Mãe de quadrigêmeos conta como é a rotina na casa em que se lavam 320 pés de meias por mês

Foto: arquivo pessoal
Foto: arquivo pessoal

Patrícia Domingues, 41 anos, é mais conhecida como a “Pati dos quatro gêmeos”, a “mãe dos quadrigêmeos”. A fonoaudióloga de Porto Alegre precisou recorrer à fertilização in vitro para ser mãe e – surpresa! – a cada ecografia descobriu que não um, ou dois, mas os quatro embriões implantados estavam se desenvolvendo. Hoje, ela é mãe de quatro garotos de nove anos, Arthur, Felipe, Gabriel e Guilherme, e nos conta como é a rotina de educar e cuidar de quatro filhos da mesma idade e cheios de energia. Para ter uma ideia, ela acorda às 5h15min para poder tomar um banho “bem descansada sem ninguém chamar ‘mãe’”. Mas, em compensação, o amor é multiplicado por quatro.

Quadrigêmeos

Sempre quis ser mãe. Mas, após anos na espera de uma gestação natural, descobri que seria necessário recorrer à ajuda da fertilização in vitro. Na primeira fertilização, quatro embriões foram fertilizados. Combinamos a transferência de dois e o congelamento dos outros dois para uma futura fertilização. Mas, no dia da transferência para o útero, fomos surpreendidos com a notícia de que um deles não estava se desenvolvendo como esperado. Foi decidida a transferência dos quatro embriões, mas que estariam sendo considerados somente três. Questionamos muito a possibilidade de uma gestação múltipla, mas fomos alertados de que as chances de conseguirmos uma gestação na primeira tentativa era menor do que 5%. Topamos o desafio!

No dia 24 de dezembro de 2007, recebemos a notícia da gravidez. Um Natal pra lá de especial! Na primeira ecografia, encontramos dois embriões. Na semana seguinte, encontramos mais um: eram três. Na outra, mais um. Achávamos que era uma brincadeira do médico, mas não – eram quatro mesmo!

Nesse dia, a alegria se misturava com a preocupação. Acessei a internet, e a primeira notícia que encontrei era um vídeo de uma mãe deitada com os quatro bebês rindo ao mesmo tempo – as demais eram todas tragédia. Decidi que queria viver o que havia visto no primeiro vídeo. Segui rigorosamente as orientações da obstetra, com dieta e acompanhamento da endocrinologista e muita vontade de ser mãe. Foi o que possibilitou trabalhar até 27 semanas de gestação, sem complicações, e preparar tudo para a chegada do quarteto.

O quarto foi todo preparado por uma amiga, calculado centímetro por centímetro, para entrarem os quatros berços, um roupeiro… Mas o que não esperávamos era a reação do entregador da loja dos berços. Ele chegou na minha casa e informou que, infelizmente, não poderia entregar o berço porque haviam errado a nota. Constava quatro berços e não um! Quando expliquei que eram quatro berços mesmo porque eu estava grávida de quadrigêmeos, ele fez o sinal da cruz repetidamente, me pediu a bênção, e começou a suar… Tive que conversar muito para que ele se acalmasse e pudesse me entregar os berços que tanto esperava.

Em 8 de julho, com 32 semanas e cinco dias de gestação, foi necessário antecipar o parto por causa de uma infecção. Meus quatro filhos nasceram na Santa Casa, acompanhados por uma equipe com mais de 15 profissionais. E tudo mudou.

Tive de me organizar no cuidado dos meninos contando com a ajuda de familiares e amigos. Organizei uma planilha com o nome de cada criança para saber sem me confundir como cada um estava. Cada bebê tinha sua mamadeira e sua chupeta, identificadas por cor. Assim não nos confundíamos, além de preservar a individualidade deles e evitar risco de contaminação.

Muitas mudanças foram necessárias: precisava ter sempre alguém comigo para auxiliar no dia a dia, compramos um carro com espaço suficiente para acomodar quatro cadeirinhas e quatro carrinhos, trocamos o apartamento por uma casa para poder ter espaço para brinquedos, quatro bicicletas, quatro skates, quatro patinetes… e espaço para correr, estender muitas roupas. São 320 pés de meia lavados por mês!

Com sete meses, eles iniciaram na Escola de Educação Infantil pois eu trabalhava o dia inteiro e em dois locais diferentes. Pela manhã, levava para a escola e me encontrava com o avô, que me ajudava a retirá-los do carro. Um tirava as crianças e levava no colo até a recepção da escola, e o outro ficava com os demais. No final do dia, também recebia ajuda – dos colegas de trabalho, dos avós, das tias… Os dias de chuva eram os mais difíceis: criança, mochila e guarda-chuva – quatro vezes!

Quando ficaram maiores e já caminhavam, eu levava e buscava sozinha – quando não estava chovendo. Eles desciam do carro e ficavam esperando todos saírem para, de mãos dadas, seguirmos até a escolinha. Muitas vezes, pais de colegas e funcionários me ajudavam. Com seis anos, os meninos entraram no colégio: foram separados em duplas de maneira aleatória, para que pudessem ter suas vivências escolares um pouco mais individualizadas, respeitando o ritmo de cada um. A rotina da escola é intensa e exige criatividade, começando pela identificação dos materiais escolares – só de lápis de cor e canetinhas são 288. Eles acordam às 5h50min e vão de carro para o colégio. Os avós maternos e paternos se revezam para buscar e no cuidado no turno da tarde. Os temas são feitos com as avós ou, à noite, quando eu chego em casa.

O momento das refeições é outro desafio. Logo que nasceram, mamavam no peito e eu complementava com leite industrializado. No início, eram 32 mamadeiras por dia. Com seis meses, eram 25 mamadeiras – uma lata de leite em pó por dia. O horário das mamadas sempre foi diferente para que eu conseguisse amamentar todos. Depois, era preciso alimentar quatro bebês ao mesmo tempo e cada um com o seu ritmo… Eles ficavam sentados um do lado do outro, cada um com a sua cadeirinha, prato e colher. Nesse momento, a ajuda de outra pessoa era imprescindível pois todos queriam comida ao mesmo tempo. Nos dividíamos – dois para cada uma. Eu me revezava: se tinha dado comida para dois no almoço, a janta era para os outros dois; no dia seguinte invertia. Assim, conseguia acompanhar todos, verificar quem gostava de quê, a quantidade que havia comido. Mesmo agora, que já estão maiores, as refeições continuam desafiadoras. No almoço, quando chegam do colégio querendo comer e contar todos os acontecimentos: deixam as avós enlouquecidas! Na janta, tudo de novo, disputando minha atenção. Tem vezes que não lembro se jantei ou não.

Há o capítulo das roupas. Quando bebês, por serem muitas, eram separadas por tamanho. O Arthur e o Guilherme, que eram menores, usavam as mesmas roupas; o Gabriel e o Felipe usavam as maiores. Conforme foram crescendo, as roupas começaram a ser separadas conforme a personalidade de cada um. Arthur sempre gostou de calça jeans, Gabriel, de abrigo… Hoje, são totalmente separadas, e cada um tem seu espaço no roupeiro. Às vezes, me confundo de quem é a roupa, mas eles nunca.

Não visto eles iguais, não fiz isso nem quando eram bebês. Embora sejam quadrigêmeos, a personalidade de cada um é muito diferente. Mas encontrar roupas para meninos – e diferentes – é bem difícil. Quando saímos para comprar um tênis, por exemplo, tem dois modelos: um azul e outro vermelho, mas iguais. Sem contar que, no período de um ano, são necessárias 24 chuteiras porque deixam de servir ou furam na sola, descosturam nas pontas.

O quarteto no fim de 2011 no Parcão - Foto: Arquivo pessoal

O quarteto no fim de 2011 no Parcão – Foto: Arquivo pessoal

O banho é um momento muito especial: é quando é possível atender somente um. Nos primeiros anos, enquanto eu dava o banho, secava e arrumava, os outros ficavam aguardando a vez sob os cuidados de outra pessoa. Hoje, tomam banho sozinhos, mas com a minha supervisão. É o momento que aproveitamos para conversar “sozinhos”, sem os manos. Tem a disputa da ordem do banho; quem será o primeiro e o último… Tem dias que é bem tranquilo, mas, às vezes, o bairro todo sabe que estão no banho. Guilherme adora cantar no chuveiro, principalmente quando a vizinha escuta e canta com ele. Arthur gosta de lavar o vidro do box; Felipe quer ser o primeiro porque os manos deixam o banheiro desorganizado, e Gabriel quer ser sempre o primeiro para ficar “livre”.

Então, vem a hora de dormir. Desde que nasceram, cada um teve a sua cama e o mesmo quarto. Quando nos mudamos para uma casa, substituímos as camas comuns por dois beliches.

Um pouco antes de os meninos completarem dois anos, me separei e passei a cuidar deles sozinha. A responsabilidade, que já era grande, e os desafios, que já eram muitos, aumentaram. Nunca tive babá, empregada, sempre contei com a ajuda de meus familiares e amigos e trabalho em dois lugares para dar conta das necessidades do quarteto. Quando algum fica doente ou se machuca, é um dos momentos mais difíceis. Além do cuidado mais intenso, individualizado, das noites maldormidas, da preocupação da febre que não cede, tem que cuidar dos que não estão doentes e fazem de tudo para chamar a atenção e receber também um cuidado especial. Muitas vezes, nessas situações, a ajuda é imprescindível. Já precisei sair de madrugada para levar um deles na emergência do hospital e tive que pedir para os vizinhos ficarem com os outros três. Neste ano, três tiveram uma virose juntos. Os três começaram com vômitos durante a noite. Eu, sozinha com eles, não sabia qual atender primeiro. Quando um parou de vomitar, ligou, por iniciativa própria, para a avó e pediu para ela ajudar.

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Para dar conta do cuidado da casa, das roupas, comida, colégio, temas, banhos, mantenho uma rotina e um planejamento das necessidades. Desde pequenos, os guris participam de tudo. Aqui em casa, cada um tem a sua “responsabilidade”: estudar, tirar o lixo, dar comida para a nossa cachorrinha, Lua, recolher a roupa, varrer o pátio… Eles são crianças proativas, tem um senso de responsabilidade que muitas vezes assusta. A ida ao supermercado é com a participação de todos. Desde a elaboração da lista (que é bem grande) do que precisamos comprar até verificar os preços, colocar as compras no carro e guardar no armário e na geladeira.

Cuidar, orientar e educar quatro crianças da mesma faixa etária, de personalidades bem diferentes mas com as mesmas necessidades, respeitando singularidades, conseguindo olhar e entender o processo de cada um, é fundamental e desafiador. Ouvir a palavra mãe mais de 40 vezes em uma única refeição sem perder a paciência é recompensado com quatro beijos, quatro abraços, quatro presentes de Dia das Mães. Dar conta disso tudo, mais a rotina da casa, o trabalho e os temas não é fácil, mas é gratificante.
Eu me sinto feliz e realizada em poder contar coisas boas, como sempre desejei desde que eu soube que havia quatro bebês na minha barriga.

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