Esta mãe ensinou ao filho como respeitar o corpo de uma mulher de uma forma completamente diferente

(Pucca Studio/Divulgação)
(Pucca Studio/Divulgação)

A notícia de uma adolescente violentada por mais de 30 homens causou revolta e protestos por todo o país. O debate sobre o fim da cultura do estupro ganhou proporções maiores com o acontecimento e tem pautado, ainda mais, as redes sociais. As discussões fundadas na luta das mulheres por seus direitos suscitou questões do tipo: “como educar meu filho homem em uma sociedade considerada machista?”. Enquanto as respostas ainda não são claras, esta mãe resolveu compartilhar no blog Pac Mãe o modo como ensinou seu filho, hoje com 7 anos, o conceito de consentimento de uma forma, no mínimo, didática. Veja só:

UMA LIÇÃO SOBRE CONSENTIMENTO

Sabem uma coisa que eu faço para ensinar o conceito de consentimento para meu menino?

Có…

Publicado por Pac Mãe em Sexta, 27 de maio de 2016

A autora da publicação é uma jornalista de São Paulo, Fernanda Café, mãe do pequeno Benjamin. Seu texto foi compartilhado milhares de vezes em diversas páginas do Facebook. O motivo? Uma forma simples de dizer a um menino que ele deve respeitar o corpo e o espaço de uma mulher, mas não só.

— Se você notar, eu não digo necessariamente “mulher”, sempre uso pessoa, porque a ideia é que ele respeite o corpo das pessoas em todas as ocasiões, desde brincadeiras mais físicas. Eu sou apenas uma das influências na vida dele e por muito tempo fui a principal, então tenho que fazer valer — disse Fernanda à revista Donna.

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Benjamin adora cócegas desde pequeno, mas sempre foi respeitado quando pedia para que parassem. A ideia de transformar a brincadeira em uma lição veio de vídeo que Fernanda assistiu. Nas imagens, uma moça aparecia batendo com um travesseiro em um garotinho mais novo enquanto dizia: “você quer que eu pare? Quando uma menina pedir para você parar, você tem que parar”. A jornalista nunca gostou de brincadeiras de “bater”, então decidiu que iria incorporar a lição às cócegas. E se você estiver se perguntando por que esta noção de consentimento é importante, aqui está a resposta dela:

— É minha responsabilidade ensinar a ele o respeito à autonomia. A sociedade garante vários privilégios a ele e ensina que o corpo da mulher pode ser visto como um objeto, essa lição é uma forma de ser uma voz dissidente da sociedade.

(Pucca Studio/Divulgação)

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A criatividade de Fernanda trouxe resultados positivos. É provável que ele aprenda que para beijar e abraçar a mãe não precisa de autorização (coisa que chegou a pedir), mas Benjamin já consegue entender o conceito de autonomia e autoridade sobre o próprio corpo. Tanto é que quando a mãe pede para que ele coloque o casaco, logo vem a resposta: “mas eu não estou com frio, o corpo é meu, você tem que respeitar que eu não estou com frio”.

Agora, Nanda torce para que ele não use o argumento para escapar do banho, mas até lá ela vai pensando em uma resposta.

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Pedimos para que Fernanda compartilhasse sua experiência como é para uma mulher educar um homem:

“Eu gostaria de dizer que é mais fácil do que educar uma mulher, mas não é. Nem mais fácil, nem mais difícil: diferente. Os exemplos de masculinidade que temos na mídia são todos voltados para a competitividade, resolução de problemas através de violência, o que resulta numa masculinidade frágil e superficial. É um desafio mostrar que não existe isso de “homem com agá maiúsculo” ou “ter colhões”, que a força não está necessariamente ligada a masculinidade. É uma luta contra a mídia e outras estruturas para desconstruir esses papéis de gênero antes que eles sejam sequer construídos.

Meu filho já questiona estereótipos em filmes, por exemplo, porque eu faço questão de comentar as coisas que acho erradas em coisas que assistimos juntos. Ele não gosta de usar rosa, brincar de boneca, não consegue romper a barreira de gênero de forma desafiadora, mas tem a total noção de que ele pode e tem meu apoio se quiser fazê-lo. Mas algumas coisas nem passam pela cabeça dele ser “coisa de menina”: ele tem obrigações na arrumação da casa e vê o pai exercendo as mesmas funções que eu (moramos em casas separadas, o pai lava louça, faz comida, lava roupa, assim como eu).

Eu sou sortuda e tenho o privilégio de poder acompanhar meu filho de perto: os produtos culturais que ele consome, tanto por escolha, quanto os direcionados por mim. Procuro apresentar sempre coisas com protagonistas femininas que desafiem estereótipos de gênero (recomendo os filmes do Studio Ghibli) e personagens masculinos que também o façam, e aponto a diferença. Sempre um comentário tipo “que legal, ela conseguiu fugir sem ajuda de ninguém” ou “nossa, ele resolveu tudo conversando, não precisou bater nem usar violência”.

Essa forma de aproximação do universo e do imaginário da criança abre muitas portas para outras conversas sem parecer autoritarismo ou “panfletário”. O blog tem uma linha de camisetas infantis com ilustrações da artista gaúcha Kaol Porfirio “Fight Like a Girl”, e quando fomos fazer as fotos e ele precisou escolher qual personagem ele queria, ele perguntou “mas mãe, porque só tem menina?”. Eu abri sua gaveta e mostrei todas as camisetas de super-herói que haviam lá e expliquei que era muito mais fácil achar camisetas de super-heróis meninos do que meninas, e que meninas também gostam de super-heroínas. Ele entendeu tanto que hoje usa galochas da Mulher Maravilha  para ir à escola. Eu não preciso senta-lo no sofá e falar “então, hoje vou conversar com você sobre feminismo”. Ele convive com minhas amigas, ouve minhas conversas e tem total liberdade para perguntar e tirar dúvidas, por isso é tão importante que coletivos e pessoas sem filhos abram espaço para mulheres e suas crianças.”

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