Donna das Minhas Escolhas: por que decidi não ter filhos

Foto: Bruno Alencastro
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 A administradora Leslie Martins, 40, nunca cogitou ser mãe e acredita que mais pessoas tomariam esta decisão se houvesse menos pressão.

“É muita pressão”

Com 40 anos e 17 de relacionamento tenho bastante propriedade para dizer que nunca quis e nunca vou querer ter filhos. Para quem sempre pensou algo, é difícil rastrear desde quando pensa assim, né? Mas me recordo de eu e a minha mãe passando dificuldades para tomar conta da minha irmã, 10 anos mais nova. Fazendo tarefas domésticas, trabalhando muito para comer bem, para se vestir, para estudar. De modo que essa decisão sobre ter filhos sempre foi muito ligada à quantidade de responsabilidades envolvidas.

Lembro muito de eu, com 15 anos assustada com essa ideia de engravidar. Sempre que esse assunto vinha à minha mente era “como fazer para não ter”. Só que a gente cresce, começa um relacionamento, e ninguém sabe dessa tua convicção íntima. Por um bom tempo tu te livras dando desculpas: “Ah, não é a prioridade agora”. Do meu marido, nunca escondi. Ele já quis ter filhos, e esses tempos até soltou um “Pois é. Talvez se eu tivesse tentado convencer a Leslie mais cedo…”. Bom, ele não conseguiria igual (risos). Mas sempre respeitou essa minha decisão.

Foto: Bruno Alencastro

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Quando nós nos casamos, começou a pressão da família. Mas ela pega mesmo de verdade é quando o entorno começa a ter filhos. Os irmãos, os amigos… E é difícil argumentar porque essa decisão é cercada de um preconceito muito forte e sem muito espaço para resposta. Tu precisarias argumentar que não é por egoísmo que tu não queres. Não é por não querer abdicar de ter um corpo, de comprar um bem. É por sentir que não quer aquilo para tua vida.

Não bastasse a família, ainda tem a médica. Quando tu vais ao consultório com 30 anos, passa o recibo do “não é a prioridade”. Quando retorna com 38, ela quase te segura pelos ombros e diz: “Leslie, a hora de ter filhos é agora”. Pressão do cão. Nem tua mãe, nem teu marido te pressiona dessa forma.

Outra percepção minha é de que mais pessoas agiriam dessa forma se não fossem tão pressionadas. Muitas daquelas mulheres que estavam em cima do muro, inseguras se ter filhos era a melhor opção para a vida considerando a vontade delas, a saúde financeira da família ou a felicidade do relacionamento, acabam cedendo. E cedendo para pessoas – inclusive o marido – que sofrerão bem menos do que ela as consequências dessa decisão. É injusto com as mulheres não ter maior poder de decisão sobre a própria vida.

Foto: Bruno Alencastro

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Também observo muitas pessoas tendo filhos pelos motivos errados. Para tentar consertar um relacionamento que não estava legal, por exemplo. Aí fica com o relacionamento que não estava legal e com um filho.

Por fim, há o tabu da velhice, de quem vai estar do teu lado. Ora, as pessoas ao meu redor não precisam ser meus filhos, precisam? Então, assim: adoro crianças, brinco com elas, tenho afilhada, dorme aqui em casa, faz farra. Mas aquela coisa: chorou, vai com a mamãe (risos).

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