O que vi e vivi: leitora conta a experiência de ser mãe em produção independente

Foto: Bruno Alencastro, Agência RBS
Foto: Bruno Alencastro, Agência RBS

Aos 37 anos, quando Roberta Siqueira chegou à conclusão de que estava no momento de vida perfeito para ser mãe, faltava um candidato a pai ao seu lado. Como não desejava parceria por conveniência para um projeto que, por ora, era apenas seu, Roberta optou por uma produção independente. Ao lado de Franco, hoje com seis anos, ela vivencia uma maternidade ao mesmo tempo de leveza e resiliência.

Os detalhes dessa história você conhece nessas páginas na voz da própria Roberta. Com esse relato de uma mãe em dose dupla, Donna inaugura um espaço especialmente dedicado a ouvir e compartilhar as experiências de nossas leitoras, convidadas a se tornarem ainda mais donas de Donna. Interessada em participar? Leia as informações ao final do texto.

“Tinha certeza de que seria mãe. A dificuldade era eu nunca ter
encontrado uma pessoa que quisesse ser pai”

Outro dia o Franco estava assistindo a um filme e eu sentei ao lado dele, no sofá. Ele pegou o controle remoto, pausou e lascou.

– Mamãe, eu nunca tive um pai?

Foto: Bruno Alencastro

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Ele tem seis anos, e fazia tempo que não voltava àquele assunto. A primeira vez foi cedo demais para eu me preparar (nem três anos!), e acabei falando bobagem. Dessa vez, levaria em conta o que a psicanalista disse: devemos entregar informações até que as crianças se sintam satisfeitas. Não precisa ir além desse ponto.

– Por que você está perguntando isso, filho?

– Ah, é que o meu professor falou que existe uma sementinha do homem e uma sementinha da mulher…

Pensei: “Hmmm. Então tá. Chegou a hora de falar sobre a tal da sementinha”. Expliquei:

– Olha, filho, tem um homem, e ele foi muito generoso. Porque ele deu a sementinha dele para a mamãe. Mas a gente nunca vai poder conhecer esse homem.

– Tá legal – ele se virou para a TV de novo e seguiu assistindo.

Nesse caso, ele estava preocupado com a origem dele, não exatamente com o pai.

O Franco é o fruto de uma decisão tomada depois de anos e anos de terapia. A maternidade sempre foi muito forte em mim. O instinto materno sempre foi muito forte. Em relação aos meus amigos, às minhas irmãs. Até mesmo em relação aos presos lá de Canoas. Eu sou Procuradora do Estado e trabalho como Agente Setorial da Susepe. Quando eu entro na penitenciária, abraço todos os presos, um por um. Especialmente os que eu sei que não têm visitas, os abandonados pela família. O meu barato sempre foi gente, inclusive gente de que ninguém gosta.

Então, tinha certeza de que seria mãe. A dificuldade era eu nunca ter encontrado uma pessoa que quisesse ser pai. Ou que quisesse ser pai no momento em que estava comigo. Outra convicção era que eu queria construir a minha vida. Queria ter uma carreira, viajar, namorar. Queria fazer outras coisas, tinha outras ambições. Então, sabia que a maternidade viria, sim, mas tardia. E foi passando o tempo. Quando fiz 37 anos, resolvi: agora eu tenho um salário bem razoável, tenho a minha casa, tenho carro, viajo a hora que quero, agora está na hora.

Foto: Bruno Alencastro

Foto: Bruno Alencastro

Fiz algumas propostas para o meu melhor amigo, mas ele não quis (risos). Brincadeiras à parte, a opção por uma produção independente, com auxílio médico, veio por dois motivos. Mesmo que eu optasse por tentar engravidar de um parceiro qualquer, acho um peso muito grande para a outra pessoa: ter um filho comigo porque era a minha vontade. O segundo motivo é que eu não desejava que o meu filho, em razão da decisão da mãe dele, tivesse de lidar com o sentimento de rejeição ou de um pai ausente.

Como eu dizia, estou sempre dentro das cadeias. Quase a totalidade dos presos ali vem de famílias completamente desestruturadas. A esmagadora maioria deles não tem pai. Ou eles não sabem que é o pai, ou esse pai fugiu ou esse pai é do sistema prisional e acabou morto. Tem muita gente que foi feita dentro do presídio. A mãe ia visitar e engravidou. São crianças que se sentem produto daquilo ali. Então, a destituição de uma família é um tema com o qual eu lido diariamente. Convivo todos os dias com pessoas que destruíram no mínimo duas famílias, a da vítima e a dele. É pesado.

Talvez por isso, por temer que meu filho tivesse de lidar com a falta do pai, que errei quando ele me perguntou aquela vez, com dois anos e meio, quem era o pai dele. Respondi: “Teu pai sou eu”, e ficou por isso. Aí, levei para a análise e tomei bronca:

– Não, o pai dele não é tu.

– Ué, claro que sou.

– A provedora dele é tu, mas não é isso que ele quer saber. Ele está na fase do objeto externo. Está aprendendo que meninos têm pinto e meninas têm perereca. Está vendo que os pais são homens, e as mães, mulheres. Quando tu dizes: “Teu pai sou eu” para uma criança da idade dele, ele cria um monstro na cabeça. Tu tens de responder: “Teu pai é um homem que a mamãe não conhece”.

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Foto: Bruno Alencastro

Aquela vez em que concedi uma entrevista para vocês, sobre ser mãe sozinha por opção, lembro que a repórter me falou que eu soava mais leve do que outras mães solteiras com quem ela conversava. Leveza é uma boa palavra, mas dá para chamar também de resiliência em determinados momentos. Eu sabia que a escolha era minha, a responsabilidade era minha: financeira, emocional… toda minha. Eu escolho a escola, eu pago a escola. Se sou eu que levo na escola, adivinha só, sou eu que busco na escola. Faço a janta, dou banho, faço tema de casa. Eu não digo, como ouço outras pessoas dizerem, até gente que está em um relacionamento: “Isso aqui o teu pai deveria ter feito”. Lá em casa sou eu e ele, ele e eu. Então, as decisões são mais leves. Não tem cobrança. “Ah, era pra ser o teu pai, mas, como ele morreu, como me abandonou, como está com outra pessoa e não está interessado, então sou eu que estou fazendo”. Nada disso.

Ouço pessoas dizendo: “Ai, como é difícil ter filho”. Não sinto esse peso. Não sinto dificuldade e acho que, com o tempo, só melhora. Quando ele é pequeno é bem bom, porque está grudado no peito. Depois, quando ele começa a caminhar, a coisa fica mais perigosa porque tem que andar na volta. Agora, ele está numa fase sensacional. Já faz praticamente tudo sozinho. Tu vais voltando a ter a mobilidade que tinha antes de ser mãe. Mas com um outro olhar. Com outro viés. Com medos que eu nunca tinha experimentado. Eu não estaciono na rua, por exemplo. Por medo de que aconteça alguma coisa com o Franco ou comigo, porque ele depende de mim. Todas as decisões são baseadas no fato de que tem uma pessoa dependente apenas de mim. Antes de ser mãe eu nunca havia pensado em seguro de vida, hoje tenho três. E toda a criação dele eu tento direcionar para um caminho em que ele seja obrigado a fazer escolhas, a trabalhar a independência dele. Embora eu deseje muito, sabe-se lá se estarei em torno dele por muito tempo. Outro exemplo: há anos estou na fila para adotar uma criança, e a única restrição que fiz foi a de que quero uma criança que um dia tenha condições de viver sem mim.

Não ser mais sozinha mudou muito a minha relação com a morte, mas o lado bacana é que mudou também a minha percepção sobre o tempo de vida. Quando eu era mais jovem, achava que uma pessoa de 50 anos era velha. Hoje, acho jovem demais. Noventa anos? Superjovem. Agora, tenho vontade de viver até os 120, os 130 anos porque o Franco está comigo.

* Depoimento concedido ao repórter Caue Fonseca

Este espaço é seu: cada semana uma leitora conta uma experiência marcante por que passou aqui nesta seção. Participe!

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