Mãe e filha psicólogas lançam livro sobre os desafios da maternidade

Quantas vezes fazemos as coisas no automático? Pois no meio da correria, às vezes a difícil tarefa de criar filhos também vira mais uma “tarefa” a ser cumprida, sem muito espaço de respiro para a reflexão. Não falta, é claro, literatura de apoio para quem busca resolver questões pontuais sobre educação de crianças. O lançamento da editora Zahar – A vida com crianças – propõe uma visão geral sobre os desafios da maternidade, focado em dilemas contemporâneos. Nas 182 páginas, as autoras Lulli e Julia Milman (mãe e filha, ambas psicólogas) discorrem em voz única sobre temas comuns a pais e mães – e madrastas, padrastos, avós e todo mundo que faz parte das novas configurações familiares.

Lulli tem quatro filhas e quatro netos – dois são filhos de Júlia. Com base nas vivências dos Milman e em experiências profissionais de ambas, elaboraram  textos que inspiram reflexões (com sugestões de soluções) sobre temas comuns em diferentes fases da vida infantil. Nas 182 páginas, surgem desde as questões envolvendo recém-nascidos – como amamentação, uso de chupetas e até o hábito de crianças dormirem na cama dos pais – até como falar de sexo com as crianças quando surgem as dúvidas “de onde eu vim”, elaborações sobre diferenças de gênero (meninos que brincam de Barbie, meninas que odeiam usar saia), bullying e controle de uso da internet.

Lulli e Julia Milman, as autoras - Foto: Divulgação/Zahar

Lulli e Julia Milman, as autoras – Foto: Divulgação/Zahar

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O livro também foca muito na questão da “culpa materna“, aquela que toda mãe sente, pelo menos um pouquinho. Para Júlia, isto surge da relação direta com a responsabilidade: se estamos “dando conta de tudo”, este sentimento de falha não costuma aparecer.

– Às vezes dá vontade jogar tudo para o alto ou sair de perto da cena ou quando não agimos da forma como achávamos que poderíamos ter agido, isso dá culpa. Mas, se pensarmos bem, as vezes precisamos sair da cena e não poderíamos ter agido de outra forma. O que podemos e devemos é refletir sobre os efeitos das nossas ações e seguir a construção da relação. Retomamos, assim, o sentimento de responsabilidade – afirma Júlia, em entrevista por email.

Para Lulli, outro aspecto importante é observar o quanto de expectativas é colocado na função única de “ser mãe”. A criança não pode ser tudo na vida do pai ou da mãe, escreve a psicóloga. Um filho, logicamente, muda inteiramente a dinâmica familiar. “Mas não dá para passar os dias tendo de fazer escolhas fatídicas, em que nossa felicidade se opõe radicalmente à deles”:

– Uma mãe feliz é a melhor coisa que podemos ofertar a um filho, mas um filho ser a única fonte de felicidade de uma mãe é uma carga impossível de ser carregada por uma criança – afirma Lulli.

3 tópicos para refletir sobre criação de filhos

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HIPERATIVIDADE FULL TIME

“Não é incomum os pais terem dificuldades em estar sozinhos com seus filhos. A radicalidade das psicoses e depressões puerperais expressa exemplarmente esse drama. No entanto, um pouco mais, um pouco menos, para muitos, ficar sozinha/o com mo bebê em casa, ou menos sair para passear, fazer um programa, frequentemente é fonte de mal-estar, de angústia e medo. Como se o bebê fosse um ser incontrolável. É comum vermos uma criança acompanhada por uma equipe – pai, mãe, babá. Três contra um. Muitas vezes entediados em volta de uma mesa, com as conversas limitadas pela presença da babá, outras vagando pelos shoppings, preenchendo o vácuo com algumas comprinhas inúteis. Tudo bem, vocês preferem assim, e cada um vive como quer. mas, com certeza, vale a pena pensar que agonia é essa que seu filho lhe traz. Que impotência é essa para lidar com ele?”

“Ficar em casa à toa não dá. Nunca ficar em casa à toa também não dá. Como organizar as longas tardes da infância ou mesmo as curtas manhãs? Desistências são absolutamente naturais. Frustrados com a falta de um dom divino em seus filhos e chateados com o dinheiro gasto, os pais perdem o senso e se esquecem de que um dos maiores objetivos das tais aulas era ocupá-los, oferecendo um leve aprendizado. Ah! Mas como deve ter sido bom ser o pai do Beethoven, hein? Que orgulho! (…) Dá para ter uma vida bem bacana mesmo sem ser especialmente dotado.”

O excesso de atividades é citado pelas autoras como um problema dos tempos modernos. O tempo livre é importantíssimo também para os filhos: para criar, brincar e até para se entediar. A criança que fica ocupada o tempo todo não tem tempo para sonhar com o futuro. “E, sem sonho, como construir a realidade”?, provocam Lulli e Júlia.

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DORMIR NA CAMA DOS PAIS

“Quando um bebê nasce, geralmente os pais o colocam no quarto deles, perto da cama. Para as mães, é um tempo para se acostumar com o bebê como um serzinho que está longe de seu corpo; para todos, conforto e praticidade na hora de atender à demandas do recém-nascido. Uma vez passado esse momento de insegurança, o pequeno já pode tomar posse de seu quarto, de seu espaço na casa. (…) O quarto dos pais, muito além de ser um cômodo da casa, é um lugar coalhado de fantasias. Por ali circulam, é claro, as fantasias do casal, sobre sexo, parceria, partilha, segundo o estilo de cada um. E, na fantasia das crianças, ficam as interrogações: o que eles fazem lá? Qual o mistério dos encontros dos adultos?”

As autoras afirmam que os pais costumam usar argumentos para justificar esse tipo de comportamento, tais como: “trabalho demais, então deixo os filhos ficarem para não precisarmos acordar na madrugada, exaustos”. Ou: “ele está doentinho, tadinho, ficamos preocupados dormindo longe”. Ou ainda: “não tenho parceiro, estou sozinha”, a criança supre essa falta de companhia. Mas tudo isso acaba com a privacidade dos adultos, segundo as autoras, que dão dicas para quebrar o “vício”, criando uma rotina na hora de dormir, por exemplo.

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BRIGAS E CASTIGOS

“Precisamos tirar da cabeça a ideia de que é possível criar filhos de forma saudável sem discordâncias, aborrecimentos, confusões e irritação. Mas essa constatação não pode implicar violência, falta de respeito crônica, embates físicos ou grandes afastamentos em nossas vidas.”

A maneira de educar as crianças vem mudando sem parar ao longo do tempo. As autoras lembram que, até muito pouco tempo atrás, colocavam-se os desobedientes ajoelhados no milho e o uso da palmatória era comum. Nas famílias, cinto e chinelos eram objetos com dupla utilidade. Mas educar não está necessariamente ligado a brigar. Conviver em família é um exercício que inclui o esforço cotidiano para evitar conflitos. A forma como os adultos se comportam influencia a personalidade do filho: se falam palavrão, a criança o repetirá. Os extremos também se tocam: pais violentos geram filhos submissos, pais submissos geram filhos violentos.

Sugestões: ler sobre cada fase pode indicar o que é ou não usual por faixa etária, para evitar cobranças irreais. Repetições também serão necessárias: não parta do princípio de que falar apenas uma vez basta. Insistir nas mesmas coisas – vá para o banho, escove os dentes, é hora de dormir – cria a chamada “confiança da presença”, que leva as crianças a obedecer ao que de fato é importante. Saber a hora de pedir desculpas também faz parte do papel de educador. Castigo também não é vingança: o objetivo é o ocorrido não se repetir, e não você vencer uma briga. Por isso, reflita sobre sua raiva. O carinho, expressão natural de amor entre pais e filhos, fica submerso por um vendaval de paixões cuja expressão principal passa a ser a raiva e o embate. Crianças nessa situação tendem a trocar as bolas, vivendo a agressão como uma forma de amor.

Quando tudo está bem, os conflitos giram em torno de assuntos compatíveis com a idade dos filhos. Desde a criança de dois anos que quer escovar os dentes sozinha (mas no fundo só quer engolir a pasta) até o pré-adolescente que não larga o celular na hora de ir dormir. A intensidade da discussão também deverá ser compatível com a faixa etária.

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