The Brando: jornalista relata experiência na ilha de Marlon Brando na Polinésia Francesa

Foto: Priscila de Martini, especial
Foto: Priscila de Martini, especial

Por Priscila De Martini, especial

Em uma tarde quente do fim de abril, pedalava entre os coqueiros de Tetiaroa pensando em como o lugar seria 50 anos atrás. Mais rústico, com certeza; menos bonito, certamente que não.

O trajeto foi curto do meu bangalô até o tranquilo e transparente mar azul turquesa. Com um suspiro, entendi o que fez Marlon Brando se apaixonar pela pequena ilha da Polinésia Francesa. Se eu tivesse dinheiro, também compraria esse pedaço de terra no meio do Oceano Pacífico, como fez o ator americano em 1967. Se eu dividiria com outros mortais, talvez não.

Marlon Brando, por sua vez, sempre fez questão de compartilhar esse paraíso que conheceu no início da década de 1960, quando filmou ali O Grande Motim, lançado em 1962 – e por isso eu, uma brasileira comum, tinha o privilégio de estar lá. Desde 2014, Tetiaroa conta com um resort de luxo, que compreensivamente chama-se The Brando. Não foi, contudo, a primeira vez que o ator abriu as portas do paraíso.

Foto: Priscila de Martini, especial

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O Grande Motim não é considerado um dos melhores trabalhos do ator americano – que já tinha um Oscar e era ídolo e bad boy de uma geração –, mas, para sua vida pessoal, foi um divisor de águas. Brando se apaixonou por Tetiaroa, pelo povo e pela cultura polinésia e por seu par em frente às câmeras, a taitiana Tarita Teriipia, com quem se casou e teve quatro filhos.

Tetiaroa foi por muitos anos seu refúgio, onde recebia família e amigos. Por um tempo, chegou a abrir uma espécie de hotel, com bangalôs modestos e serviços escassos, onde qualquer um poderia se hospedar – mas também celebridades, como Quincy Jones e Robert De Niro. Em Moorea, ilha perto dali, conheci a francesa Juliette, que frequentou Tetiaroa naquela época. Segundo ela, era comum encontrar o ator na propriedade, mas que ele era um “cara estranho e de lua”. Nada muito diferente de sua fama.
Apaixonado pela natureza da ilha, Brando sempre quis dividi-la com o mundo, mas também fazia questão de preservá-la. Em 1999, o ator começou a imaginar uma forma de conjugar suas duas vontades em um resort ecologicamente sustentável. Para isso, uniu forças com o empresário Richard Bailey, residente de longa data do Taiti e criador de alguns dos melhores resorts do arquipélago pela empresa Pacific Beachcomber. O ator, porém, não chegou a ver seu sonho virar realidade – o Brando foi inaugurado em 1º de julho de 2014, 10º aniversário de sua morte.

O privilégio de conhecer esse pedaço de paraíso não vem sem custo: é preciso ter bastante dinheiro para ser um dos afortunados a se hospedar lá. Na alta temporada, a diária para casal, em um bangalô de um quarto, com regime all inclusive, sai por 3 mil euros, o equivalente a cerca de R$ 11,2 mil (sem contar as taxas e o transporte aéreo até a ilha). Toda essa exclusividade e privacidade atraem gente famosa. Em março, apenas um mês antes da minha estadia, Barack e Michelle Obama passaram duas semanas no maior bangalô do resort – acompanhados de uma trupe de artistas que incluía o ator Tom Hanks e o cantor Bruce Springsteen. Além disso, funcionários contam que, todos os anos, Leonardo DiCaprio passa seu aniversário por lá, em novembro.

A seguir, relato como foram os meus dois maravilhosos dias nesse lugar – já no topo da lista das melhores experiências da minha vida.

Foto: Priscila de Martini, especial

Foto: Priscila de Martini, especial

O paraíso

Minha experiência começou no aeroporto do Taiti, principal e maior das 118 ilhas da Polinésia Francesa, território da França no Pacífico que contempla cinco arquipélagos. É de lá que saem os voos da Air Tetiaroa, que oferece o transporte até o The Brando em pequenos jatos privativos. Na ida, peguei um Viking com lugar para cerca de 15 passageiros. Na volta, a aeronave, uma BN-2T Islander, tinha apenas oito assentos, incluindo os dois dos pilotos.

De cima, já dá para ter uma ideia da beleza do lugar, mas o que mais chama atenção é o formato da ilha. Tetiaroa é um atol, uma espécie de anel de ilhotas com água ao centro, a que chamam de lagoa. Na parte interior do atol, a água é mansa e, no geral, rasa e cristalina. Os corais que pontuam o fundo do mar de tons de azul deixam o cenário ainda mais parecido com uma pintura. Depois do pouso, fomos recebidos por taitianos a caráter cantando músicas típicas ao violão. Logo fui encaminhada para a minha “villa” – uma das 35 do resort –, composta por um bangalô de 96 metros quadrados, um deque com cadeiras e uma mesa para refeições, uma piscina privativa de 10 metros quadrados e acesso direto à praia – tudo em meio à vegetação, sem contato com as outras villas.

O bangalô é maravilhoso, com uma sala de estar, um media room, um closet com dois roupeiros, um banheiro com duas pias, uma banheira externa e um dormitório com vista para o mar. Quando cheguei, me esperava um presente de boas-vindas: uma garrafa de 375ml de champanhe francês no gelo, duas taças e deliciosos macarons de mel produzidos na propriedade.

Se você quiser, pode passar dias sem encontrar outros hóspedes. Dá para fazer todas as refeições na mesa disposta no deck, é só pedir por telefone. Na praia logo em frente à villa, é difícil encontrar alguém, então é como se tivesse o paraíso só para você. É muito legal curtir um tempo no deck só observando a variedade de espécies animais que compartilham a areia.

O que eu mais gostei foi acompanhar o lento arrastar de um pequeno caranguejo com corpo vermelho e uma linda concha acinzentada. Sempre que eu chegava mais perto, ele imediatamente se recolhia. Poderia ficar horas só fazendo companhia ao caranguejo.

A área de mar em frente aos bangalôs não é especialmente rica para snorkelling, mas vale pegar máscara e observar a grande quantidade de corais e pepinos do mar. Dizem que, às vezes, é possível encontrar até pequenos tubarões – esses não atacam os humanos (só é bom não ficar na água à noite, período em que eles se alimentam).

Foto: The Brando, divulgação

Foto: The Brando, divulgação

Mimos

Além da champanha gelada e dos macarons, o hóspede tem, no quarto, outros mimos, como dois pares de chinelos e bolsas com a marca The Brando. O resort também disponibiliza um frasco de protetor solar e loção pós-sol da Algotherm, desenvolvida para não agredir os corais.

Pelo resort

Na entrada de todas as villas, há bicicletas fofas à disposição – com certeza, a melhor maneira de se deslocar pela área do resort. É muito gostoso pedalar em meio à vegetação e explorar todos os cantos da ilhota – desde a área efetivamente usada pelos hóspedes quanto as zonas usadas pelos funcionários, como alojamentos, hortas e até a região onde ficava o antigo hotel de Brando. À noite, o ar fresco acaricia o rosto de quem está sobre duas rodas.

Se você não quiser ou puder ir de bike, pode pegar carona nos carrinhos estilo golfe usados pelos funcionários, ou mesmo pedir que um te busque.

Nas áreas comuns, há um bar que serve lanches rápidos, dois restaurantes, uma piscina e um spa. O resort oferece os equipamentos para quem quer aventuras no mar: pranchas de stand-up paddle, caiaques, máscara, snorkel, pés de pato e sapatilhas aquáticas (item essencial para não machucar os pés nas pedras e nos corais do mar polinésio). Há ainda aulas rápidas de mergulho e expedições de pescaria.

Uma das atividades mais legais é o passeio de barco para conhecer Tetiaroa, apelidado de Ultimate Tour. O guia taitiano tem um amplo conhecimento da natureza local e mostra detalhes da lagoa e das ilhotas que formam o atol. Uma das paradas é na escandalosamente cristalina Praia dos Bilionários – o guia conta que ela ganhou esse nome por ser a favorita de Leonardo DiCaprio. Aliás, o guia e o condutor do barco são as melhores fontes para conversar sobre os bastidores do resort, especialmente sobre os hóspedes célebres.

Só navegar pela lagoa já dá uma sensação incrível. Um dos momentos mais memoráveis de todas as minhas viagens vivi nesse barco, quando se desvelou frente aos meus olhos uma área da lagoa com tons diferentes de azul. Era como se Deus tivesse passado o pincel na água, fazendo um semicírculo. Nunca vou me esquecer daquela paisagem – me fez pensar como eu era abençoada e privilegiada por estar testemunhando aquilo.

A gastronomia

Além do Bob’s Bar, que serve bebidas e pratos em uma área com poltronas e mesas em estilo praiano, o The Brando tem dois restaurantes com supervisão do chef Guy Martin, do restaurante parisiense Le Grand Véfour, com duas estrelas no Guia Michelin. Os pratos são inspirados, especialmente, nas cozinhas polinésia e francesa. Ou seja, muito peixe – a especialidade taitiana é o poisson cru (atum cru marinado em suco de limão com vegetais em cubo e leite de coco). Muitos dos alimentos usados são produzidos organicamente na ilha.
No regime all inclusive, todas as refeições estão inclusas no preço da diária – exceto iguarias mais caras, como o caviar, pago à parte.

Foto: The Brando, divulgação

Foto: The Brando, divulgação

O Spa

O Varua Te Ora Polynesian Spa parece um camaleão: feita com galhos e outros materiais naturais e suspensa como uma casa na árvore, a estrutura se confunde com a mata ao redor. Em seu interior, a vista é para uma espécie de mangue, que faz um contraste interessante com as outras paisagens praianas de Tetiaroa. Realmente, é um oásis de tranquilidade em uma ilha já extremamente pacata. As diárias das villas de um dormitório dão direito, em regime all inclusive, a um tratamento de 50 minutos por dia.

Quanto custa

  • O preço da diária nas villas de um dormitório começa em 2,6 mil euros (mais taxas), para uma pessoa, na baixa temporada, em regime all inclusive. Para o casal, o valor é de 3 mil euros (mais taxas). Nos dois casos, crianças até 12 anos não pagam, e de 12 a 18 anos, pagam 320 euros (mais taxas). A estadia mínima é de dois dias.
  • Há também a opção de diária apenas com hospedagem e café da manhã, com preços que partem de 2,2 mil euros (mais taxas) para duas pessoas e até duas crianças de, no máximo, 18 anos (nas villas com um dormitório, em baixa temporada). Esta é a escolha de 5% dos hóspedes.
  • O voo até o atol pela Air Tetiaroa custa 450 euros (ida e volta) para adultos (mais uma criança até 12 anos, se for o caso). Se o hóspede reservar uma villa por cinco dias, os 450 euros pagam pelas passagens do casal (mais uma criança até 12 anos, se for o caso). A partir de sete dias de estadia, o voo sai de graça.
  • Saiba mais em thebrando.com

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