Mães preferem ficar sozinhas nas horas de lazer, aponta pesquisa

Foto: Pixabay
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Do que as mulheres mais sentem falta depois da chegada dos filhos? Uma pesquisa recente sobre tempo livre aponta para uma resposta: de si mesmas.

Os dados são do Instituto Market Analysis, que entrevistou 1.019 pessoas de 128 cidades. A primeira parte da pesquisa compara a percepção de mulheres e homens sobre o seu tempo de folga. Quando ambos são solteiros e sem filhos, os percentuais entre os dois grupos se assemelha: 61% das mulheres e 64% dos homens apontam ter algum ou muito tempo livre. Já no time dos casados, fica bastante claro como a chegada dos filhos impacta muito mais no tempo da mulher do que do homem: o número cai para 40% das mães e 55% dos pais.

Esse impacto da chegada das crianças na vida da mulher tem um desdobramento curioso quando elas são perguntadas sobre o que fazem no seu tempo livre. Muitas acabam usando os (poucos) minutos disponíveis no dia para matarem a saudade de si mesmas, trocando a interação social pelos programas de lazer solitários. São diversos exemplos (ver quadro abaixo): 20% das mulheres sem filhos costumam encontrar amigos. Depois dos filhos, o índice cai para 9%. Já assistir TV é uma opção de lazer para 29% antes dos filhos e passa para 48% depois dos bebês.

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– Dentro do universo feminino, a maternidade reflete uma redução e empobrecimento social do tempo livre, limitando os estímulos cognitivos e networking social, intensificando disparidades – interpreta Mariana Goulart, analista de pesquisa qualitativa da Market Analysis.

Simplesmente “passear sozinha” é uma opção de lazer citada por apenas 1% das mulheres sem filhos. Depois deles, é seis vezes maior. A reportagem de Donna consultou algumas participantes do Grupo de Mães Donna no Facebook sobre os dados e não só confirmou a impressão da pesquisa como encontrou hábitos curiosos das mães para terem tempo para si mesmas. É o caso da dentista Cláudia Modena, 39 anos, mãe de dois meninos de seis e cinco.

– Gosto de olhar para o teto do carro. Explico: nos finais de semana, após o almoço, saio de carro com meus filhos e eles cochilam. Volto ou vou para um estacionamento. Deixo o ar ligado. São 20 a 30 minutos em que só olho para o teto. Às vezes, ouço musica, esqueço o celular. Depois disso, sou outra! Renovada! Antes, eu rodava com eles dormindo, mas a gasolina subiu e ficou caro – diz, aos risos.

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Cláudia não está sozinha. O grupo está cheio de relatos de mães que acordam meia hora antes dos filhos para curtirem a casa em silêncio ou de mulheres como a publicitária Louisiane Carvalho, 42 anos, que aproveita o intervalo de almoço de 90min como um tempo diário apenas seu: usa para ir à academia, ao salão de beleza ou apenas dar uma volta sozinha. O insight que precisava levar a sério o tempo para si mesma veio depois da chegada do primeiro filho, hoje com oito anos:

– Tive a sensação de que minha autonomia havia sido tirada de mim. Precisei trabalhar na terapia para conseguir deixar meu filho sem mim. Que isso não era falta de amor. Há três anos, quando o mais novo nasceu, brinco que ele é filho de uma mãe completamente diferente da do irmão.

Para amenizar o problema, ambas apontam como fundamental a participação dos pais e outros parentes. Só assim para Cláudia chegar à reta final do doutorado ou para Louisiane cumprir, finalmente, uma velha promessa:

– Combinamos que, quando a mais nova do nosso grupo de amigas fizesse 40 anos, viajaríamos só nós, sem maridos ou filhos, por um final de semana. De oito, sete conseguiram. E a que não conseguiu é justamente a solteira – conta, orgulhosa, de malas prontas a Florianópolis.

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Lembre-se da máscara de oxigênio

Camila Saccomori editora-assistente de Donna e mãe da Pietra, seis anos

Eram quase 19h em um dia de semana deste verão na redação de Donna. Desliguei o computador e, enquanto pegava a bolsa para sair, queria compartilhar com alguém minha programação das próximas horas. Como se falar em voz alta fosse necessário para materializar os planos. O colega Caue Fonseca – autor desta reportagem – testemunhou o anúncio:

– Hoje vou ter uma noite de muuuuito prazer. Vou passar na pizzaria, pegar uma só pra mim e comer na frente da TV vendo Netflix.

Meu interlocutor-sem-filhos sorriu, mas não entendeu a dimensão daquele prazer. Dias depois, quando a assessoria da Market Analysis me ligou e ofereceu com exclusividade a pesquisa que agora está nesta página, coube ao Caue destrinchar os números. E aí caiu a ficha dele. Faço parte da estatística das mães que precisam, gostam e querem curtir (um pouco) de tempo livre na própria companhia.

Morei sozinha dos 18 aos 28 e, na virada para os 30, bateu aquele desejo inadiável de ter um bebê. Desde que minha filha nasceu, todos (todos!) os aspectos da vida foram impactados pela maternidade, desde os maiores – como a planta do apartamento, a compra de um carro e até as pautas do trabalho – até os menores do dia a dia. Tem aquela fase em que você não consegue nem ir ao banheiro sem companhia. Ou tomar banho (sempre de porta aberta) e ter que interromper quando a pitoca entra, usa o vaso e pede: “Manhê, vem me limpar”. Ir sozinha ao supermercado passa a ser um baita passeio – que luxo ler um rótulo de produto antes de comprar! E nada disso é falta de amor. Ao contrário: chama-se amor-próprio (sim, mãe também tem isso).

Sou aquele tipo de mãe grudenta, que ama festa infantil, curte o caos de restaurantes com espaço kids e senta no chão pra brincar de boneca todo dia depois do tema de casa. Ou seja, nos raríssimos momentos em que estou sozinha comigo mesma, lógico que o diabo da culpa fica nos pensamentos tentando chamar a atenção. “Aimeudeus eu preciso estar junto mais vezes ainda ela vai crescer muito rápido que péssima mãe que egoísmo eu não deveria estar aqui assim feliz etc etc.”

Nesses momentos, lembro uma pequena alforria (ou epifania) que uma antiga terapeuta concedeu. Na licença-maternidade, eu mal escovava os dentes e ficava dias com o mesmo pijama, alegando total falta de tempo. “Máscaras de oxigênio”, ela disse. A gente precisa colocar primeiro em nós mesmas para poder ajudar a criança depois. Tão simples, mas tão preciso e precioso. É isso. Mesmo em casos de não emergência, você e eu temos de nos dar o direito de ficarmos sós de vez em quando. Cavar pequenos espaços para poder ir ao banheiro de porta fechada ou ler um livro. Ou, talvez, as duas coisas juntas para economizar tempo :-)

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