sente. Os sachês pendurados nos cabides são um exemplo. Quando a pessoa desfaz a mala na casa dela, sente esse cheiro. O hotel pode ter torneira de ouro, mas o que fica na memória são os detalhes. Quanto custa? Muito pouco. Quanto vale? Muito – sentencia.

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Tamanha dedicação tem se resumido em reconhecimento internacional, certificados de excelência e comentários elogiosos no TripAdvisor, o site de viagens e troca de informações que mexeu com a hotelaria no mundo inteiro. A Quinta do Bucanero faz parte, desde 1997, da seleta associação Roteiros de Charme, grupo que reúne 62 hotéis, pousadas e refúgios ecológicos preocupados com o conforto, a qualidade e a sustentabilidade em seus negócios.

Quando o verão vai embora e o inverno se aproxima, é hora das férias, do descanso. Desta vez, eles vão conhecer a Costa Rica. Mas diariamente, antes da leitura – Jaque é fascinada pelo escritor inglês Ken Follet -, ela gosta de ver as novelas. Na casa, instalada anexa à pousada, sessões de filmes e séries também compõem a rotina de ambos, além dos treinos de bicicleta. Sua nova paixão, inclusive, responde pelo nome de Netflix. Viciada em História, não perde um capítulo de Downton Abbey e Game of Thrones.

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– Li uma nota, acho que na Veja, de que a Dilma tinha se atrasado para uma reunião por causa de Game of Thrones. Fui atrás, comprei os livros, fiquei viciada – fala, sentada na janela de casa, com aquela vista de cinema, de paixão.

Lá embaixo, o sol se despede deixando um rastro de sombra e luz que faz qualquer rede social bombar em curtidas.

– Quando a pousada está cheia, me empolgo, abro champanhe para todo mundo, peço para fazer fotos. Vou ter 200 anos e vou pedir pra fazer foto. Nunca me canso de olhar. Com a lua, que nasce aqui na nossa frente, as pessoas choram – encerra.

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*Fotos: Cezar Pegoraro e Tonico Alvares, Divulgação; Melina Gallo, Arquivo pessoal

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