Quando e como você saiu do hospital com seu bebê no colo? Mães compartilham histórias de parto normal e cesariana no Brasil

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Camila Maccari, especial

Menos de sete horas depois do nascimento do terceiro filho, Kate Middleton surgiu à porta do hospital, linda e maquiada, para cumprir o protocolo e tirar fotos ao lado do príncipe William. Minutos depois, a duquesa seguiu para casa, com o filho sendo carregado pelo pai em um bebê-conforto, em direção ao carro que os aguardava.

Bastou para a internet ser tomada por comentários surpresos com tamanha rapidez para alguém que deu à luz já ter alta – e em como Kate parecia sequer ter passado por um trabalho de parto. Enfim: como alguém pode ter um filho e pouco tempo depois já ir para casa, como se tivesse acabado de passar pela coisa mais rotineira do mundo?

Uma pergunta como essa encontra muito eco no Brasil: a Portaria do Ministério da Saúde 2.068/2016 diz que mulheres e bebês só podem voltar para casa 24 horas após o nascimento e há hospitais que estendem esse prazo para 48 horas. Muito diferente da realidade britânica: quando está tudo bem com mãe e bebê, é hábito liberar as famílias poucas horas após o nascimento, independentemente da mulher ser ou não princesa.

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Outro detalhe causou estranhamento: como uma mulher pode estar tão bem – e de salto – apenas algumas horas depois de dar à luz um filho?

– Estamos acostumados a acompanhar a recuperação de partos que são cirurgias e, por isso, levam mais tempo. Cirurgias exigem acompanhamento, têm risco de hemorragia, têm a dor do corte – explica a obstetra Melania Amorim.

Esse costume é reflexo dos dados: a taxa de cesarianas no Brasil é de 56%, uma das mais altas do mundo. No setor privado, chega a 85%. A psicóloga e doula Érica de Paula que, em 2013, produziu e roteirizou o documentário O Renascimento do Parto, atribui os números a vários fatores. Primeiro, à ideia de que a cesárea é um bem de consumo, depois aos mitos propagados sobre o parto normal, como alargamento da vagina ou perigo para o bebê e o medo completamente legítimo que as mulheres têm de sofrer violência obstétrica: as intervenções muitas vezes desnecessárias como episiotomia (corte no períneo) ou soro com ocitocina para acelerar o parto sem indicação precisa. Fora tudo isso, há a prática frequente de convencer a mulher a deixar marcada a data do nascimento.

– Os profissionais não têm interesse para que o parto normal aconteça, devido às péssimas remunerações recebidas pelos planos de saúde e à imprevisibilidade de horário e duração de todo o processo – afirma Érica. – Isso faz com que surjam indicações na maior parte das vezes estapafúrdias de cesarianas, como falta de dilatação, cordão enrolado no pescoço, bebê grande, bebê que passou da hora.

Essas práticas fogem da humanização do sistema obstétrico, uma busca de vários agentes da saúde e movimentos sociais e que, destaca Melania, pode ter impacto direto na queda dos nascimentos por cirurgia. Por ora, comemora-se o fato que desde 2013 o número de cesáreas não aumentou. Já existem iniciativas de atenção ao parto e ao nascimento que levam em conta as diretrizes da Organização Mundial de Saúde, como o Projeto Parto Adequado, que prepara uma equipe multiprofissional para acompanhar a gestação e o parto.

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– Quando a gente fala da humanização do sistema, falamos de algo que deveria ser direito para todas as mulheres de todas as classes e em todos os tipos de parto. Essas medidas pretendem dar mais autonomia à mulher, respeitá-la e respeitar o bebê – diz Melania.

As médicas apontam que transformar o sistema obstétrico em um espaço de acolhimento para a grávida também passa pela questão das doulas – que ainda são proibidas de acompanhar o parto em muitos hospitais. Para traçar um paralelo com a situação de Kate Middleton, na Inglaterra os partos são quase sempre conduzidos por parteiras profissionais, e não por médicos – eles só intervêm nas gestações de alto risco.

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– É preciso que os hospitais e os médicos entendam que as doulas deveriam ser vistas como aliadas no trabalho de parto e que sua presença reduz a quantidade de horas, a necessidade de intervenções e aumenta a satisfação com a experiência. Quando o obstetra ou o hospital presta um serviço de qualidade e baseado em evidências, certamente não deveria ter nada a temer em relação à presença das doulas – destaca Érica.

Para Melania, as doulas são necessárias até mesmo quando a mulher optar ou precisar de uma cesariana, que também traz muitos benefícios e não deve ser demonizada:

– Quando bem indicado, o procedimento é maravilhoso porque salva vidas. Mas estudos mostram que, em países onde a taxa do procedimento não passa de 10%, há um benefício real na diminuição da mortalidade de mães e bebês. Mas não há evidências de que a mortalidade reduza ainda mais quando esse número sobe ou passa de 15%. E o Brasil, com uma taxa altíssima, chama a atenção: é impossível que mais da metade das mulheres tenham uma gravidez de risco.

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COM A PALAVRA, AS MÃES

No Grupo de Mães Donna, pedimos às mães para compartilharem suas experiências no parto

“Desde o planejamento da gestação, busquei um médico que me assistisse em um parto normal, o mais natural possível. Meu pré-natal foi maravilhoso, sem nenhum problema de saúde, mas o bebê era gigante. Sei que isso não é indicação de cesárea, mas, com 41 semanas, uma conversa franca e argumentos razoáveis, resolvemos, ainda que bem contra a minha vontade, fazer a cesárea. Foi a pior experiência da minha vida, dores absurdas, recuperação lenta, 48 horas de internação, protocolo do hospital. Não faria novamente por motivos semelhantes.”
Juliana Silva Rheinheimer, 32 anos, revisora textual

“Fiz duas cesarianas. Na primeira gestação, tive descolamento na placenta e fiquei meses de repouso com sangramentos – então já era indicado por precaução de hemorragia no parto, além de ter tido bolsa rota sem dilatação. Na segunda gravidez, foi por opção, já estava com agendamento, porém a bolsa rompeu e fui direto para a cesariana. Não me arrependo, não sofri, tive uma boa recuperação em ambos, senti dor apenas ao levantar pela primeira vez. Acredito que, conhecendo bem as opções e entendendo os riscos de ambos, devemos, sim, ter o direito de escolha, desde que seja seguro para mãe e bebê.”
Keyla Prates Betat, 28 anos, microempresária

“O parto da minha filha foi normal. Foi na rede pública e nem cogitaram cesariana. Meu trabalho de parto durou 13 horas e precisamos da ajuda do fórceps. Recebi alta após três dias por particularidades da minha filha, mas foi complicado ficar tanto tempo no hospital. Adoraria ter ido para casa logo em seguida.”
Gabriela Rodrigues, 36 anos, empresária

“Meu parto foi normal, sem analgesia, sem episiotomia e foi fantástico. Devo muito disso à minha obstetra, que me tranquilizou muito e apoiou o parto natural. Cheguei ao consultório dela com a ideia de ter cesárea pelo medo de sofrer, passar trabalho e essas coisas clássicas de mãe de primeira viagem. Com calma, ela me explicou e me apresentou todas as vantagens de se evitar uma cirurgia desnecessária e do quanto isso faria diferença pra mim. E ela tinha toda a razão, pelo menos no meu caso. Se fosse pela minha disposição e bem-estar pós-parto, eu também sairia do hospital horas depois de parir, mas certamente não em um salto alto, com aquele cabelo muso, e toda aquela classe.”
Fernanda Vaz, 30 anos, jornalista

“Meu filho nasceu por parto normal. Desde que soube da gravidez, este era meu desejo. Porém, logo na primeira consulta com a ginecologista fui desencorajada a fazer parto normal. Segundo ela, pela minha estrutura, eu sofreria demais ou até mesmo não conseguiria. Além de tudo, a minha obstetra não fazia mais parto natural, apenas cesárea. Ela ainda me alertou que, pelo plano de saúde, se eu quisesse parto normal, teria que pagar ao médico um valor que eu não pretendia ou ser atendida por um médico plantonista. Então, depois de muitas dúvidas, optei por fazer parto normal com o plantonista do hospital. Recebi alta 24 horas depois do parto.”
Jéssica Klein Sisnande, 29 anos, jornalista

“Minha ginecologista-obstetra, que me acompanhou desde a menarca, quis marcar a cesariana logo que soube que eu estava grávida. Nunca foi minha intenção fazer uma cesariana sem necessidade, então passei o restante do meu pré-natal com esta médica porque tive medo de mudar durante o acompanhamento. Desde que soube da minha escolha por parto normal, ela me tratou com indiferença, má vontade, mas fez tudo o que precisava. Chegou a me dizer que só faria o parto se o meu filho nascesse durante a semana, porque não trabalhava no fim de semana. Graças a Deus, ela não fez meu parto, meu filho nasceu lindo e saudável. Fiquei tão impressionada com as atitudes desta “profissional” que nunca mais quero encontrá-la.”
Magali Costa, professora, 36 anos

“Eu sempre quis fazer cesariana, não queria normal de jeito nenhum. Fiz duas e não me arrependo. Sempre tive uma excelente recuperação. Nas duas gestações, deixei claro desde o início que não queria parto normal.”
Camila Borges Meirelles, professora, 39 anos

 

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