Leitora conta como foi se tornar mãe e, no mesmo dia, ter de internar o filho na UTI neonatal

A fisioterapeuta Daniela Kaufmann, 33 anos, viveu a dor e a delícia da maternidade ao mesmo tempo. Primeiro, a alegria de dar à luz. E, logo em seguida, o impacto de ver o filho ser internado na UTI e sair do hospital sem o bebê. No relato a seguir, ela conta como foram os 10 dias mais longos de sua vida até finalmente poder levar para casa o pequeno Jan Pedro, hoje com dois anos e dois meses.

– Relembrar esses detalhes mexe muito comigo, mas poder compartilhar a minha vivência com outras leitoras dá um novo sentido ao que passei – celebrou Daniela.

Quando me tornei mãe, tive de aprender logo de cara a estar sem meu filho por perto.

O parto foi uma cesárea, uma cirurgia eletiva em que a mãe é apenas uma espectadora. Enquanto um misto de emoções, medos e sensações estranhas tomavam conta de mim, a equipe de saúde discutia o cenário político brasileiro, destilando ódio pelo partido político que administrava o país. Humanização era apenas um conceito abstrato das cartilhas do Ministério da Saúde.

Logo após o parto, o bebê precisou ser levado às pressas para a UTI. Ainda na gestação, eu havia descoberto em um ultrassom (morfológico do 2ª trimestre) que meu filho tinha hidronefrose (uma malformação que dificulta o funcionamento renal) e, provavelmente, teria que fazer uma cirurgia nos primeiros meses de vida. Mas, logo nas primeiras horas, ele apresentou hipoglicemia e vômitos e foi levado à UTI para ser monitorado e receber nutrição parenteral (via cateter na veia).

Visitá-lo na UTI era um ritual pungente. Tudo é tenso em uma UTI, desde o protocolo para entrar. Tocava-se a campainha e aguardava. Na parede da pequena sala de espera, havia um grande quadro de fotos de crianças que venceram a temporada de reclusão. Algumas eram acompanhadas de mensagens emocionantes à equipe da UTI Neonatal, agradecendo o imenso cuidado e o carinho. Colocar ali também uma foto do meu bebê sorridente passou a ser meu sonho.

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Entre tocar a campainha e alguém abrir a porta, eram minutos angustiantes. Identificava-me, e a pessoa pedia para aguardar novamente do lado de fora (precisava checar se o ambiente estava sem nenhuma intercorrência e contatar o profissional responsável por meu bebê, e, só então, eu poderia entrar). Passada a porta principal, era hora de vestir o avental verde estéril, tirar a aliança, colocar máscara, protetores nos pés e touca na cabeça, lavar cautelosamente as mãos e os braços até a altura do cotovelo, finalizando com solução detergente de clorhexidina a 4%, com 4% de álcool etílico (potente germicida).

Tudo estéril, inclusive eu. Não sentia meu filho como meu, era como se ele pertencesse ao hospital. Depois de nove meses comigo no meu ventre, parecia que agora estávamos distantes, apartados pelo rigor das rotinas e regras. As músicas que cantava para ele toda noite, durante a gravidez, foram trocadas por bipes e alarmes. Podia vê-lo através da incubadora – nem sempre o colo (melhor remédio) estava prescrito e liberado.

Chegar em casa sem o bebê é outra experiência traumatizante. Passava o dia envolvida com as visitas à UTI e a noite me debatendo na cama com insônia, pensando em como estava o meu pequeno guerreiro. O berço vazio ao lado da minha cama me lembrava a todo instante de que ele não estava comigo. Lembrava-me de mães que se queixam por ter de levantar à noite para amamentar, trocar fraldas e acalmar seus filhos – elas não sabem que pior do que ter que acordar é não conseguir dormir. Jurei a mim mesma que jamais me queixaria de acordar para cuidar de um filho.

Em uma noite, às vésperas da Páscoa, o despertador do celular disparou às 3h da madrugada. Era hora de levantar e tirar o leite do peito. Vesti meu chambre, peguei meu aparato de extração de leite e não consegui nenhuma gota. E me desesperei: pensava como ele estava, se estava dormindo, se sentia minha falta. Na casa todos dormiam ou fingiam dormir. Meu marido em nossa cama nem se mexia. Minha sogra dormia na sala, e minha mãe no quarto do bebê. Elas estavam lá para dar o suporte e nos suportar – literalmente. A tristeza delas também me apertava o coração.

Naquela noite, liguei para a UTI, a enfermeira atendeu e apenas escutei os bipes dos aparelhos, nenhuma criança parecia chorar. E eu não sabia se aquilo era bom ou não. Ela me tranquilizou, disse que meu bebê estava dormindo. Para me sentir mais perto dele, fiquei olhando para a foto que tinha tirado naquele dia. Uma foto não muito bonita, pois os fios e a sonda faziam parte da imagem. Olhei com carinho a tela do celular, comecei a conversar com meu filho, como se ele pudesse me ouvir. Falei que a mamãe ia tirar o mamazinho, que, quando ele viesse para casa, poderia tomar o quanto quisesse, em qualquer lugar a qualquer hora. A conversa foi fluindo, e o leite, descendo. Aquele leite seria desprezado, mas precisava manter o estímulo para garantir a produção.

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Como profissional da saúde, tinha realizado muitos cursos, simpósios e estudos sobre o aleitamento materno. Naquele momento, tive vontade de rasgá-los: ninguém deixa claro o quanto é difícil, o quanto dói a ordenha manual sem nenhum dispositivo auxiliar. Na UTI, por questões de prevenção de infecção hospitalar e risco de contaminação, só era permitida a retirada manual do leite, acondicionando-o em um potinho. Cada gota era uma vitória, pois queria muito que ele recebesse o meu leite, e não a fórmula industrializada.

O leite que ele recebia precisava ser medido, e por isso não o deixavam mamar livre demanda no meu peito. Mas no domingo de Páscoa recebi o melhor presente do mundo: o médico de plantão permitiu que o bebê mamasse por cinco minutos no peito. Esse profissional era muito querido, muito acolhedor, mas eu tinha a impressão de que outros só olhavam o prontuário e os monitores. Uma cegueira tecnocrática. Quando nós, os pais, queríamos saber detalhes do que estava acontecendo, qual era o diagnóstico ou prognóstico, muitas vezes éramos tratados com rispidez, uma blindagem por talvez não haver respostas convincentes.

Sozinha com o meu bebê na UTI, explicava que ele era um grande astronauta em formação e assim que tivesse preparado iria raptá-lo dali. Até imaginava a manchete do jornal: “Mãe rouba seu próprio filho do hospital”. Cochichava nos ouvidos do meu astronauta o plano de fuga. Mas não precisamos sair furtivamente nem em foguete espacial. Depois de 10 dias – que pareceram muitos mais -, pude levar meu filho para casa. A saída foi festiva, mas também de apreensão. Como seria o cuidado daquele pequeno guerreiro sem a segurança tecnológica? Sem oxímetro, sem balança, sem monitores, sem profissionais especializados?

Saímos da UTI, mas a UTI não saiu de nós. Ir para casa com o bebê depois de uma experiência como esta é um novo parto. Em casa, reproduzíamos praticamente todas as rotinas do hospital: higienização das mãos, assepsias, escala de plantão, horário de visitas dos parentes, horário do mamá, horário de banho, tudo regado a uma certa tensão. A luz estava sempre acesa, e todos em alerta para qualquer som que o bebê fizesse. Foram dias até a gente se acostumar a tê-lo em casa.

Até que, finalmente, a UTI ficou na lembrança. No Natal daquele ano, 2015, realizei meu sonho e coloquei no mural da UTI neonatal a foto dele sorrindo.

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