Depois de vencer um câncer de mama, advogada de 28 anos celebra cinco meses de gestação

Foto: Suzana Suchy
Foto: Suzana Suchy

Muito prazer, me chamo Caroline. Carol para os próximos e Depois do Câncer para mim mesma. A Carol de antes era uma menina precoce que começou a trabalhar com 16 anos e não parou mais. Aos 21, emendou faculdade, especializações, casa, casamento. Com 26, vivia num ritmo (des)ritmado e automático de uma vida que parecia fazer sentido – até ser surpreendida.

Meu marido e eu entramos o ano de 2016 com a certeza de que seria especial. Em fevereiro fiz exames de rotina: estávamos decididos a tentar engravidar depois de abril, quando seria nosso casamento. Recebi nota 10! Ecografias transvaginal e mamária “zeradas”. Casamos, realizamos uma lua de mel dos sonhos de 30 dias pelos Emirados Árabes e Tailândia. Agosto chegou, e, no Dia dos Pais, eu queria muito dizer ao meu marido que ele seria pai, mas isso não aconteceu.

Hoje ele faz 40! 12 anos é o que nos separa e nos une. São 12 anos de diferença de idade entre nós e nesse ano também completamos 12 anos juntos. Ele que me viu perder os cabelos, cílios e seios e segurou forte na minha mão. Ele que morou no hospital comigo por quase um mês de internação. Não faltou a uma consulta ou a uma quimioterapia. Raspou o cabelo junto comigo e ficou mais triste que eu. Que aguentou minha menopausa e me abraçou nos momentos difíceis. Ele que me ensinou o verdadeiro sentido de amor e companheirismo. Me mostrou que é fácil achar que é amor quando tudo vai bem e quando os problemas estão entre decidir aonde jantar no fim de semana. E que no entanto, apesar de difícil, é na tempestade que o amor se mostra verdadeiro. Ele me ensinou a enxergar o outro por dentro e enfrentar as reais incertezas da vida juntos. A ter tolerância. Compaixão. Amor de verdade. Fé para um futuro melhor. Para hoje só desejo saúde para que a vida continue a nos presentear com tantas surpresas boas e ruins, afinal, o lado ruim tb tem o lado bom: de amadurecimento e união. E que seja eterno enquanto houver amor, cumplicidade e companheirismo. O resto é o resto. ❤ #gratidao #cancer #cancerdemama #mama #cancertemcura #quimioterapia #oncologia #quimioterapia #bday #aniversario

Uma publicação compartilhada por Depois do Câncer (@depoisdocancer) em

Eu, que nunca tive costume de me tocar e com exames recentes excelentes, tive o empurrão do meu anjo da guarda para levar minha mão no ponto exato da minha mama onde havia um nódulo palpável. Para minha sorte, no dia seguinte tinha ecografia transvaginal para controle de ovulação e aproveitei para mostrar a tal “bolinha”. A médica olhou e já me pediu para deitar, pois faria uma biópsia. Eu gelei, congelei, pirei e relutei, afinal, sexta não era um bom dia para se submeter a uma biópsia. Fiz o procedimento e passei o fim de semana inteiro com meu sexto sentido dizendo que o pior estava por vir. Segunda-feira chegou e com ela o temido resultado: câncer de mama.

Pensei que meus planos de maternidade seriam apenas “adiados”, mas, antes de agendar a cirurgia para a retirada do tumor, fui informada de que, em razão do tratamento, as chances de não poder mais ser mãe eram altas. Fui aconselhada a congelar óvulos às pressas, apesar de também existir a grande possibilidade de uma futura tentativa de fertilização não dar certo.

O sonho de ser mãe já não estava mais nas minhas mãos e, caso algum dia eu fosse agraciada com essa bênção, sequer poderia amamentar, já que havia retirado as duas mamas. Fiz mastectomia com reconstrução imediata e, por conta de uma infecção, além de morar um mês no hospital, retirei em caráter de urgência as próteses que estavam no lugar dos meus seios. Além disso, depois dos procedimentos cirúrgicos e antes de iniciar os cinco meses de quimioterapia, fui informada de que precisaria induzir a menopausa para tentar preservar minha fertilidade, mas as chances de sair dela não eram nem um pouco animadoras.

Foto: Arquivo Pessoal

Foto: Arquivo Pessoal

Terminei as quimioterapias em março de 2017, quando também tomei a última injeção do medicamento que me fazia induzir a menopausa. No entanto, a “alta oncológica” só poderia vir depois de dois anos sem sinal da doença, ou seja, em março de 2019. A recomendação médica era de manter os exames de controle e, neste meio-tempo, fazer cirurgia para reconstruir minhas mamas. A cada exame de controle, sentia um frio na barriga. Mesmo com a certeza de que a doença não me pertencia mais, o medo de, um dia, tudo mudar novamente, me acompanhava. Nesse período, resolvi me dedicar mais ao meu Instagram (@depoisdocancer). Comecei a fazer postagens sem nenhuma pretensão até que um dia acordei com inúmeras notificações de pessoas que nunca tinha visto e que me agradeciam pela forma descontraída de tratar o câncer e expor minha história. Percebi que, assim como eu, elas tinham necessidade de informações menos dramáticas, mais encorajadoras e mais reais.

A mensagem que tento levar é: extraia o melhor do pior, sempre. Não se pergunte os porquês, fique com os para quês, que são mais didáticos. Faço piada comigo mesma, incentivo outras mulheres a se tocarem, a falarem sobre seu corpo, a se amarem além de suas carecas, perucas ou lenços. A ideia sempre foi desmistificar que, depois do câncer, não poderia existir vida. Paralela à vida de “câncer influencer”, como brincam minhas amigas, eu também precisava ajudar a mim mesma. Pensei, repensei, mudei a direção, os propósitos, e tudo começou a fazer sentido, inclusive o câncer.

Antes de eu adoecer, meu marido viajava a cada 15 dias para São Gabriel, onde mantém negócios com os irmãos. Viajava segunda e voltava sexta para passar o fim de semana em casa. Tudo normal, até deixar de ser. Durante todo meu tratamento, ele não viajou uma vez sequer e morou comigo nos hospitais, em casa, nas quimioterapias ou onde mais eu precisasse estar. Foi meu enfermeiro, meu amigo, meu psicólogo, meu companheiro e por vezes até meu saco de pancadas. Tudo isso nos uniu ainda mais, e eu que sempre fui da Capital, do movimento, me vi fazendo planos para morar no Interior em busca de uma vida mais tranquila ao lado dele.

Tudo indo muito bem, não fosse a menopausa que ainda me acompanhava e continuava a frustrar meu sonho da maternidade. Em setembro de 2017, seis meses depois da última quimioterapia e da última injeção para indução da menopausa, eu menstruei. Saí correndo pela casa para mostrar ao meu marido aquele papel que era a prova de que nossas esperanças estavam sendo renovadas. Eu, enfim, estava recuperando minha fertilidade!

Como nem tudo pode ser como a gente deseja, contei para a Alessandra Morelle e o Rodrigo Cericatto, que são praticamente meus guias astrais, vulgo médicos, e fui orientada a colocar um DIU para não engravidar. Como assim “não engravidar”? Eu que tinha passado tanto tempo com esse desejo reprimido, sem saber se um dia voltaria a ser fértil, agora que tinha superado as estatísticas negativas, estava sendo advertida a não engravidar! Foi aí que eles explicaram que não era uma regra e que se acontecesse não seria o fim do mundo, e aqui friso, cada caso é um caso. Esse foi o meu. As chances de recidiva do câncer eram extremamente baixas, e essa recomendação era especialmente por uma questão de o meu corpo ter passado por um estresse muito grande em razão do tratamento. Além do mais, eu também precisava fazer a cirurgia para reconstrução das mamas. O quesito “acompanhamento de recidiva” não era tão relevante, e minha oncologista preferia se referir a mim como paciente curada, apesar de precisar seguir o protocolo de acompanhamento até 2019.

Acordar na paz do campo da campanha? Temos! 🚨Tb temos spoiler: tem 3 meninas nesta foto 😊 Uma Carol e duas Helenas ❤ Uma na barriga e outra na cabeça 💇 Lembram que dei o nome de Helena para essa minha wig diva da @hdmakehair ? Me inspirei nela que é super clássica e charmosa para o nome da nossa babygirl 🤰 ➡ Pra quem tá perguntando e perdeu a live o resumo da novela mexicana é esse: aos 26 tentando engravidar descobri um ca de mama, aos 27, saí da menopausa e recebi esse presentão pós quimio 😎 Obs.: não me copie, peça a bênção do médico que te acompanha antes! #wig #hdmakehair #cabelodesalao #longbob #cancer #cancerdemama #mama #cancertemcura #quimioterapia #oncologia #oncology #pacienteoncologica #babygirl #maternidade #maternidadeposcancer #depoisdocancer #setoca #setoquem #gratidao

Uma publicação compartilhada por Depois do Câncer (@depoisdocancer) em

Depois da orientação dos meus médicos em relação ao DIU, conversei com meu marido e optamos por não colocar, afinal, o especialista em fertilidade que havia nos acompanhado no congelamento de óvulos havia nos informado que as chances de um casal engravidar, na nossa idade, tentando no dia certo da ovulação, eram de apenas 16%. Como eu não podia utilizar comprimidos anticoncepcionais, nos propomos a utilizar outros meios para evitar uma possível, porém bem improvável, gestação. Três meses depois de sair da menopausa, em dezembro do ano passado, nos descuidamos um único dia. Eu não dei importância, afinal, era praticamente impossível engravidar. Janeiro chegou, e minha menstruação não apareceu. Fiquei arrasada pensando ter parado de menstruar para sempre. Era domingo e eu tinha ido a uma farmácia comprar pastilhas para garganta, no caixa estava escrito “teste de gravidez em promoção”. Lembrei do mês que havia passado, do dia em que não havia usado nenhum método contraceptivo. Passei a acreditar na possibilidade de mais uma vez ter vencido as piores estatísticas.

Saí da farmácia, fui sozinha para meu escritório e fiz o teste. P-O-S-I-T-I-V-O! Com medo de estar errado, voltei na farmácia e comprei outro. Refiz e de novo: P-O-S-I-T-I-V-O! Na mesma hora, enviei uma mensagem para as primeiras três pessoas que precisavam saber antes de mais ninguém: minha oncologista, meu mastologista e minha ginecologista. Esperava receber puxões de orelha, mas só recebi carinho, felicidade e alegria. Com aval da minha equipe superstar, fui para casa sem saber como contar ao meu marido. Ele estava no jardim cuidando da nossa horta. Reuni nossa cachorra e nossa gata e fiz com que elas entregassem a ele uma carta. Antes de pegar para ler, ele resmungou dizendo que se a intenção do texto fosse pedir para adotarmos mais um gatinho ele não cederia.

Teimoso, Antonio começou a ler a carta em pé. No início, estava convicto de se tratar de mais “um filho pet”, até chegar na parte em que eu falava de tudo que superamos juntos e que havia chegado o momento de renascimento. Ele precisou puxar uma cadeira para sentar, quase desmaiou. Chorou, riu, se desesperou, assim como eu. Eu que havia vencido a menopausa, superando a infertilidade e as estatísticas, agora carregava um milagre comigo: o da maternidade. Helena hoje completa cinco meses em meu ventre. “A reluzente”, como assim dizem significar seu nome, é o raio de sol da nossa vida.
O amor foi minha cura.

Leia mais:
:: Bebê à vista: 8 ideias para contar da gravidez de uma forma diferente
:: “A gravidez me deu novo poder, definitivamente voltarei a jogar”, diz Serena Williams no oitavo mês de gestação
:: Depois da prótese, da cicatriz e da gravidez! Seis mulheres relembram o verão em que descobriram o amor próprio

Leia mais
Comente

Hot no Donna