Como lidar com os palpites na maternidade (sem precisar estender uma faixa na janela)

Não houve mãe que não tenha sorrido de canto, na semana passada, ao ler a seguinte notícia: “Mãe pendura faixa com recado a vizinhos que dão palpite na criação dos seus filhos”. Além do recado, a técnica de enfermagem fez uma proposta irônica: “Oferta especial: a cada cinco pacotes de fraldas, ganhe o direito de dar um palpite”. O episódio ocorreu em São Gonçalo, na Região Metropolitana do Rio de Janeiro, mas gerou identificação imediata em todo o Brasil.

Para Donna, não foi surpresa. Em novembro de 2015, quando a revista dedicou reportagem de capa às particularidades da maternidade na Geração Y, o excesso de gente se metendo na vida do bebê alheio foi apontado como um dos principais problemas pelas mães nascidas a partir da década de 1980.

– É uma reclamação quase unânime. Dá uma dó, pois quem mais sofre com isso, em geral, são as mães de primeira viagem. Às vezes, já propensas à depressão pós-parto. Diante de um desafio completamente novo, como é um bebê, é claro que elas se sentem frustradas e angustiadas com tanta gente em torno delas dizendo o que fazer. Parece que nada do que ela está fazendo é certo – relata a pediatra Lucia Diehl, da Sociedade de Pediatria do Rio Grande do Sul.

Questionamos as integrantes do Grupo de Mães Donna, no Facebook,  sobre o caso no Rio de Janeiro, e o que veio foi uma avalanche de depoimentos semelhantes (leia abaixo alguns deles).

– O que mais existe na maternidade como um todo é o julgamento, que vai desde a forma como tu engorda na gravidez, passando pelo tipo de parto escolhido, seguindo se a criança vai ter festa de um aninho, se a criança vai comer açúcar, se vai pra escolinha. Acho que só termina quando a mãe morre mesmo. Ou quando manda meio mundo longe! – relata Andreza Leon, do blog Mamãe Leoa.

Há tipos e tipos de palpites, e não são apenas as mães que reclamam deles. O humorista do grupo Porta dos Fundos, Rafael Infante, recém lançou um canal no YouTube em que ele e a mulher fazem esquetes e comentam a aventura de criar a pequena Lara, de um ano e meio. Adivinha o tema do primeiríssimo vídeo:

“Eu chamo essas pessoas de especialistas no filho dos outros. E tem um pessoal mais especialista ainda que são as senhorinhas. As senhorinhas verdadeiras de plantão. Elas opinam, elas te dão olhadas, elas te fazem tsc tsc tsc. Fazem crítica de respiração, de piscadinha de canto de olho. Eu não sei elas sabem, mas o pai, responsável pelo esperma que encontrou o óvulo e gerou aquela criança, ele é tão pai quanto a mãe é mãe”, clama o ator no vídeo.

 

Segundo Lucia, palpites de estranhos, embora irritantes, podem ser solenemente ignorados. Até com certa rispidez, conforme o nível de abuso. Mais difícil é conter as intervenções de parentes, sobretudo de outras gerações, cheios de verdades do seu tempo que não necessariamente se mantém hoje em dia. A pediatra dá alguns conselhos às mães e pais que se veem saturados de palpiteiros:

– O primeiro, e mais importante, é seguir a intuição. Por natureza, a mãe tende a saber o que é melhor para o seu bebê. Por que ele chora, o que faz ele melhorar e tudo mais. Se um problema parecer mais grave, o pediatra está aí para isso. Se em uma terceira hipótese a mãe quiser conselhos de outras, ela pode procurar um clube de mães e pedir opiniões, mas sempre deve partir dela, para que ela filtre a sugestão que pode servir.

Por fim, há casos em que os pais podem e devem estabelecer limites:

– Há casos em que há tantos parentes e conhecidos se metendo, que é saudável o casal estabelecer um deles como o “cão de guarda” da criança. Alguém para dizer – sempre de forma respeitosa e tudo mais, claro – que determinada decisão é dos pais e de ninguém mais. Que o limite dos palpites é ali. É importante inclusive para a relação entre o casal, para que um se sinta respaldado pelo outro.

Ou seja, embora gere menos curtidas nas redes sociais, há alternativas menos drásticas do que esticar uma faixa na janela dizendo “chega”. Mas que dá vontade, isso dá.

 

Você, mamãe, não está sozinha. Confira algumas situações relatadas no Clube de Mães Donna. As identidades das mães foram preservadas:

 

“Meu filho não tinha nem um ano de idade, ainda estava se adaptando a comer frutas e verduras, e em um almoço com pessoas conhecidas eles estava meio choroso (aquele momento que a criança está com soninho) e uma senhora mais velha foi bem ríspida comigo, falando que ele só podia estar chorando, pois eu não tinha dado sobremesa para ele. Meu filho nem sabia que doce existia…”

“A fila do caixa do supermercado estava gigantesca e o meu filho estava “tocando o terror”, não parava quieto. Dei o celular para ele assistir Galinha Pintadinha, quando uma senhora (que nunca vi na vida) comentou que hoje em dia não sabemos mais criar sem essas coisas, se referindo ao celular. Vir me ajudar a segurar a criança para ela não fugir pelo supermercado ninguém vem, mas criticar a forma que achei de fazer ele se acalmar e eu conseguir ficar em uma fila (gigante), para isso tem gente.”

“Lembro de uma vez no mercado. A questão não era choro, mas uma mulher queria decidir o que e que marca eu iria levar na parte de frutas e legumes para o bem da minha filha.”

“Também já se meteram nas minhas compras. Levei uma criticada máster por estar comprando papinha pronta.”

“Para essa mãe chegar a colocar um cartaz deste tipo, é porque já estava de saco cheio de tanta gente dando pitaco. O que mais me irrita até hoje são palpites referente amamentação. Qualquer choro acham que é fome, que tem que dar outro leite ou chá. Bebe não fala, só se manifesta chorando. Nem tudo é fome. Isso me irrita muito.”

“Pausei a carreira para me dedicar ao filhote depois de sete meses tentando conciliar trabalho e maternidade. Ouvi muitos comentários de parentes e vizinhos sobre essa decisão, como se fossem eles os responsáveis por pagar minhas contas a partir dali. Também ouvi opiniões lamentando o fato dele ainda não ir para a escolinha com quase três anos (esse comentário de uma vizinha me irritou profundamente), como se eu estivesse privando-o dos estímulos necessários para a idade. (…) A minha dica é tentar não levar tão a sério todos os comentários, tentando entender da onde partem e os motivos pelos quais a pessoa pensa assim. Aqui em casa, mando eu e o meu marido. Então se quiser comentar da porta pra fora, podes falar que eu vou escutar e refletir, mas, se não me interessar, já vou deixar sair pelo outro ouvido.”

“Achei que tinha controlado os palpites com a justificativa de que só ouvia o pediatra, mas percebi que com o tempo (o trio tá adolescente ) a influência da família vem ainda mais forte. Não é fácil impor limites sobre a educação de filhos com mãe, pai e etc. Eles se aproveitam de brechas e envolvem os filhos.”

“Esses tempos, uma mãe comentava sobre isso, do quanto reclamamos de palpites e muitas vezes eles são práticas antigas recomendadas e que hoje são completamente ultrapassados. Ela fotografou a carteirinha de vacinação dela ou da avó é ali se recomendavam dar água no intervalo das mamadas a recém nascidos, coisa que a pediatria atual proíbe.”

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