A Mamãe é Punk: Ana Cardoso lança livro sobre os desafios de ser mãe de adolescentes

Foto: Renata Larroyd, Divulgação
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Camila Maccari, especial

O papai é pop. Já a mamãe, não bastasse ser rock, é punk também. Em novo livro, que será lançado no dia 10 de abril, Ana Cardoso mostra que pais precisam de muito jogo de cintura, empatia e amor para dar conta do desafio que é lidar com filho adolescente.

– Aborrecente pode não ser um termo muito usado, mas define muito bem como nos sentimos em relação a eles em situações como programar uma viagem em família e a sua filha de 13 anos emburrar e não querer ir de modo algum – brinca Ana, em referência a Anita, filha com o companheiro Marcos Piangers.

Foto: Divulgação

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A Mamãe é Punk é resultado de uma busca por entender e sair-se bem nessa fase. São 112 páginas com textos leves, descontraídos e sem julgamentos que falam da “sofrência” para fazer o tema de casa, dos primeiros papos sobre sexualidade e da melhor maneira de lidar com o vácuo – lugar frequentemente destinado aos pais de adolescentes. Prestes a lançar o quarto livro da carreira e o segundo sobre maternidade – além de A Mamãe É Rock, de 2016 –, Ana Cardoso conversou com Donna e compartilhou sua experiência com a filha adolescente.

Como é ser mãe de uma adolescente?
A Anita ainda é pré-adolescente e já calça quase o meu número. Só isso já é muito legal, poder compartilhar roupas e sapatos, trocar ideias sobre assuntos mais adultos. Eu não tiro ela para minha amigona, mas curto muito sua companhia. Conversei com diversas mães que sentem o mesmo. Muitas, por outro lado, estão em um momento meio distante dos filhos, e isso lhes preocupa. Acho que sempre dá tempo de retomar o vínculo. Acredite: na adolescência, eles ainda gostam muito da gente, só acham que somos meio sem noção, mas o amor está ali.

Você já encarou aquele momento de “morder a língua”: algo que via outros adolescentes fazendo e jurava que na sua casa não seria igual?
Celular. Nenhuma mãe ou pai quer que o filho fique tanto tempo no celular quanto eles querem ficar. No meu mundo ideal, a Anita ficaria, no máximo, meia hora por dia. Mas os tempos mudaram, é no celular que está o tema de casa, o roteiro do trabalho de Física, as notícias da colega que estava doente. Tirar o celular é como tirar um pedaço deles. Lembro como era ruim quando meus irmãos ficavam no telefone e eu não podia ligar para as minhas amigas. Era terrível.

Como lidar com esses jovens extremamente conectados? Qual o limite, por exemplo, para as redes sociais?
No meu tempo, não havia redes sociais e ninguém ficava filmando as pessoas nas baladas. Ainda bem. Hoje, infelizmente os jovens não têm muita liberdade. Pais e mães têm medo de tudo, e os filhos percebem esse medo. Isso causa rejeição. Teu filho te olha e vê pânico, ele não vai querer ser como você, vai procurar outros modelos. Minha filha não usa muito as redes, não tem paciência. De vez em quando, eu dou uma olhada. E, principalmente, explico para ela o que pode acontecer se ficar conversando com estranhos. Se nós não falarmos, ninguém vai falar. Tem que ser um papo tranquilo, a gente tem que esperar que os filhos tomem boas atitudes. Se você chegar acusando ou tocando o terror, o efeito pode ser catastrófico.

Foto: Renata Larroyd, Divulgação

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Como mãe de duas meninas e com uma filha de 13 anos agora, como é criar uma menina empoderada?
Não acredito muito em empoderar pela palavra. Então, para uma menina ter boas escolhas, acredito que precisa ser criada entendendo que o mundo pode lhe parecer injusto muitas vezes, mas que, se ela tiver boas amigas e se preparar para situações, poderá ser quem ela quiser mesmo. Gosto de educar com exemplos, sou o tipo de pessoa chata que está sempre questionando as atitudes (as minhas inclusive) e tentando mudar o que parecia ser impossível. Hoje, na minha família, são os homens que lavam a louça. Pode parecer uma bobagem, algo pequeno, mas em N gerações isso nunca tinha acontecido. Eram sempre as mulheres que cozinhavam, serviam e tiravam a mesa enquanto os homens iam dormir ou pro sofá ver televisão.

Como você se coloca quando surgem as neuras adolescentes sobre corpo, imagem, sucesso e todas aquelas pressões típicas da fase?
Me incomoda muito a cobrança em cima do corpo feminino. Tem que ser jovem, tem que ser magra, tem que ser linda. Faço um exercício enorme de não comentar nunca sobre corpos e beleza de ninguém. Enalteço o esforço, o quanto uma amiga é legal, inteligente. Acho importante as meninas entenderem que não são uma coisa, um objeto, um enfeite para o mundo. Porque, quando agem assim, tornam lógico aos meninos que lhes tratem assim também. E isso é um círculo vicioso que diminui muito tudo que se relaciona com o feminino.

Como você vê o impacto que a escola tem nos adolescentes? Se eles mudaram tanto, a escola continua a mesma, como se dá essa relação?
A escola não mudou nada, os jovens, sim. Sabem procurar o que quiserem na internet e aprendem sozinhos sobre assuntos variados. Por outro lado, estão mais inseguros, querem atenção, querem que a gente faça o tema de casa com eles. Minha mãe nunca olhou meus cadernos. Hoje em dia, entupir uma criança de conteúdo e deixá-la em pânico me parece muito errado, mas é o que as escolas seguem fazendo. É muito triste porque grande parte do conteúdo que eles aprendem obrigados não serve para nada. Eu prefiro ir aos poucos, ensinar menos coisas e deixar a criança ou adolescente tranquilo, com tempo para refletir sobre o assunto, correlacionar com a vida real, com outras disciplinas.

Foto: Renata Larroyd, Divulgação

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E o bullying? Como os pais podem enfrentar essa questão?
O primeiro passo é os pais estabelecerem um canal de diálogo com os filhos. Ouvirem. Acreditarem. Porque a maioria das crianças não se sente à vontade para conversar com os pais. Envolver a escola, falar com outras mães e pais, me parece fundamental. O problema de um é o problema de todos na escola; relações estão sendo aprendidas ali o tempo todo. Confie no seu filho, confie na escola e se abra com os outros pais. Só vocês poderão resolver essa situação e precisam agir juntos.

Você diz que o adolescente só precisa de um abraço, já que, na adolescência, acontece um afastamento físico. Como lidar com isso?
Esse momento é todo dia. Eles vão se isolando, e a gente nem percebe. Precisamos dar um passo atrás e olhar mais para eles. Pentear um cabelo, ver um filme de mãos dadas e brincar de pega-pega faz uma diferença no coração dos filhos que a gente nem sonha. Eles têm 12, 13, 17 anos… mas – pensa – vão viver até os 90, estão só no começo da vida. Não podemos querer que ajam como miniadultos.

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