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A modelo que pode lhe ensinar o que é ser uma mulher

Ulisses Carrilho coloca o sucesso das modelos transgênero x o preconceito que ainda é sentido sobre o assunto

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Foto: Fábio Bartelt

A palavra snobbery – em português, esnobismo – passou a ser usada no início do século XIX. O termo era escrito ao lado dos nomes plebeus nas listas de seleção para as universidades clássicas do Reino Unido, Oxford e Cambridge. A abreviação de sine nobilitate, “s.nob”, servia para distinguir o joio do trigo. O filósofo pop Alain de Botton escreve em Status Anxiety, livro que conta com  um capítulo dedicado ao esnobismo, sobre a diferença entre infância e vida adulta. Durante os primeiros anos de vida, a existência é o bastante para nos garantir afeto incondicional.

Antônio Carlos Cerezo é treinador de times de futebol. A posição atual do ex-jogador é comum aos atletas que fazem sucesso: transcendem os jogos nos estádios para liderar campos de treinamento e mesas de estratégia. Toninho, como é conhecido, percorreu a maior parte de sua trajetória em times dos estados de São Paulo e Minas Gerais com passagem pela Itália. O treinador tem quatro filhos. Após uma cirurgia de readequação genital na 3ª cria de sua ninhada quádrupla, ele escreveu uma carta aberta em que disse: “Leandro ou Lea, sempre serei seu pai. (…) Meu menino, minha menina, pra sempre, eternamente os dois serão meus.”

No último dia 16, o The New York Times publicou uma matéria sobre as modelos brasileiras transgênero e seu sucesso mundo afora (no momento em que escrevo esse texto, meu editor de texto acaba de sugerir a mudança do termo “transgênero” para “transgênico”. Ainda há muito para discutir sobre o assunto). Na matéria do jornal americano ainda há menção à tradição gender bender brasileira, que não deixa de ser preconceituosa. Os blocos das virgens – blocos de rua carnavalescos onde homens vestem-se de mulheres – são tradição carnavalesca. A elite carioca dos anos 1950 e 1960 se divertia com os shows de drag queens em suas boates. É impossível não lembrar de Rogéria ou Roberta Close, dois ícones femininos do século XX. Depois de enumerar os sucessos da exuberante Carol Marra e da classuda Camila Ribeiro, duas modelos transgênero, a publicação americana cita Lea Cerezo, filha de Toninho.

As manequins de passarela passaram a ser chamadas de modelo. E não podemos subestimar a carga política das palavras. Deixaram o pivô de lado para marcharem cruzando as pernas, a escola Giselle Bündchen do trote fashion. As modelos deixaram de ser cabides para tornar-se verdadeiros modelos de comportamento. São parâmetro para o corpo, modo de vestir.

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Toninho, que tem uma relação conturbada com a filha e não costuma ler publicações de moda, respondeu à primeira entrevista de Lea pós-cirurgia de readequação lembrando à filha o que significa ser uma modelo na atualidade.  Um modelo de feminilidade, é claro.

Hubert de Givenchy trabalhou ao lado de Pierre Balmain, Christian Dior e Elsa Schiaparelli. Criou sua maison que faz parte do seleto grupo que é autorizado pelo governo francês a chamar suas criações de haute couture – a alta costura assim como o espumante champagne é controlada pelo governo, não basta querer fabricá-lo.  Como estilistas da marca, já passaram nomes John Galliano e Alexander McQueen. Em 2010, sob a direção criativa de Ricardo Tisci, Lea T. foi convidada a estrelar a campanha da marca. Lea ainda desfilou nas passarelas modelos de cifras altíssimas com seu corpo esguio e altamente feminino, inclusive no último desfile da marca. Lea T. ainda desfilou para Alexandre Herchcovitch no inverno de 2011, desfile com a temática rochas vulcânicas. Lea entrou na passarela às 22h26 de 29 de janeiro de 2011 com o vestido que representava a erupção de um vulcão. Na maior semana de moda do país em que nasceu. A modelo também estampou a capa das publicações Elle e FFW no Brasil, mas causou furor foi quando ela, mulher, estampou uma capa da revista LOVE, com Kate Moss, em que as duas beijavam-se na boca. Já diria a música: “mais macho que muito homem”.

LEA E KATE NA CAPA DA LOVE
Foto: Reprodução, Love Magazine

A reportagem do NYTimes problematiza a questão da liberdade de gênero no Brasil. Parte da moda para despontar números alarmantes da realidade brasileira. O Grupo Gay da Bahia relatou 338 assassinatos de gays, lésbicas e trangêneros no Brasil em 2012. Muito embora as cifras não pareçam tão alarmantes, vão ao cerne da questão quando se aprofundam nos dados da polícia ao lembrar que muitos crimes têm marcas de tortura em suas história, são crimes de ódio marcados pela falta de visibilidade de um grupo.

Em Desejo de Status, livro que citei no início da coluna, Alain de Botton resgata um trecho escrito por William James em 1890. “Não se poderia pensar numa punição mais demoníaca, se tal coisa fosse fisicamente possível, de que estar numa sociedade e passar totalmente despercebido por todos seus membros”, despontou James em Os princípios da Psicologia. Colocando o famigerado termo à prova, Botton comenta que o adulto tem duas grandes buscas na vida: a busca pelo amor sexual e a nossa história de busca pelo amor do mundo. O primeiro amor, o eros, é inspiração para a música e a literatura. O segundo deveria ser óbvio: todos somos necessariamente indivíduos com identidade e direito à existência comparáveis. Que o amor do mundo seja ululante.

Antes de terminar essa coluna, gostaria de dedicá-la a uma grande mulher, com um senso estético apuradíssimo, minha amiga Uni Corrêa. Dedico por puro amor à inspiração.

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