Mães fazem desabafos anônimos em site para receber apoio e driblar a solidão

Plataforma virtual “Temos que falar sobre isso” convida mulheres a compartilharem suas angústias

A maternidade idílica, aquela que parece um comercial de fralda com bebês fofíssimos e mamães superfelizes, você já conhece. Mas existe um outro lado do qual pouco se fala, raro se comenta: nem tudo é perfeito, e muitas vezes os momentos difíceis se tornam ainda mais solitários sem um ombro amigo. Inspirada nos desafios e nas experiências que viveu em sua própria experiência como mãe, a gaúcha Thais Cimino criou a ONG Temos que Falar Sobre Isso, plataforma virtual que dá apoio a outras mulheres na mesma situação.

O site é ponto de encontro de mães com um único objetivo em comum: desabafar. Suas vozes são ouvidas no projeto Desabafos Anônimos: é lá que muitas falam pela primeira vez sobre o que as aflige, expondo seus sentimentos e suas angústias sem serem julgadas. Comentários nos posts revelam outras mulheres com o mesmo drama, o que faz com que uma se reconheça na outra.

– Eu me dei conta do pouco que se fala franca e abertamente sobre essa parte não tão linda, não tão feliz, e cheia de obstáculos. Temos que falar da parte sombria da maternidade, da parte que quase parece que não existe. Quando nos tornamos mães, passamos a viver uma nova vida. Temos que nos reinventar e nos reconhecer no nosso novo papel e, para isso, necessitamos tempo, apoio, suporte, acolhida – explica Thais, atualmente vivendo em Barcelona e mãe de uma menina de três anos chamada Vida.

Thais Cimino e a filha, Vida

Thais Cimino e a filha, Vida

Os assuntos mais “desabafados” são o desconforto com as cobranças alheias, a sensação de não dar conta de tudo, o fato de não se sentir feliz com a maternidade, a falta de apoio social e da família, a depressão pós-parto e as dificuldades com amamentação – não à toa, muitas dessas questões seguem grandes tabus. Sob o anonimato, as mães podem expressar seus sentimentos e sentirem-se acolhidas.

– Acreditamos que o primeiro passo para curar é falar sobre isso. E falando sobre isso damos a oportunidade de outras pessoas escutarem e se identificarem com o caso, pensarem sobre isso, formando, assim, uma rede – explica a empreendedora social.

O Temos Que Falar… também publica periodicamente artigos de colaboradores da área de saúde e outros especialistas, de psicologia e obstetrícia, além de uma seção de consultas jurídicas gratuitas, para orientar mulheres sobre assuntos relacionados à maternidade, como guarda dos filhos, divórcio e violência doméstica.

No último mês, o site chegou à marca de mil desabafos publicados desde maio de 2015 – e há muitos ainda esperando a vez. São cerca de 20 recebidos por semana. Também chegam ao canal muitos relatos de abuso sexual e estupro e até de pessoas pedindo ajuda sobre outros assuntos – homens, inclusive, o que prova que todo mundo quer ser ouvido.

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DOE SEU TEMPO

O Temos que Falar Sobre Isso conta com 40 voluntárias. E aceita mais colaborações: o grupo precisa de pessoas para ajudar nas redes sociais, na área de TI, webdesigners e profissionais da área da saúde, entre outros. Mas o que você, leitora, pode doar mesmo sem ser especialista em nenhuma destas áreas é algo mais precioso: tempo. A comunidade TQFSI criou o projeto “Doe 1h para uma mãe”. O objetivo é incentivar a solidariedade. Como diz o propósito desta ação: já pensou que pode haver uma mãe precisando de apoio aí bem pertinho de você? Que tal se disponibilizar para ajudar uma mãe desconhecida e, quem sabe, fazer uma nova amiga? As sugestões são colaborar em coisas simples como sair para dar uma volta, ser um ombro amigo e um ouvido sem julgamento, doar roupas de adulto ou de criança, fazer um bolo… Acesse bit.ly/doe1h para preencher o formulário e encontrar alguém que precise de sua ajuda.

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Leia alguns depoimentos do site

Por B.I., 30 anos, uma filha:
“Engravidei acidentalmente no início do doutorado. Fiquei desesperada. Pensei diversas vezes em interromper a gestação. O pai implorava para eu não fazer o aborto. Prometia mundos e fundos. Ele ainda acha que é o melhor pai do mundo, mesmo ficando com a filha no máximo cinco dias por mês. Naquela época, eu não podia imaginar que a maternidade seria tão restritiva. Sinto tanta falta de quem eu era e do tempo que eu tinha pra fazer tudo que eu gosto. Meus amigos não me convidam para mais nada (nem sei se ainda são meus amigos). Passo os finais de semana e feriados em casa cuidando das minhas tantas obrigações. Estou sempre correndo, cheia de sacolas, sempre atrasada, sempre sem dinheiro. Quando tento desabafar, as pessoas dizem: ‘Mas você é uma guerreira, um exemplo de mulher’. Mas eu não queria ser nada disso. Eu só queria ser uma cientista competente e ter um pouco de tempo e dinheiro para viajar.”

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Por J.M., 22 anos, um filho:
“Quando quis ser mãe, sabia mais que todos que muita coisa mudaria. Mas não sabia que, ao decidir isso, teria meu mundo arrancado de mim. Passei a viver tanto pelo meu filho que esqueci que existia um eu. O que existe é uma mãe, que seja feliz ou triste, amamenta. Que seja rindo, ou com as lágrimas pingando sobre o bebê, sorri. Sorri, pra que ele sorria também, sem compreender o vazio da minha alma. Que o abraça, como se ele precisasse de abraço, mas quem precisa de abraço sou eu. Que lhe dá colo, querendo quem lhe dê colo também. Esqueceram de me dizer o quão difícil é ser assim tão especial pra alguém e não se sentir especial pra ninguém ao mesmo tempo. Solidão, angústia, estresse e uma tristeza sem fim.”

Por A.A., 25 anos, um filho:
“Sinto uma enorme raiva do meu companheiro, me sinto sobrecarregada. Só eu cuido do bebê. Não tenho descanso. Nos finais de semana, ele dormia até mais tarde, comia, dormia de novo ou ia jogar videogame, ver TV. Brincava um pouquinho com o nenê, mas depois voltava a descansar. Enquanto isso, eu fazia comida, dava banho, seguia a mesma rotina com o bebê. E eu sem ter tempo nem para pentear o cabelo direito, engolindo a comida. Pensava: ‘Coitado, ele trabalha tanto, devo resistir e cuidar de tudo sozinha mesmo’. Agora ele foi demitido e está em casa todos os dias. Criei expectativas: ‘Agora vai me ajudar’. Engano! Continua do mesmo jeito, acorda tarde, e eu na rotina de escrava do lar. Estou indignada. Por que tenho que fazer tudo sozinha? Vivo estressada. E me sinto uma péssima mãe, pois estou sem paciência com meu bebê. É muito difícil carregar tudo isso nas costas.”

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